Quinta-feira, 25 de Agosto, 2016

 

Pobres ficam sem anéis olímpicos

"... Socorro, socorro, pega ladrão!....". Ao descer do "famoso" BRT no Rio de Janeiro o choro era alto, forte, com sentimento de impunidade e solidão por uma mulher loira, sentada ao chão com sua filha pequena. Chorava copiosamente, já com o rosto todo vermelho e inchado, no que aparece um rapaz forte e diz: A senhora marcou touca, marcou bobeira. Aqui no BRT só tem ladrão, estuprador e p****a. Eu sou segurança daqui e vejo essa cena muitas vezes ao dia minha senhora..."

 

 

Fomos ao Rio de Janeiro acompanhar em loco a Olimpíada, um momento único em que todos tem o mesmo direito. O direito de provar que é melhor do que os outros por seus próprios meios e esforços. Claro, que essa ideia não faz muito sentido nos dias atuais, visto que tem muito dinheiro em jogo. O dinheiro compra os melhores centros de treinamentos, melhores treinadores, melhores equipamentos, mas ainda assim, pode-se ver a força da adrenalina vencer em muitas vezes aqueles ditos "favoritos".

Foi assim com diversos medalhistas brasileiros nessa Olimpíada, vindos de comunidades pobres, desconhecidos, e sem a reportagem "fofinha" do repórter Pedro Bassan da Rede Globo. O repórter enalteceu os antigos medalhistas e os elegeu como os "favoritos" brasileiros a heróis e medalhistas meses antes das provas.

O profeta Bassan da Rede Globo, que fez a reportagem para o JN, errou quase todos os prognósticos. Acertou apenas em Zanetti, obstinado, dedicado, sério e perfeito no que faz. Se o intuito do repórter era gerar um livro após a Olimpíada com suas previsões, perdeu três meses de trabalho.

Dos atletas que venceram e tiveram medalhas, apenas 3 não tem bolsa do governo. Sim, ninguém comenta, mas os atletas medalhistas recebem o que se chama "bolsa atleta", criada no governo Dilma com 60% do governo federal e 40% das Forças Armadas. Antes de serem considerados como militares, os nossos medalhistas são bolsistas. Obviamente que antes da competição, receberam críticas por "mais uma bolsa criada" e agora, todo mundo esconde suas críticas a essa bolsa atleta.

E a bolsa, ainda assim é de valor baixo, valor quase irrisório pela qualidade técnica daqueles que a recebem. O governo deveria oferecer muito mais do que apenas os R$ 3.000,00 que paga.

Na realidade muitos medalhistas como os atletas da canoagem eram considerados apenas atletas internacionais e recebem uma bolsa de apenas R$ 1.850,00. Somente a partir de agora receberão R$ 3.100,00, se o ministro da fazenda não cortar. Existe um plano para depois do impeachment de eliminar a grande maioria das bolsas existentes no país. Ninguém sabe quais serão, mas os cortes virão.

Estivemos na Feira Mundial das Nações em Sevilha, Espanha, em 1992. Para os especialistas foi a melhor feira de nações até hoje. E podemos então afirmar que a Olimpíada do Rio não ficou a dever nada em relação a Sevilha. O esquema para os turistas funcionou muito bem, com facilidades de embarque no metrô, no BRT, no VLT e pontos turísticos restaurados.

A recuperação da Praça XV no centro da cidade foi um marco de avanço e revitalização. Muitos food truck com diversos tipos de comidas com preços acessíveis, bom divertimento, área portuária restaurada com o novo Museu do Amanhã e ruas ampliadas e bem iluminadas.

Segurança?

Nenhuma preocupação, com policiais por toda parte, com policiais nas áreas conhecidas como "Rio 2016" vestindo uniformes do exército, da força nacional, das polícias civis e militares, além dos seguranças da Olimpíada. A ideia de utilizar mão de obra de graça com os voluntários deu muito certo.

É realmente de se pensar, como alguém se preza a trabalhar tanto, horas e horas a fio, sem receber nada! Os voluntários foram maravilhosos, orientando, divertindo, limpando, informando e mereciam não apenas aquele bouquê de flores da cerimônia de encerramento.

Os voluntários mereciam receber medalhas de ouro!

As arenas são lindas. Enormes, com estrutura de primeiro mundo, com ar-condicionado central, quadras com iluminação excelente, forte, chamativa e quadras impecavelmente lustradas. Os banheiros bem limpos, sem papel no chão, com sabonete líquido e o melhor, funcionário o tempo todo com vassoura e pano com desinfetante, limpando o chão.

