Sábado, 19 de Maio, 2018

 

Administração ou Correlação na Petrobras?

É muito comum em salas de aulas de início de pós-graduação a existência de alunos que desejam aparecer frente aos demais. Como existe uma congregação de diversas e distintas áreas, muitas vezes alunos querem mostrar seu conhecimento pra impressionar seus colegas de turma. Sendo um aluno de finanças, por exemplo, poderá esse interpelar o professor sobre um determinado assunto dizendo que "... na minha áera fazemos diferente..." enquanto um aluno de direito diz "... nos tribunais essa operação é diferente...".

Muitas dessas falas quase sempre são inócuas, sem relação com a matéria. Tanto que se pegarmos esse mesmo aluno e colocarmos frente a outros de sua área, com mesmo nível de conhecimento sobre o assunto, ele se cala. O bom aluno percebe que não pode se pronunciar sobre o mesmo assunto pois é uma obviedade e, ao invés de impressionar positivamente, impressiona negativamente por um discurso vazio.

Nessas últimas semanas estamos vendo discursos sobre a recuperação da Petrobras, sempre o governo puxando a brasa para sua sardinha, ou o presidente da Petrobras dizendo que "sua administração" recuperou a empresa. Para os leigos nesse assunto, parece verdade e soa muito como verdade.

Se uma pessoa pega uma empresa com valor de R$ 4,00 por ação e dois anos depois entrega com R$ 27,00, será sempre tratada como um verdadeiro deus do Olimpo, o "senhor dos senhores".

Mas não é nada disso.

Só para lembrar um pouco da história, em 2001 o senhor Pedro Parente, atual presidente da Petrobras, acumulava os cargos de ministro da Casa Civil de Fernando H. Cardoso e ministro das Minas e Energia. Apesar de todos os alertas dos especialistas, se recusou a fazer os investimentos necessários no setor hidrelétrico.

Como pode ser visto a seguir em uma pequeníssima amostra da imprensa da época, o Brasil foi atingido pela maior crise de energia de todos os tempos, com blackouts que chegaram a durar mais de 12 horas. A própria competência do ministro foi colocada em jogo, porém continuou no cargo por defesa insistente do presidente da República e depois de diversos acertos políticos para se evitar a abertura de uma CPI.

A solução do senhor Pedro Parente foi muito parecida como a que agora ele aplica na Petrobras. Jogar a "bomba" para a sociedade civil, para o cidadão comum. A energia elétrica subiu absurdamente naquele ano, além de faltar e todos sermos obrigados a desligarmos aparelhos e reduzirmos drasticamente o uso da nossa eletricidade caseira.

Como pode ser visto no recorte de jornal à seguir, o tal "comitê de crise" chefiado pelo senhor Pedro Parente fez diversas propostas, todas voltadas para multas e restrições ao uso da energia. O governo estava relutante, mas acabou cedendo, gerando um ano inteiro de críticas até mesmo de aliados.

Segundo o TCU - Tribunal de Contas da União, essa decisão de não investir e de impor multas para a sociedade civil levou ao rombo de R$ 45,2 bilhões. Ao relutar, como ministro das Minas e Energia em fazer investimentos nas hidrelétricas, o senhor Pedro Parente levou para todo país um rombo desse porte.

Então, saiu pela porta da frente e foi trabalhar na iniciativa privada. Agora retornou ao governo de Michel Temer e modificou a política de preços dos combustíveis. A variação diária nos preços, segundo a empresa, é baseada na variação internacional. Interessante é que quando os preços do barril de petróleo caem 2%, 3% ou perto disso, o repasse é sempre em decimal de porcentagem, por volta de 0,1%, 0,3% e assim por diante.

Com isso, a variação em um ano já passa de 50% para os combustíveis. Além de jogar para a população mais uma vez a conta por falta de investimentos, a empresa já se desfez de diversos ativos entre eles poços do pré-sal, ainda sem mesmo se saber o tamanho real desses verdadeiros depósitos de diheiro líquido e viscoso.

Uma maneira visual de confrontar as palavras do governo sobre a recuperação da Petrobras ser resultado de uma "boa administração", é observar o gráfico abaixo.

 

Relação Petrobras x Preço do Barril de Petróleo (crude)

Não precisa ser nenhum cientista para verificar que a linha azul segue "colada" na linha laranja. A linha azul se refere ao preço da ação da Petrobras (PETR4) e a linha laranja ao preço do barril de petróleo negociado na bolsa de N. York, o barril tipo "crude". Como se pode ver, sempre a ação está seguindo o preço do barril.

Claro que vão dizer que foi uma mudança de "governança corporativa", uma mudança nas regras internas, uma mudança nas negociações, uma melhor transparência na empresa. No entanto, como se sabe, mesmo com essas mudanças, no ano passado a lavajato descobriu casos de subsidiárias da Petrobras com funcionários fazendo o mesmo esquema de desvio de dineheiro de antes.

O volume de dinheiro é tão grande, que agora os roubos ficam "menores" diante dos bilhões de dolares que se agregam à empresa por conta do aumento no preço do barril de petróleo.

