Quinta-feira, 10 de Agosto, 2017

 

Abutres na Bovespa

 

Passaram-se alguns anos, não muitos, mas o suficiente para os novos investidores no mercado de ação não mencionarem muito sobre os fundos abutres e suas investidas em países com dificuldades. O abutre, mais conhecido como urubu, é o ser vivo mais abaixo na cadeia alimentar. Tem sua importância, como todo ser vivo, mas não deixa de ser repugnante.

O abutre é o lixeiro da natureza, ele literalmente limpa a podridão, deixando a carcaça para que seus ossos sirvam de adubo para a terra fazer nascer novas plantas, novos alimentos, uma nova renovação. Mas o abutre não tem sentimentos por nada, nem mesmo pelos seus companheiros de trabalho.

É só observar abutres em postes nas cidades com rios poluídos. Basta um abutre ser atropelado por automóvel que imediatamente os companheiros descem para devorá-lo. Diferente de outros animais, por exemplo macacos que já foram filmados na selva chorando por um companheiro velho e morto, o abutre come o mesmo "colega" que estava "conversando" com ele poucos minutos antes.

Assim é o mercado financeiro profissional. Não existe amigo, não existe ideologia, não existe racionalidade pensante. O dinheiro é o senhor do altar, não importa onde, nem quando. A Argentina até hoje está nas mãos dos fundos abutres que cobram pelos juros absurdos que foram praticados no início dos anos 2000.

Fundos abutres vasculham a todo momento no mundo, países em dificuldades, países em revolução social, para comer a carne do povo e dos governantes. Quando um país está desesperado por dinheiro, como a Grécia em 2010, os fundos chegam fantasiados de "bons moços" que trazem dinheiro para "salvar" os governos e colocar ordem no país.

Nada disso. Quando esses fundos investem, eles aumentam a volatilidade, aumentam a especulação, aumentam os riscos e tornam os países mais fracos e vulneráveis. E se o país tem governante corrupto, ladrão, insensível, mafioso, os fundos sentam à mesa para devorar a carniça e podridão dos atos praticados. Esses fundos adoram isso, vivem disso.

E o Brasil, já está almoçando com abutres. Eles estão em nosso meio, se fingem de amigos, dão aplausos aos atos mais corruptos e mafiosos dos políticos em todas as partes, em todas as esferas. Mas principalmente, esses fundos se sentem muito bem nas bolsas de valores. E estão na Bovespa, fazendo a festa para eles, enfiando nossas cabeças buraco abaixo.

O gráfico à seguir é uma comparação entre o Ibovespa (Brasil) e Dow Jones (EUA). O Ibovespa está sendo medido no eixo vertical da direita em cor laranja. O Dow Jones está sendo medido no eixo horizontal da esquerda em cor azul.

É fácil observar a tendência de alta na linha azul que representa o Dow Jones. Independente das eleiços nos EUA, independente da política ou guerra entre imprensa e o presidente Trump, a bolsa de valores nos EUA está em ampla e inclinada reta de crescimento. A oscilação em torno dessa tendência é muito baixa.

Já para a Bovespa, o nervosismo é visível. Basta o índice subir numa semana, que devolve tudo na semana seguinte. Não há melhora no quadro de investimentos como se falava meses atrás, ou como agora se pronuncia a equipe econômica e o presidente da república. O que existe é uma oscilação, como pode ser visto na linha laranja, sem tendência de alta ou de baixa, mas forte oscilações promovendo lucros absurdos.

Quem mais lucrou? Fundos abutres e seus amigos mais íntimos no Brasil: os bancos.

Uma maneira de ver isso, é observar as fortes oscilações através de ferramentas estatísticas utilizadas em análises de risco. Fizemos isso nessa semana, usando técnicas que são apresentadas em nosso mais recente livro lançado pela editora Blucher: "Análise de Risco em Aplicações Financeiras".

O primeiro gráfico ao lado é sobre os retornos comparados entre o Dow Jones e o Ibovespa.

São retornos diários, realizados dia a dia durante um ano de negócios entre as duas bolsas de valores.

Em laranja, mais transparente, colocamos as oscilações do Ibovespa, sobreposto sobre as oscilações do Dow Jones em azul.

Enquanto o Dow Jones oscilou nesse um ano de negócios diários entre -1,5% a +1,5%, o Ibovespa oscilou entre -3,8% a 4%.

Na verdade, 95% das vezes oscilou entre -2,5% a +2%. Pode-se reparar que num pregão (quando da gravação de Joesley da JBS) o Ibovespa caiu mais de 8%.

É muito gritante essa especulação que visa lucro rápido e imediato, num país onde a taxa de juros é a maior do mundo.

Os fundos se associam aos bancos privados do Brasil e jogam as oscilações diárias ao seu bel prazer, sem interferência ou regulação do mercado.

