Segunda-feira, 13 de Junho, 2011

 

O calcanhar de Aquiles

A mitologia grega nos conta que quando nasceu, a mãe de Aquiles resolveu banhá-lo no rio dos deuses para transformá-lo num imortal. No entanto, ao segurar o filho pelo calcanhar, essa foi a parte que o tornou mortal. Por isso quando existe um ponto fraco de algum evento ou de alguma pessoa, nos pronunciamos que "...seu calcanhar de Aquiles é...". Dentre os deuses, Aquiles foi o mais mortal e terreno. E também o que mais participava da ira humana em batalhas e guerras. Foi morto por uma flecha exatamente em seu calcanhar.

E sem proteger seu calcanhar, hoje a Grécia se curva diante do mundo. Incapaz de utilizar de política ou de atuação econômica, o presidente grego viu seu calcanhar queimar com a flecha lançada pela agência de análise de riscos Standard & Poors. Em nosso texto em 2009 já comentávamos sobre a situação da Grécia (" Os deuses do Olimpo se revoltam") e o possível corte em sua nota de crédito. Essa história da crise grega vem desde Dezembro de 2009 e até hoje o governo grego não consegue convencer ninguém de sua capacidade. Na época o primeiro ministro proferiu para o mercado mundial a seguinte blasfêmia: "... os investidores não precisam se preocupar nem entrar em pânico...".

Já contamos aqui também sobre Cassandra ("O oráculo de Cassandra"), a adorada humana de Apolo que não quis se relacionar intimamente com esse deus. Então Apolo transformou Cassandra na futurologista que ninguém acreditava, e foi taxada de louca. Será que os "Cassandras" serão ouvidos agora? Roubini hoje se pronunciou dizendo que temos 30% de probabilidade de uma nova crise mundial em 2013. Peter Schiff continua batendo que o ouro é investimento seguro e que o dolar vai derrubar todos os países, inclusive os EUA. Com a queda da nota de crédito da Grécia hoje, mais um passo para o precipício foi dado.

A Grécia tem culpa dessa situação toda?

 

 

Sim, a Grécia tem grande parte nessa situação toda e estará colhendo em breve a incompetência que plantou. Sejam deputados, senadores, sindicatos e governo, agora estão todos no mar revolto sem volta.

Mas não podemos esquecer que essa agências têm uma grande parcela de culpa na nova crise que estão gerando. Será que elas tem consciência do que estão fazendo? Já ameaçaram a Inglaterra (veja "Ameaça à Inglaterra") e na semana passada ameaçaram aos EUA.

Quanto poder o mundo econômico deu para um grupo de pessoas que usam uma fórmula estatística bastante questinável, para dizer se esse ou aquele país é digno de investimento.

Essa é uma lição que todos deveriam aprender logo. Essas agências estão competindo com o mercado para ver quem fica com a maior fatia dos investimentos.

Esse é o comentário da própria bloomberg hoje, que dá um alerta sobre porque a Grécia caiu de B para CCC. Os próprios estategistas estão começando a se revoltar com as agências e abrindo a caixa de pandora. Uma analista do JP Morgan revelou que as agências estão agora correndo para se mostrar eficiente para o mercado. Observando que o mercado todo estava precificando as ações mundiais para baixo, todas as agências (que são pagas pelo mercado) correram para atualizar suas "previsões".

É o mesmo que já estamos falando há tempos. As agências são os algozes de quem já está agonizando. Rebaixar a nota de crédito da Grécia que já está rebaixada pelo mercado, é para tentar mostrar serviço e dizer depois que acertou na análise.

No texto sobre a ameaça à Inglaterra colocamos a fórmula que a Moody's usa para fornecer os ratings dos países. Não tem nada de especial e em seu site é colocada como o supra conhecimento do mundo. A fórmula mistura correlações estatísticas e uma porção de parâmetros "secretos" que nada tem de secretos. São apenas pesos para "forçar" o acerto e a recolocação dos tais símbolos AAA, AAB, CCC, etc.

E recebem muito, mas muito para isso. O próprio Brasil já brigou com todas essas agências nas décadas de 1980 e 1990, mas agora que somos grau de investimento, não é muito correto bater nelas. Será? Mais um erro de avaliação, pois estamos fazendo o mesmo que outros fazem. E quando o barco inclinar, vamos voltar a apanhar da mesma maneira que a Grécia.

E se Portugal acha que escapou, pode se preparar. Um novo rebaixamento em sua nota vai levar o segundo país para a masmorra do grau de especulação. E também a Irlanda. E os EUA podem se armar, pois essas agências vão querer mostar que são democráticas e honestas. Vão revelar que o débito do país mais seguro do mundo é impagável. Uau... como elas são capazes!

O gráfico acima mostra os títulos da dívida da Grécia que agora estão em escalada astronômica. Até final de 2009, Outubro para ser mais preciso, os títulos até estavam em baixa. Significava que os tomadores de empréstimo não exigiam muito do governo. Mas agora o calote será até normal. Também conhecido como "default", os credores, entre eles FMI e Comunidade Européia, devem começar a debater o que fazer com esse país endividado e sem confiança internacional.

Talvez eles devessem chamar as tais agências. Deve ser o sonho delas participar como membro importante do FMI. Ou então chamar Aquiles para resolver a situação à moda antiga. No mundo moderno, nada como um bom calçado para nosso herói grego acabar com qualquer crise. O problema é que os deuses também já foram rebaixados e não possuem mais grau de investimento. Seria considerada uma especulação se Aquiles aparecesse no mundo para ajudar a Grécia.