Mas não podemos ficar só no visual de um gráfico, isso é errado. Não podemos ter apenas convicção, mas olhar as provas que constam nos dados usando ferramentas adequadas.

Esse senhor ao lado se chamava Karl Pearson e viveu entre 1857 e 1936. Revolucionou a área de Estatística Aplicada, levando rigor às análises com base em testes por ele criado.

Por exemplo, uma das medidas se refere à correlação de dados. Sua fórmula ao lado pode assustar ao leitor que não é da área de Ciências Exatas.

Mas essa fórmula quantifica de forma bastante representativa como se correlacionam duas variáveis. Por exemplo, se uma variável aumenta e a outra também, dizemos que possuem correlação positiva.

Se o sinal da fórmula é negativo, dizemos que a correlação é negativa. Isso significa dizer que quando uma variável cresce a outra descresce.

Claro que isso nada diz a respeito da causa-efeito. Por exemplo, poderemos ter uma forte correlação entre dia de chuva e queda na bolsa de valores.

Mas o que isso significa?

Nada.

Para ter sentido, os valores numéricos devem estar relacionados e medindo resultados de eventos que se combinam, que se relacionam fisicamente.

Por exemplo, se uma taxa de glicose é alta e um paciente possuí inflamação grave, a correlação é alta, pois biologicamente se sabe que o açucar aumenta o nível de infecções.

O mesmo vale para uma empresa de petróleo, que vende petróleo, que vende combustível.

Sua relação com o preço do produto é alta, é um evento que se completa.

Essa fórmula da correlação varia entre -1 e +1, ou como se queira, entre -100% e +100%.

Para a felicidade de quem deseja fazer o cáclulo, a fórmula já está programada no Excel.

Basta o usuário escrever "=CORREL(matri1;matriz2)" e o resultado entre a matriz da variável 1 e 2 aparecerá nas células.

Para o caso entre o preço do petróleo e o preço da ação da petrobras, podemos começar observando o histograma do preço do barril ao lado.

A distribuição dos retornos do preço do barril forma uma perfeita distribuição de probabilidade normal com cauda fina.

No caso da Petrobras e preço do barril do petróleo, encontramos a Correlação de Pearson nesses últimos dois anos em 89,56%.

Karl Pearson - Estatístico

 

 

Fórmula da Correlação de Pearson

 

 

 

 

Reitor suicidou-se e PF não apresenta provas concretas

 

Um exemplo de resposta da tabela dinâmica : Petrobras x Petróleo

A correlação é quase total. Quando o preço do barril sobe, o preço da ação subirá.

Para as ações da Petrobras também fizemos o histograma ao lado. Depois calculamos os retornos do preço da ação para comparar com o barril.

O retorno médio do preço do barril do petróleo foi de 0,2% e das ações da Petrobras de 0,36%.

Considerando que o desvio padrão do preço da ação foi de 0,3% e do barril de 0,2%, estatísticamente com 95% de confiança os retornos são os mesmos.

Mas muito mais interessantes do que olhar os parâmetros estatísticos de média e desvio padrão, é usar o recurso da tabela dinâmica do Excel para responder algumas questões.

Por exemplo, examinamos nesses dois anos de dados diários o que aconteceu com o valor da ação quando o preço do barril aumentava acima de 2%.

Para esse caso, quando o preço do barril aumentou mais de 2%, o preço da ação se valorizou em 42 dias diferentes, ou se levarmos em conta o período total, 8% dos dias úteis..

Quando a faixa de aumento do barril esteve entre 2% e 3%, o preço da ação ficou por 10 vezes entre 0% e 3%.

Ou seja, para os dias observados entre 2016 e 2018, quando o preço do barril esteve entre 2% e 3%, a ação subiu até 3% em quase 2% dos dias.

Mas tivemos ainda 3 dias em que a ação se valorizou acima de 9% para um aumento no preço do barril de 3%.

Em outro caso, perguntamos para a tabela dinâmica as mesmas questões, mas agora não mais restringindo para alta de 2% no preço do barril de petróleo. A pergunta foi:

"Se o petróleo tem qualquer tipo de alta, o que acontece com o valor da ação?"

A resposta é que se restringirmos apenas nas altas do barril, em qualquer dia de alta entre 2016 e 2018, a ação da Petrobras caiu apenas em 38% dos dias (110/288). Para qualquer tipo de alta do barril a Petrobras correspondeu fortemente com altas em 62% dos dias!

Isso mostra que os investidores internacionais ou nacionais estão mais de olho no que acontece no petróleo do que realmente o que acontece na empresa. Claro que todas as atitudes de transparência, de barrar os desvios de dinheiro, de punir exemplarmente funcionários, de demitir maus funcionários e otimizar a relação custo/benefício conta e vale, mas não apenas para a Petrobras e sim para todas as empresas.

No caso específico da Petrobras, o que os investidores querem é mais que o preço do petróleo suba. Se isso ocorrer, as ações da empresa vão continuar subindo, independentemente da administração.

No caso específico, as palavras do governo não contam. As ações subiram por conta da alta no preço do barril e não por possíveis melhorias internas na economia.