Sexta-feira, 20 de Abril, 2012

 

Não chores por mim

"...Considero que devemos levar as coisas na realidade. Existem alguns que querem expulsar todas as empresas que até agora tem sido multinacional. Outros setores argumentam que não investimos e que os estrangeiros também não investem aqui. Em seguida podemos perguntar, qual dos dois devemos ignorar? Creio que qualquer um, especialmente em relação a essas empresas estrangeiras, temos o poder de decidir. Isto é, se eles concordam com as leis que já foram emitidas, devem fazer aquilo que dizemos...".

O trecho acima não é da presidente Cristina Kirshiner da Argentina, mas de um discurso de Perón em 24 de Maio de 1974 na abertura do congresso nacionalista da Argentina. Mas poderia ser da presidente argentina, pois ela deve conhecer esse e todos os discursos da cartilha de Perón. A comunidade internacional ficou chocada com a expropriação da refinaria Repsol da Espanha. Uma guerra de palavras começou entre os dois países de mesma língua sobre a acusação argentina de que a Repsol não está fazendo investimentos na Argentina. Nunca esse discurso de Perón foi tão fiel ao futuro, mesmo escrito em 1974. Nada mudou na Argentina, pelo menos em termos de governantes.

Mas por que o país vizinho, de repente começou a fazer investidas no passado? Por exemplo, por que lembrar sobre as Malvinas? Expropriar empresas e mais coisas que deverão aparecer. Se tudo correr conforme a cartilha do peronismo argentino, mais confusões vão aparecer. Olhando para o PIB Argentino (figura abaixo) vemos um crescimento ano a ano, tentando sair do Ostracismo dos anos 2000 a 2004 por conta da crise dos tigres asiáticos.

 

O PIB argentino vai bem, ou pelo menos ia bem. O problema é que a taxa de crescimento desse PIB é completamente instável conforme o humor da presidente Cristina e seus antecessores. O gráfico a seguir apresenta a comparação entre a taxa de crescimento da Argentina e do Brasil. Apesar de crescermos percentualmente menos, a variação do PIB argentino vai da glória ao caos de um ano para o outro.

O grande problema da Argentina está num fato que além de preocupante não se resolve apenas com um ato político ou com teoria econômica. O grande problema da Argentina é que ela é escassa de fonte de energia, principalmente de petróleo. E com um bom crescimento nos últimos 4 anos, a Argentina vive um problema parecido com o Brasil, onde a malha de energia está estagnada. A diferença é que com as nossas dimensões e rios, podemos demorar a solucionar esse "gap", mas temos de onde tirar a eletricidade, mas a Argentina não. Pelo menos não tinha, até se saber que as ilhas Malvinas (ou Falklands) possuem o óleo poderoso. Observando o gráfico abaixo vemos que o crescimento pela demanda de energia (per capita) em termos comparativos ultrapassou o Brasil, com uma fonte que a Argentina não possui.

 

Ao descobrir petróleo nas Malvinas em 1998, a Inglaterra reascendeu a discussão sobre o arquipélago em frente da Argentina. No princípio, com o preço do barril a US$10,00 não motivou os ingleses a iniciarem o processo de extração. Mas com o preço multiplicado por 10, o processo se iniciou e vai salvar a economia inglesa.

Em 2 de Abril desse ano a folha já tinha alertado sobre os nervos alterados dentro do governo argentino sobre o assunto (ver aqui).

Mas o fato interessante é que o ministro das relações exteriores da Argentina, Hector Timmerman cantou a "bola" dos atuais atos do governo. No site ONIP- Organização Nacional da Indústria do Petróleo o ministro afirmou: "...o desenvolvimento de petróleo em águas das Malvinas foi ilegal. Alertou que quaisquer empresas que prestam apoio aos garimpeiros britânicos podem enfrentar medidas legais contra tal ato..."

 

Consumo de Energia na Argentina

 

 

 

 

Nos dias atuais, todas as empresas estão ligadas de alguma forma, seja com investimentos em ações nos mercados de capitais, seja por acordos bilaterais de cooperação ou seja por serem do mesmo dono.

