Sábado, 28 de Abril, 2018

 

Apophis: nosso fim em 2029?

 

Quem já ouviu falar em Apophis?

Não se preocupe, até 2029 muito será falado, escrito, filmado e fará parte do dia a dia de todas as pessoas da Terra. Apophis é o deus do mal, do caos, das profundezas do inferno, que segundo a mitologia egípcia tem como objetivo destruir a Terra. É uma serpente que solta fogo pela boca descrita como um dos piores deuses nos hieróglifos do Egito.

Seu formato na mitologia é mais ou menos como o desenho a seguir.

Mitologia do Egito - deus Apophis

Mas esse deus foi utilizado pelos seres humanos, especificamente por cientistas ligados à Astronomia, para batizar o nome de um dos mais perigosos asteróides com órbita próxima da Terra. O asteróide 99942 Apophis (2004 MN4) foi descoberto em 19 de junho de 2004 por Tucker, Tholen e Peak. Desde então tem sido um dos asteróides mais observados pela Ciência Espacial com 4.481 observações.

Apophis tem um diâmetro de 325 km e período de rotação de 30,4 horas. Mas o que ele tem de especial?

Sua órbita intercepta quase que perfeitamente a órbita da Terra em dois pontos durante o ano. Por exemplo, hoje ele está passando por Vênus, bem distante de nós, escondido pela sua baixa reflectância do Sol, assim como a mitologia egípcia descreve.

O gráfico a seguir mostra a órbita de Apophis, a de Vênus, Mercúrio e Marte, além de nossa órbita terrestre. Podemos perceber que a trajetória em cor branca, a do asteróide, intercepta a da Terra e tem um plano inclinado de cerca de 40 graus em relação ao plano do Sol.

O grande frenesi que o Apophis causa e causará nos anos daqui pra frente, é que numa primeira simulação por volta de 2007, a Nasa elevou o patamar das chances de impacto desse asteróide para quase 2,5%. Simulações por computador começaram então a serem realizadas para tentar comprovar o impacto.

Com passagens mais próximas da Terra em 2012 e 2013, foi possível melhorar, com o uso de radiotelescópios e mapeamento por doopler, as estimativas de órbita, massa, composição e reflectância. Com esses dados as previsões melhoraram substancialmente a ponto de retirar a previsão de impacto, mas não seu perigo.

Observação do Apophis pelo radiotelescópio de Arecibo

Como sempre está bem distante da Terra, sua observação mais precisa ainda tem dificuldades. Conforme passa pelo Sol, conforme ele rotaciona sobre seu próprio eixo e devido aos "puxões" que são dados pelos outros planetas, a órbita só é confiável para poucos anos a frente. Simulações computacionais usando computadores de 64 bits e 128 bits com controle de erros, estimam que o asteróide passará por volta de 40 mil km de altitude da Terra.

Isso já é bastante perigoso. Imagine, caro leitor, um asteróide com 10 vezes o Cristo Redentor passando entre os satélites de comunicação que fazem previsões de clima, trasnmitem sinais de televisão, telefone, etc. Será possível em 2029 observá-lo a olho nu na noite de 13 de Abril de 2019, as 21:36 h.

Um dos artigos mais citados e que melhor descreve as características do Apophis pode ser encontrado nessa página da Nasa do CNEOS.

Para evitar pânico, os cientistas logo começaram a divulgar na imprensa que a colisão com a Terra tem chance muito pequena, quase zero.

Mas quase zero, não é zero, ainda mais quando teremos um Empire State Building passando por cima de nós.

No artigo citado, os autores informam que o erro residual na simulação da trajetória estava no intervalo [-550 km , 180 km].

Falando na ordem de milhões de quilômetros parecem erros irrisórios.

Mas Apophis passará por volta de 40 mil km, o que daria um erro de 1,8%. No entanto, depois da passagem pelo radiotelescópio, os autores escreveram que esse erro caiu consideravelmente para apenas 22 km, ao redor de sua aproximação mais próxima da Terra.

Isso reduz a incerteza para 0,055%.

Ao lado temos a simulação computacional da NASA em seu site Horizons para a trajetória do Apophis em 13 de Abril de 2029.

Podemos ver que o Apophis vai realmente passar entre a Terra e a Lua, e bem abaixo dos satélites de comunicações.

 

 

 

 

 

Uma das simulações da trajetória do Apophis passando a apenas 956 km de altitude

 

 

O erro da Nasa para a previsão dos parâmetros que definem órbitas de planetas e grandes asteróides é da ordem de 0,0000000001 de incerteza.

Mas essa certeza vai diminuindo a medida que um futuro mais distante é desejado para ser previsto.

Tomamos então os dados conhecidos como "efemérides" de Apophis e dos planetas do Sistema Solar já disponíveis pela Nasa no site Horizons.

Efemérides são os parâmetros das óbitas dos planetas, aqueles que definem a forma, o tipo e características de ângulos de determinado corpo celeste.

Partindo-se da data de 13 de abril de 2029 à meia noite, simulamos numericamente por computador qual seria a hipotética trajetória do Apophis.

Mas para efeito estatístico, incluímos em uma das direções um erro aleatório de 0,01% na medida da Nasa.

O correto é sempre fazer mil simulações ou mais, para termos certeza razoável da trajetória. Mas apenas para efeito didático desse texto, realizamos 25 simulações do Apophis.

Para nossas simulações (não científicas) o Apophis passará entre 38 km e 66 mil km. O artigo citado acima descreve que o asteróide passará no seu ponto mais próximo a 29.470 km.

Mas existe um porém. Com apenas essas 25 simulações, levando-se em conta o erro de 0,1%, em uma das variáveis numa dessas simulações, o Apophis passaria em nossa projeção a apenas 956 km de altitude.

Em oito dessas simulações, o Apophis passou entre 10 mil e 19 mil km (ao lado).

Colocamos ao lado a projeção numérica da trajetória do Apophis em 13 de Abril de 2029. Só para se ter uma ideia, a Estação Espacial Internacional está entre 400 km e 500 km.

Ou seja, nessa simulação com apenas 956 km de altitude, o Apophis passaria completamente visível e assustador para os tripulantes da Estação.

Não é à toa que um dos projetos da Nasa é lançar uma espaçonave para se acoplar ao Asteróide e estudá-lo anos antes de sua aproximação. Outros projetos mais arrojados até pensam em como desviá-lo de uma possível colisão com a Terra no futuro.

Essa preocupação apareceu depois que outras simulações indicaram que, se em 2029 Apophis não se chocar com a Terra, uma possibilidade ainda mais próxima seria em 2036. Mas se vai passar próximo e não se chocar, por que preocupação?

É que existe um região entre os planetas que serve como caixa de ressonância na trajetória do Apophis. Um choacoalhão inesperado e forte, como se fosse um vento que desvia um caminhão, pode atingir o asteróide em algumas de suas trajetórias. Depende da disposição dos diveros planetas do sistema solar.

Se isso acontecer, todas as projeções ficam erradas e uma possível colisão não é descatável. O que acontece se Apophis vier direto em nossa direção? O mesmo que aconteceu com os dinossauros.

Nosso fim.

Por isso, antes de morrer, Stephen Hawking nos deu uma tarefa. A humanidade precisa sair da Terra de forma urgente e procurar outro lugar para continuar a espécie. Ficar parada aqui só rezando, ou pensando em dinheiro, de um dia para outro nada sobrará. Nem o dinheiro, nem as maldades, nem as bondades.

A Ciência é a única solução contra asteróides como o Apophis. Convencer o cidadão comum é fácil, difícil é falar com políticos!