Nenhum turista pode reclamar da estrutura do Parque Olímpico.

Quanto à comida dentro do Parque.... preços abusivos, sem muita opção, com falta de água mineral quando a lotação era completa, sem opção de variação e reserva de mercado. Apenas se podia comprar comida e bebida com dinheiro ou uma única bandeira de cartão de crédito.

Enfim, tudo isso foi visto em outros eventos internacionais que visitamos. O Rio teve problemas, como em todo lugar no mundo, mas não se pode afirmar que foi pior, mais esculachada ou uma olimpíada má organizada. Foi um belo e interessante evento, e por isso mesmo, o turista adorou. O turista estrangeiro se encantou com o jeito de "zoar" do carioca, de torcer para o mais fraco provocando o mais forte e sendo solícito o tempo todo. Parabéns ao povo carioca pela sua simpatia e receptividade.

Mas bem claro, parabéns ao carioca, não ao político carioca!

Como desconfiávamos, o lado maléfico por trás desse evento, realmente foi a exclusão dos mais pobres. Na verdade não foi somente uma exclusão, mas um seletivo esquema para tentar evitar de qualquer maneira que o turista se desviasse do caminho criado para se chegar aos jogos. Sem um cartão com o símbolo da olimpíada tudo era mais complicado, vigiado e evitado.

E por isso mesmo, os mais pobres nem mesmo tentaram chegar perto das áreas ao redor do Parque Olímpico.

Mas, sem querer, querendo, ... chegamos onde turistas não deveriam estar.

E todo nosso encanto voltou para a realidade nua e cruel. O prefeito do Rio e sua organização escondem o verdadeiro legado dos jogos olímpicos. Não existe esse tal "legado" tão pronunciado pela organização. O pobre da região mais afastada do centro não se envolveu com os jogos e muito pelo contrário, se sentiu ainda mais excluído.

Ao sair do Parque Olímpico, saimos com uma informação errada de caminho. E tomamos um BRT não "olímpico", mas um BRT normal.

O BRT saiu da Barra da Tijuca e não foi em direção do trajeto olímpico, mas foi para a zona oeste do Rio de Janeiro.

Descobrimos a diferença entre o BRT "parador" e o BRT "expresso" na zona oeste. Ao tomar o BRT "expresso", onde o prefeito do Rio faz propaganda de sua rapidez, o cenário foi de guerra.

Horário? 16 horas.

Na estação, mulher chorando com roubo de bolsa e celular. Um rapaz que se dizia segurança tentava bater num senhor de idade, alegando que ele era o culpado pelo roubo do celular.

O senhor de idade dizia que era trabalhador. O segurança afirmou que estava "cansado de ver bandido alegar que era trabalhador".

Assim que chegou o ônibus entramos, ou na verdade fomos empurrados para entrar. Nada diferente do metrô de São Paulo.

Para permanecer em pé, seguramos a barra com apenas um dedo da mão, e sentimos em várias estações o que é flutuar.

Sim, nossos pés sairam do chão, tamanha era a pressão de pessoas se amontoando no ônibus. Ar-condicionado? Sumiu, não dava conta.

Pessoas simples, cansadas, diaristas, mecânicos, trabalhadores de verdade, trabalhando e tentando chegar em casa, completamente alheios aos jogos.

 

BRT carioca "real" - Lotado

 

BRT do prefeito Eduardo Paes - Tão lotado que não tem onde se segurar

Estação BRT na zona oeste. Era para ser vazia e segura

 

BRT da zona oeste do Rio. Vazio e confortável como afirma o prefeito

 

Em conversa com uma diarista, perguntamos se todos os dias era daquele jeito. Ela responde:

"... não, no dia que teve alerta falso de bomba por causa uma mala perdida na rua foi o melhor da minha vida. Os ônibus estavam vazios, foi o único dia que o BRT estava rápido e vazio. O melhor dia que o ar-condicionado funcionou..."

Na parada conhecida como "Bairro Tanque" entraram rapazes estranhos, com conversas esquisitas, típicos de ex-presidiários. Amendrotavam todo mundo, saindo para fora do ônibus nas paradas e incentivando que todos entrassem no ônibus, empurrando com as mãos e sorrindo da malandragem.

