Estudo da demanda por ingressos no futebol brasileiro

 

O futebol possui incontestável importância no contexto esportivo brasileiro e mundial. Não obstante, os clubes de futebol brasileiros – alguns deles centenários – possuem diversos problemas organizacionais e encontram-se, via de regra, assolados por uma incapacidade administrativa crônica. A profissionalização do esporte e de suas estruturas de comando é incipiente e está muito distante dos patamares de organização e desenvolvimento alcançados pelos congêneres europeus.


            A modalidade esportiva mais popular do país levou 6,7 milhões de torcedores aos estádios na temporada 2009, montante que pode ser considerado acanhado quando comparado aos 27,1 milhões de torcedores que foram aos estádios ingleses na temporada 2008/2009. O afluxo de torcedores europeus aos estádios, especialmente a partir da década de 90, representa um claro exemplo do alto padrão de organização presente nas ligas européias. Esse padrão invejável alcançado na Europa faz com que os estádios dos grandes clubes da região apresentem lotação máxima de espectadores em praticamente todos os jogos da temporada. No Brasil, ao contrário, o montante de torcedores presentes aos jogos vem caindo nas últimas décadas.


Neste sentido, é fundamental que se compreenda quais são os fatores que influenciam – tanto negativa quanto positivamente – a presença do público em tais eventos. Tal análise auxiliará significativamente os gestores de clubes brasileiros, contribuindo para uma gestão eficiente e profissional do esporte. O foco deste estudo é, portanto, examinar o comportamento da demanda por jogos de futebol nos estádios brasileiros, por meio da análise do público pagante nas partidas da série A do Campeonato Brasileiro no período compreendido entre 2004 e 2009.


            Para estimação do modelo foram coletadas as informações relativas aos jogos do Campeonato Brasileiro nos anos de 2004 a 2009, por meio de consultas às súmulas e borderôs dos jogos. No total ocorreram 2.481 partidas, sendo que 31 delas apresentaram lotação máxima e foram consideradas como censura no modelo.


            A Figura ao lado exibe o gráfico da evolução do público pagante e da capacidade dos estádios no Campeonato Brasileiro de 2004 a 2009. A taxa média de ocupação dos estádios é de 32% em relação à lotação máxima no período avaliado, um percentual baixo, especialmente se comparado ao padrão europeu. Percebe-se que houve um aumento de aproximadamente 18% na capacidade dos estádios de 2005 para 2006, permanecendo constante de 2006 a 2009. Em termos de público, houve um aumento de 62% de 2004 para 2005 e um aumento de 40% de 2006 para 2007, sem grandes modificações de 2007 a 2009. Como houve este aumento do público ao longo do tempo avaliado, incluiremos variáveis indicadoras dos anos no modelo para que haja o controle deste efeito no tempo.


Fonte: Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Consulta ao site realizada em 12/09/2010. Inclui somente pagantes.

www.premierleague.com Acesso em 13/09/2010

O objetivo desse estudo foi o de demonstrar como e em que medida a demanda por ingressos é afetada por diversas variáveis de interesse, de tal forma que ações corretivas possam ser adotadas no sentido de fomentar a presença do público nos estádios. O modelo utilizado contemplou variáveis explicativas associadas ao ambiente econômico, à qualidade do produto e ao incentivo que as pessoas possuem para ir ao estádio. Em sua maioria, as variáveis são estatisticamente significantes, resultado em linha com outros estudos para os dois primeiros grupos de regressores.


O estudo demonstrou a importância que a partida possui para o campeonato é um fator de absoluta importância para explicar o comportamento da demanda por ingressos. Estimamos a relevância das variáveis relativas às posições das equipes que se enfrentam, tendo ficado explícita a influência dessas variáveis sobre o número de torcedores nos estádios. Mas talvez a conclusão mais importante com respeito às variáveis associadas à qualidade do produto seja a de que o desempenho recente da equipe mandante possui grande influência no comportamento da demanda por ingressos, sendo fator determinante no momento da tomada de decisão sobre ir ou não ao estádio.  


Somados, estes dois resultados são de suma importância para os gestores dos clubes no que diz respeito à tomada de ações corretivas para estimular o afluxo de torcedores aos estádios. Para mitigar o efeito negativo sobre a demanda (e, por conseguinte, sobre a receita auferida) de uma performance aquém da esperada (especialmente no que diz respeito ao desempenho recente) é fundamental que uma parcela significativa dos ingressos seja vendida antes do início do campeonato, como realizado com sucesso na Europa, onde os clubes disponibilizam a venda de pacotes de ingressos, oferecendo grandes vantagens para os torcedores que garantem a entrada prematuramente.


Muito já se disse sobre a necessidade de um calendário organizado e invariante que viabilize a venda antecipada de pacotes de ingressos. Entretanto, os gestores não devem negligenciar o efeito de uma infra-estrutura deficiente nesse processo, uma vez que o estudo foi capaz de demonstrar que a chuva exerce influência negativa na demanda por ingressos e a ausência de estádios cobertos (em sua totalidade ou parcialmente) é regra e não exceção no caso brasileiro.  

 

 

email: AdrianaB@insper.edu.br

 

Artigo

Estudo da demanda por ingressos no futebol brasileiro

 

Prof. Dra. Adriana Bruscato

(Estatística)

 

Pedro Trindade Iaropoli

 

 

Prof. Dr. Sergio J. Machado

(Administrador)

 

Insper Ibmec São Paulo

Figura 1 – Evolução do púb. pgte e capacidade dos estádios


 

 

 

 

15-Março-2011