Isso acontece pois, mesmo tendo listada cerca de 500 empresas, a Bovespa sobe ou desce mexendo-se apenas em 10 ações, ou menos.

Enquanto o S&P 500 nos EUA oscila dependendo de inúmeros setores, fazendo com que se dilua as possíveis tentativas de manipulações, no Brasil de três a quarto fundos grandes levam o Ibovespa para onde se desejar.

Mesmo o mercado chinês, anos atrás sempre olhado com desconfiança e também atingido por fundos abutres, vem oscilando de maneira civilizada e muito próximo ao Dow Jones.

Como comparação, colocamos o índice chinês Hang Seng, comparando os retornos entre Hang Seng e Dow Jones ao lado.

Com exceção de um único dia onde o HSI caiu mais de 3%, o resto dos dias Dow e Hang Seng oscilaram em "harmonia" sem muita diferença. As oscilações ficaram entre -1,5% a +1,5% (ao lado)

Retornos comparativos entre Bovespa e Dow Jones

Retornos comparativos entre Dow Jones e Hang Seng (China)

Densidade de Probabilidade do Ibovespa, Dow Jones e Hang Seng

 

Box-Plot do Ibovespa e Dow Jones

 

Conforme comentamos em nosso livro, resolvemos calcular as densidades de probabilidades, ou seja, as curvas de frequências entre os intervalos dos retornos de Ibovespa, Dow Jones e Hang Seng.

Ao lado é possivel ver as três curvas em sobreposição, apresentando em vermelho o Ibovespa, em azul Dow Jones e em verde o Hang Seng.

Uma distribuição nos diz qual processo, evento ou dados representam mais risco, à medida que essas curvas são mais alongadas, mais esticadas.

Isso porque a variabilidade é medida através do conhecido desvio padrão. Quanto maior o desvio padrão, a grosso modo, sinifica (mas nem sempre), maior a distância entre os grandes retornos positivos e as perdas.

Assim, como o leitor pode observar, a distribuição da curva em vermelho do Ibovespa é a mais alongada entre as três bolsas, ou seja, aquela com maior volatilidade.

Operações a todo momento podem ser vista no book de oferta, com fundos especulativos direcionando os negócios para o lado que assim desejarem. Estão sempre na ponta de cima da tabela de compradores e vendedores.

Em dia de alta, quando o pequeno investidor acha que ganhou algo, esses fundos ganharam excessivamente mais. Isso porque operam com os chamados robôs traders.

Em dia de baixa, esses fundos abutres entram pesado na ponta vendedora do índice futuro, empurrando o mercado cada vez mais para baixo.

Qual o resultado de "puxa-estica"? Para o investidor desavisado, isso é muito bom, pois lhe dá oportunidade de ganhos financeiros.

Mas não podemos esquecer, que as empresas que tem ações na bolsa, elas também depdendem desses negócios. E dependem dos retornos positivos.

Oscilações fortes levam incertezas a essas empresas, que acabam parando os investimentos. E parando investimentos não crescem, não vendem e .... demitem.

Em pouco tempo, o "puxa-estica" arrebenta a bolsa, causando um grande crash, como aconteceu na Russia, México, Brasil e Argentina em 1998.

Uma prova do absurdo e monstruoso "estica-puxa", apresentamos ao lado uma análise de Box-Plot para Dow Jones e Ibovespa.

Os retângulos centrais indicam a mediana dos retornos e as hastes alongadas os resultados máximo e mínimo. Não precisamos comentar a total diferença entre esses dois mercados, sendo o mercado da Bovespa de longe o mais arriscado entre os dois.

Investidores sérios desejam boas oportunidades de ganhar com suas apostas de longo prazo. Quem deseja ganhar com oscilações rápidas e fortes são especuladores. E os especuladores mais sérios que movem a bolsa são os aproveitadores ligados aos chamados fundos abutres.

Esses fundos não estão mais rodeando a Bovespa, estão devorando a Bovespa, deixando no osso pequenos investidores que acreditam na tal recuperação que não vem. Com o alto grau de desemprego, baixa produção na indústria, falta de dinheiro circulando e fundos abutres operando aqui dentro, só temos um cenário a frente: carniça servindo de adubo.

Mas a planta da recuperação não vai se aproveitar desse adubo, porque diferente dos abutres animais, os abutres financeiros não largam do país nunca. É só olhar a nossa vizinha Argentina.

Quem pensa que ganha com essas oscilações especulativas precisa aumentar o horizonte das observações, pois está ganhando apenas aquilo que esses fundos desejam, e não aquilo que sua esperteza lhe faz acreditar que lucra. O retorno imediato é pouco dinheiro, o retorno de longo prazo é crise de desemprego.

 

 

 

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