Sábado, 10 de Julho, 2010

 

 

Começam as restrições em Wall Street

Finalmente as novas regras para o mercado financeiro americano vão começar a sair do papel. Já passou na casa dos deputados americanos no dia 30 de Junho e agora está no Senado para votação o que está sendo chamada de maior mudança desde o "new deal" de 1929. Serão grandes mudanças para o mercado financeiro e serão tantas que vai demorar alguns anos para os investidores começarem a sentir na prática. O objetivo inicial das mudanças já está sendo implementado nos grandes bancos americanos e ainda não foi percebido pelo público comum.

Segundo a reportagem do yahoo.finance (" New rules, big changes coming for financial world") os bancos vão sofrer com suas linhas de crédito após as regras serem sancionadas. Quem emprestar vai ter que conceder um número muito maior de informações e quem solicitar empréstimos vai ter que provar que poderá pagar. O comportamento de risco será muito mais monitorado do que vem sendo nos últimos anos.

Quem é o primeiro vilão? Além dos grandes bancos que tomaram empréstimo do governo americano o segundo principal perseguido serão os derivativos. Os investidores que adoram derivativos vão sofrer marcação cerrada, segundo o documento oficial da casa branca composto de 2.300 páginas. Mas o impacto de verdade será completamente sentido apenas em um ou dois anos após a implementação, segundo garantem alguns deputados e senadores democratas.

Apesar de necessários 60 votos para sua aprovação, os senadores que ainda são contra estão sofrendo marcação cerrada visto que no segundo semestre ocorrerão eleições locais em seus estados e condados. A primeira "dor" para os bancos será no bolso. Ao contrário dos previstos 11 bilhões de dólares em impostos, a nova estimativa é que os grandes bancos e fundos hedge deverão desembolsar ainda esse ano 19 bilhões de dólares.

Outra regra nova é que grandes instituições tais como indústrias e setores de manufaturas que usem derivativos para se protegerem das flutuações do mercado, terão que se reportar aos novos órgãos reguladores que determinará o quanto de dinheiro eles deverão colocar como seguro para cobrir as apostas. Apostar apenas na compra pura de derivativos ou índice futuro será operação monitorada a partir da execução das novas regras.

 

 

Essa é uma atitude bastante saudável e necessária no mercado atual, como já discutimos em texto anterior sobre a disputa entre Obama e o mercado ("O silêncio dos inocentes"). No dia 18 de Janeiro o presidente Obama foi enfático em pedir a devolução do dinheiro aos bancos. Desde então colocou os deputados e senadores para trabalhar numa reforma dura contra a ciranda do mercado de Wall Sreet. Como Obama estava enfrentando o problema do sistema de saúde dos EUA, a questão financeira ficou nos arredores das discussões. Após a primeira vitória de grande porte com o assunto da saúde, parece que a segunda batalha é com os bancos que receberam os empréstimos de 700 bilhões de dólares ( em torno de 300 bilhões do montante total).

A mesma discussão da época volta à tona. Quem vai romper o cabo de guerra primeiro? Sim porque é sabido que quando os bancos comerciais e de investimentos são cutucados, notícias e relatórios "estranhos" surgem para causar um certo pânico aos investidores. Depois de aplicadas as novas regras, qual será o novo cenário financeiro mundial? Qual a próxima "péssima" notícia que surgirá? O governo americano está estudando maneiras de fiscalizar também os tais relatórios de recomendação, mas de imediato não existe condições para isso.

 

 

E para o Brasil, o que muda? Primeiro que os investimentos especulativos das empresas e fundos americanos serão monitorados pelos reguladores, logo, entradas e saídas rápidas talvez não sejam tão fáceis como é hoje. Segundo que ao declarar investir em países e bens mais arriscados os fundos americanos terão que pensar duas vezes, pois deverão deixar depósitos estabelecidos pelos reguladores. E em terceiro, não teremos como escapar. Na verdade nem nós, nem o resto do mundo financeiro. Sendo as bolsas americanas as que movimentam maior montante financeiro do mundo, aos poucos, todas as bolsas terão que se integrar e aplicar as mesmas regras para manter coerências das aplicações. Então, os fundos de investimento do Brasil, os Bancos e todo sistema nacional, em breve terá que começar o mesmo tipo de discussão sobre o controle mais efetivo das aplicações no mercado financeiro.

Do ponto de vista de segurança, a idéia é boa e pode segurar possíveis perdas. O problema é se terá tempo hábil para segurar possíveis manipulações dos grandes bancos de investimentos mundiais, sempre com a tendência em forçar uma flexibilização das regras ou não aplicação total e imediata.

No Brasil temos então que adicionar mais essa variável aleatória nas aplicações às outras já existentes: eleições presidenciais, aporte financeiro para a Petrobrás, investimentos para a copa do mundo e teste de stress para os bancos europeus. O segundo semestre vai começar com muitas novidades e grandes flutuações nos mercados mundiais e aqui também. É hora de levantar a vela do barco e escutar o som dos ventos informativos que vem do exterior, surfar nas ondas da volatilidade e se segurar para possíveis ondas gigantes.