2010 : diagnósticos e prognósticos financeiros

Diagnosticar significa identificar um evento e descobrir suas causas baseadas em evidências anteriores ou em conhecimentos que possam explicar as causas desse evento. Já o ato de prognosticar significa prever possível desenrolar de uma situação com base em conhecimentos que sejam suficientes para uma previsão. Tanto um diagnóstico como um prognóstico não são fáceis de realizar. Às vezes, mesmo com todas as evidências e técnicas, algo novo e inesperado acontece de forma que o possível se torna inexplicável ou imprevisível. Por isso conhecimentos passados e toda técnica conhecida pode não ser garantia de resolução ou previsão de um evento.

Nessa época do ano, é bastante natural pessoas procurarem especialistas para consultarem o que pode acontecer no ano seguinte. Cartomantes, pais-de-santo e numerólogos tornam-se, em passagens de ano, os grandes conhecedores do futuro. Alguns anos atrás, uma grande rede de televisão brasileira realizou um experimento muito interessante. Resolveu por alguns anos seguintes consultar e gravar imagens desses especialistas do futuro e comparar os acontecimentos no final do ano para ver quanto acertavam. Resultado: todos ficaram em todos os anos e em todas as previsões abaixo da média de qualquer cidadão comum. Muito menos de 50% das previsões se concretizaram. Os erros foram tantos e tão seguidos que passaram a não mais seguir com essas entrevistas. Prova mais do que estatística de que eles não têm poder nenhum de previsão do futuro.

Errar é humano e tão humano que pessoas consideradas gênios também erraram e de forma grotesca como mostrado no livro “Os erros de Einstein” de Hans C. Ohanian.  Lembro-me da primeira vez que pisei nas areias de uma praia quando uma onda se aproximava. Por algum instante eu jurava que estava andando sobre as areias quando as ondas batiam e não que as ondas apenas estavam deslocando as areias abaixo dos meus pés. Por isso confiar apenas na intuição humana pode nos levar à erros de interpretação grave.

No livro de Ohanian, o autor conta alguns erros de gênios tais como Galileu, Newton, Lorentz e Einstein. Por exemplo, Newton errou de maneira absurda forçando suas equações sobre ondas sonoras ao incluir uma constante para chegar o mais próximo da velocidade do som conhecida. Ele supôs que ao viajar pelo ar, um projétil se encontrava com duas formas de ar: ar e “vapores de ar”. Isso faria a velocidade do som ir aumentando até chegar aos 300 km/h. Ele resolveu forçar a previsão de suas equações para forjar resultados mais condizentes com os dados.
Nessas últimas semanas, vários analistas foram ouvidos em diversos tipos de mídia para fazerem prognósticos sobre a economia e finanças para o ano de 2010. Assim como não previram a crise, a grande maioria prevê um ano de excelente crescimento, o término da crise, o aumento do PIB, etc. Como errar é humano e como gênios cometeram absurdos em suas teorias, esses analistas também possuem o direito de errar. Eles não possuem o direito de errar quando usam ferramentas erradas de projeção, ferramentas inadequadas, sendo que outras mais sofisticadas e qualificadas estão à sua disposição. Assim como Isaac Newton não deve ser perdoado por sua desonestidade nas equações do som (pois ele sabia que estava errado), analistas que sabem que estão usando informações fracas para previsões tão importantes dos clientes não devem ser perdoados. Certa vez questionado por mim, um amigo analista, de por que usava regressão linear quando todos sabemos das quantidades não lineares e aleatórias do mesmo. Sua resposta: Por que devo usar coisas tão complicadas se me pagam bem para usar coisas tão simples mesmo que estejam erradas!

Não existe a melhor ferramenta para projeções, mas as mais adequadas e as mais qualificadas para determinado tipo de problema. Como já comentado em outros “post” o grande erro de analistas de mercado é a hipótese absurda de que o comportamento do mercado é linear e discreto e uma simples reta é suficiente para previsões de tendências ou de mudanças de tendências. Não são. E então partem para o “achismo” ou para a famosa frase em redes de televisão “eu aposto que...” ou “ a aposta de nossa empresa é...”.