A Petrobrás já enfrentou retaliação parecida esse ano, quando uma província tentou retirar a concessão por ..."falta de investimentos..". Incrivelmente a mesma frase de Perón em 1974.

A Petrobrás e seus investidores devem ficar em alerta, pois os passos estão bastante claros. O atual governo argentino precisa de energia e não quer pagar imposto alto por aquilo que ele diz que lhe pertence. Mas como não tem recursos para extrair o petróleo, depende das estrangeiras.

Como esse governo está seguindo a cartilha de Perón, após novos investimentos da Petrobrás, nada garante que estará livre de uma expropriação. A palavra investimento voltou a aparecer hoje, quando o ministro do planejamento argentino, Julio de Vido, chegou ao Brasil para acertar acordos com a presidencia da Petrobrás (ver notícia do UOL)

Essa guerra está apenas começando, pois quem não se lembra da taxação da linha branca (geladeiras e fogões) que os argentinos colocaram sobre os produtos brasileiros? Eles feriram o acordo do mercosul, do qual eles são signatários. E quanto ao petróleo, a Inglaterra vai proteger ainda mais as ilhas Malvinas. É só olhar o gráfico ao lado para ver que a situação no Reino Unido é mais do que preocupante(alertamos isso em 2010, vide "E o Big Ben parou"). O PIB vem caindo ano a ano, e perder um local com energia própria é o que eles não querem.

A ONU pode falar o que desejar, os argentinos podem apelar para qualquer côrte internacional. Com o petróleo em jogo, acabou a conversa.

 

E a Repsol? Está pedindo quase US$ 10 bilhões, mas se receber 1 bilhão pode se contentar, pois a Argentina não vai pagar e não tem como pagar. Já vimos isso aqui no Brasil, com o presidente José Sarney, quando resolveu parar de pagar os juros da dívida brasileira. Apelou para os "fiscais do sarney" e a população antendeu. Pagamos caro por isso e a comunidade internacional nos isolou por 10 longos anos. Como o PIB da Espanha está muito pior do que da Argentina (vide gráfico abaixo do cresciemento anual), a Repsol pode amargar esse ato como dinheiro perdido.

Foi um golpe terrível para a Espanha que já mobiliza toda a comunidade internacional, bancos e investidores contra a Argentina. Desde 2010 a Espanha vem ano a ano caindo e entrando em crise cada vez pior ("vide "Os ventos de Colombo"). O povo argentino num primeiro momento está contra esse ato de seu governo, mas estava contra a invasão das Malvinas também. Os governos argentinos são sempre eficientes no convencimento do povo para ficar do seu lado, alegando "segurança nacional", "patriotismo", "nossa terra" e assim por diante. A guerra das Malvinas se mostrou dolorosa e afundou ainda mais um país mantido por um governo militar ineficiente e arcaico. Naquele momento o povo argentino não percebeu onde estava entrando, obscurecido pelo nacionalismo da herança de Perón.

E agora? Conseguirá a presidente Cristina convencer novamente os argentinos para essa nova "guerra"? Se aprenderam a lição, o povo argentino deveria ficar contra a presidente e mostrar que o erro é mais pela ineficiência do governo do que das empresas. Claro que as empresas se aproveitam para retirar o máximo e devolver o mínimo para o povo local. Mas diante dos gigantes órgãos internacionais, essas empresas tem mais poder do que a Argentina. Seria Cristina Kirshiner um novo rei do Egito Akhenaten? ( veja, "Aterrorizando o mundo econômico de Neferti").

Uma medida inteligente seria aproveitar o enorme deserto existente. Companhias de energia solar nos EUA estão atrás de clientes para poder elas também sair da crise. Um acordo com essas empresas, poderia suprir boa parte da Argentina com energia barata e renovável retiradas do Sol. Até mesmo no Brasil empresas poderiam aplicar no deserto argentino placas numa vastidão sem pensar para coletar energia solar. Também a costa da Argentina possui um oceano bastante revolto, propício para coletar energia das ondas. A Holanda, a Bégica e a Finlândia, por exemplo, usam com perfeição esse tipo de energia.

O verdadeiro patriotismo deveria olhar para as melhorias possíveis dentro de seu território, e não para a destruição da nação em prol do que acha seu coração, ao contrário da razão.