Claramente eles faziam isso para tentar bater carteira. Numa dessas tentativas, o motorista fechou a porta do BRT no braço do "suposto bandido". O braço pendurado do lado de fora fez o rapaz chorar de dor, diante da pressão pneumática da porta esmagando seu braço.

Com esforço e gritaria de todos ele conseguiu soltar seu braço. Quando da parada em Madureira, observamos pessoas cansadas, querendo apenas chegar ao trabalho. As ruas são lotadas de pessoas, simples, mas sorrindo, apesar da extrema sujeira e pobreza.

E pensar que lá é o lar de grandes compositores do samba carioca, responsável por divulgar a cidade.

Finalmente o BRT chega ao bairro Vicente de Carvalho. Era o ponto de encontro entre o BRT e o metrô. Parecia um alívio, pois todos desceram em direção ao bairro.

Foi quando fomos "saudados" com um salva de tiros de metralhadora. Seriam mesmo tiros? Quem sabe não é apenas um rojão? Mas olhando melhor não tinha fumaça e nem mesmo o tradicional barulho de fogos de artifício.

É, não era um rojão festejando medalha olímpica. Eram tiros. Descobrimos que esse é mais um dos bairros dominados por milícias e traficantes. O prefeito, que é da zona sul, nunca passou por lá.

Ouvimos em passos apressados uma moradora local dizer: "... nossa, começaram cedo hoje...".

A naturalidade dela espantou. Todos os dias isso acontece. Só naquele dia é que foi mais cedo, ainda com luz do Sol.

Então, caro prefeito do Rio. Cadê o legado? Onde estão os supostos benefícios que os carentes iriam herdar da Olimpíada? Nas imagens oficiais sobre o BRT, VLT e novo metrô que se encontra na internet, os ônibus estão vazios, as pessoas elogiam o ar-condicionado, a interligação com o metrô, a facilidade e rapidez do transporte. Sim, porque segundo o prefeito do Rio o grande legado foi a mobilidade urbana.

Não é verdade. Diversos vídeos mostram como funciona o BRT "real" no Rio. Por exemplo esse (clique aqui para ver).

O grande legado para a Barra da Tijuca e pessoas da zona sul do Rio de Janeiro foi a mobilidade urbana. Para o cidadão comum, pobre e da zona oeste, o que aconteceu foi apenas a mudança de nome do ônibus. O sistema continua arcaico, sem qualidade, lotado e com pessoas tristes. Para os turistas, a praça XV está linda, mas para o carioca mais pobre, nada disso o beneficiou.

O carioca da zona sul e da Barra, com certeza vai discordar. Para ele os jogos permitiram que ele, que já possui carro importado e bom salário, utilize um excelente ônibus e metrô até o centro da cidade. Mas para os outros lugares, nada do que está na olimpíada servirá como legado e melhoria para o cidadão mais pobre.

Depois de todas essas observações, ligamos para o Comitê Olímpico Brasileiro, no setor de comunicação. Ouvimos do outro lado da linha uma voz feminina perplexa, pedindo diversas vezes desculpas pela informação errada. Segundo ela, a recomendação era para sempre deixar o turista restrito dentro da área fechada para os jogos.

Segundo suas próprias palavras: "... indicaram ao senhor linhas de BRT que não funcionam, sinto envergonhada por isso, mas tenho que admitir que o BRT que funciona é esse que o turista usa na Barra e zona sul. É vergonhoso, mas os BRTs foram preparados para os turistas se locomoverem para as praças de jogos, porque fora dessa zona ele tem limitações e não é seguro... Nunca deveriam ter indicado as comunidades que foi acessada, o senhor correu sério risco...".

Com risco ou não, devemos agradecer pela informação errada. Mais uma vez, de forma alternativa, podemos observar que os políticos mentem, que maqueiam os eventos em benefício próprio e não do povo. Temos que ver o lado bom da informação errada. Tivemos em local não onde nunca deveríamos estar, mas onde ninguém deveria estar. Pessoas honestas e trabalhandoras não deveriam estar enfrentando a situação que observamos.

É inadimissível os gastos de bilhões não deixarem nada, absolutamente nada de útil ou concreto as pessoas mais carentes e necessitadas dessas comunidades que "visitamos". Infelizmente, apesar de um sucesso internacional, para o carioca mais carente, os jogos olímpicos não deixaram legado nenhum. Essa palavra foi uma farsa comprovada.

Que pena, os arcos olímpicos que representam a união, para a população mais carente serve apenas como um anel de divórcio entre o pobre e o rico.

 

 

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