Com base na ferramenta que orienta esse site, o índice de mudanças abruptas (IMA), estamos a algum tempo indicando sinal forte de mudança no mercado brasileiro. Em retrospectiva a esse padrão em eventos semelhantes observados, um possível diagnóstico sobre 2009 é que o mundo não saiu da crise. Ocorreram bolsões de recuperação para onde o montante (ou parte dele) de 200 bilhões de dólares migraram para empurrar as bolsas na perspectiva errônea de que a crise tinha terminado. Por isso o presidente dos EUA Barack Obama se reuniu com banqueiros para dar um “puxão de orelha”. Ele tinha esperança que o montante iria para contratação de pessoal, no investimento em construções, no incentivo às indústrias, no entanto o dinheiro foi canalizado para as bolsas. Por isso os bancos estão pagando a conta e devolvendo parte do dinheiro e indiretamente devolvendo o problema ao governo dos EUA. Os bancos foram salvos e agora estão dizendo que com a devolução do dinheiro o problema é do governo.

Quanto aos prognósticos para 2010 vamos pegar um prisma para dividir a luz no fundo do túnel em duas partes. A primeira é sobre um possível cenário pessimista. Como se viu, Dubai World foi salvo por Abu Dhabi que por sua vez está cobrando 8 bilhões de dólares do Citi Group para ressarcir os 10 bilhões de dólares que emprestou. Essa história vai se desenrolar ainda em 2010 e como as ações são de Abu Dhabi, certamente o Citi perderá e terá que devolver esse montante. Ao devolver esse montante, o Citi terá que vender ações que estarão em mãos de investidores  em bolsas como as do Brasil. A bolsa brasileira vai corrigir para um patamar muito baixo e o PIB americano continuará em valores baixos assim como o desemprego em valores altos. Desde o início da crise, mais de 120 bancos americanos foram à falência. Por isso a melhoria do nível de emprego nos EUA será difícil ainda no primeiro semestre de 2010. O primeiro semestre terá uma bolsa com mudança de tendência para baixo, tanto no Brasil quanto nos demais países. Toda crise tem uma segunda onda de desconfiança e a probabilidade disso ocorrer ainda no primeiro semestre é alta.

O segundo cenário é otimista e se relaciona sobretudo com o segundo semestre de 2010. Depois da grande correção, investidores interessados em empresas que darão retorno a longo prazo poderão retornar, principalmente porque o período das eleições já estará em definição o que tornará o mercado menos volátil. Assim, boas opções para a metade do segundo semestre serão aquelas ligadas à construção, visto que os olhos estarão voltados para a Copa do mundo. A Copa da África do Sul terá terminado e o Brasil estará em evidência para as construções da próxima Copa do mundo. Empresas voltadas à siderurgia serão as que sofrerão mais com a queda da bolsa e com preços atraentes as ligadas com as construções para a Copa do mundo e a Olimpíada de 2016 serão as indicadas no segundo semestre de 2010. Petróleo é sempre notícia e continuará interessante investir em empresas ligadas tanto a óleo quanto aos derivados.  Provavelmente o mundo passará por sustos e por mais desconfiança em 2010, mas o Brasil poderá conseguir se manter com altos interesses dos investidores. Esses percalços fazem o destino do ano de 2010 um processo conhecido como estocástico, ou seja, um processo com oscilações aleatórias e com dinâmica própria. Mas como intuição faz parte do ser humano, vamos deixar que a intuição de que o ano de 2010 será maravilhoso domine nossos pensamentos pelo menos durante as festas. Afinal quando senti a sensação de que era eu quem me deslocava na praia e não as ondas, o mundo continuou a girar independente da razão e regido por suas próprias leis, sem se importar com a intuição de uma criança ou com as equações da matemática.

Feliz ano de 2010!

 

 


 

Terça-feira, 29 de Dezembro, 2009