Quinta-feira, 01 de Setembro, 2016

 

Asteróide passou de "raspão"

 

O Southem Observatory for Near Earth Asteroids Research (SONEAR) é uma ideia de brasileiros para a busca de asteróides, cometas e meteoros vistos no hemisfério sul. Ele está instalado em Oliveira-MG sendo este um empreendimento totalmente privado, particular, mantido com recursos próprios por um grupo de astrônomos amigos. O observatório já descobriu 12 asteróides com órbita próxima da Terra e 1o outros no cinturão de asteróides. Vale lembrar também que foi esse observatório que descobriu o primeiro "cometa brasileiro" em 12/Jan/2012. Hoje o observatório tem no currículo a descoberta de 4 cometas.

Observatório SONEAR - Oliveira - MG

O lider da iniciativa é Cristóvão Jacques que convenceu seus amigos João Ribeiro e Eduardo Pimentel nessa fantástica ideia de rastrear o céu no hemisférios sul em busca de "rochas perigosas". Diga-se de passagem é o único observatório no hemisfério sul com essas características, já reconhecido pela União Astronômica Internacional.

Todo o observatório está automatizado, com softwares de imagens e telescópios monitorados a distância. Todas as noites com céu bom para observação, o laboratório capta imagens que posteriormente são avaliadas sobre "falsos alertas" ou sobre objetos já conhecidos.

Na madrugada da última sexta-feira (26/Ago/2016) às 3h, o SONEAR detectou um objeto se aproximando rapidamente em direção à Terra. Obvervações de catálogos mostraram algo desconhecido. Com poucas, mas importantes observações, Cristóvão Jacques e amigos enviaram os dados para o Minor Planet Center.

Esse site pertence à União Astronômica Internacional e, uma vez recebendo os dados, coloca a disposição da comunidade internacional para a constatação ou não de um asteróide não catalogado.

Para a surpresa do SONEAR o asteróide passaria de "raspão" na Terra.... no dia seguinte! O Minor Planet Center nomeou o asteróide de 2016QA2. No sábado dia seguinte o asteróide passaria a distância de 86.000 Km da Terra. Caro leitor, pode parecer muito, mas a distância entre a Terra e a Lua é 384.400 Km. Ou seja, o asteróide passou a menos de 1/4 da distância entre Terra e Lua.

A foto anterior é do asteróide 2016 QA2, estimado com cerca de 40 metros de comprimento. Deixando-se a câmera com abertura com longo tempo de exposição, as estrelas começam a "riscar" a imagem. O ponto estacionado e sem risco é uma "rocha" próxima, asteróide ou meteoro que não acompanha os riscos. Essa é uma das técnicas da astrofotografia tentar descobrir objetos em órbitas próximas da Terra.

No sábado pela manhã, quando soubemos da fantástica descoberta, solicitamos os dados ao Cristóvão Jacques que foi muito gentil e rapidamente nos enviou as suas primeiras observações.

A título de curiosidade, testamos os dados para "prever" a órbita do possível "assanino" da humanidade e quando ele retornaria.

Realmente, em muitos anos de trajetória desse asteróide, essa é a mais próxima aproximação da Terra, uma descoberta de muita sorte pelo SONEAR.

O observatório conseguiu captar essa "pedra voadora" que só retornará a essa proximidade em 2160.

O impacto desse asteróide, obviamente não exterminaria com a humanidade, nem criaria crateras, ou então um inverno mortífero com poeira levantada.

Na realidade, o cálculo de seu impacto com a Terra pode ser calculado no excelente site "Impact Earth", com um software desenvolvido pela universidade de Purdue nos EUA.

Realizando esses cálculos percebe-se que esse asteróide seria muito parecido com o asteróide que impactou a Russia anos atrás.

Se esse asteróide sofresse um impacto com a Terra, ele começaria a queimar a 20 Km do solo e seus pedaços se espalhariam com uma velocidade de 4,77 Km/s.

Seu poder de impacto e onda de choque chegariam a 0,39 megatons, ou seja, muitas janelas quebradas, prédios balançando ou até caindo (dependendo de onde fosse o impacto) e fogo.

Não só estrago material, mas sim, pessoas poderiam morrer.

Observação do 2016 QA2

Propagação do asteróide para o ano que vem

 

Propagação do asteróide pela NASA

 

As pertubações a esse tipo de rocha são enormes e tanto as nossas simulações por computador quanto da NASA podem estar erradas para daqui um ano.

Ao passar por Vênus, Mercúrio, Sol e Marte, essa trajetória do asteróide sofre um "choacalhão" forte, mudando sua inclinação.

Esse "balanço" na órbita ocorre com todos os astros quando passam mais próximos do Sol. Para asteróides, como esse de menos da metade de um quarteirão, a inclinação se altera ainda muito mais rápida.

Por exemplo, no primeiro contato no sábado, os dados do SONEAR enviados por Cristóvão eram de um tipo. A tarde do mesmo dia, ele nos enviou as correções do Minor Planet Center e muita coisa já havia se alterado.

Ou seja, além das perturbações dos planetas, existem as imprecisões das observações de algo tão pequeno e rápido.

Ao lado e em cima, está nossa simulação por computador e abaixo ao lado a simulação da NASA. Para um ano de previsão, nossas projeções computacionais são as mesmas da NASA.

Claro, ...., a da NASA é muito mais acurada do que a nossa. Mas a título didático e acadêmico, antes que surjam teorias da conspiração sobre a NASA e os "fatos escondidos", a NASA está corretíssima.

Não existirá perigo para a humanidade, pelo menos não para o ano que vem.

No próximo ano esse mesmo asteróide 2016 QA2 passará 179 vezes mais longe do que a distância entre Terra-Lua. Para o ano que vem, sem susto.

Mas nada pode-se dizer das "rochas ocultas". Sim, como ninguém olhava (ou observava antes do SONEAR) para o nosso hemisfério sul, nada se sabe sobre asteróides de grande inclinação. Esse mesmo asteróide um dia antes estava a duas vezes a distância Terra-Lua e no dia seguinte já estava quase nos "beijando".

Observar o nosso céu aqui no hemisfério sul não é uma tarefa apenas romântica. O SONEAR prova para os governantes e políticos que gastar em Ciência não é caro como dizem. É muito barato e o retorno muito mais alto do que pensam esses economistas. E claro, muito menos do que as contas externas não declaradas de todos os envolvidos nos escândalos do Congresso Nacional.

Quando vão valorizar isso? Talvez o SONEAR descubra um asteróide nessa noite, e nós conseguiremos prever que ele cairá bem em cima do Congresso Nacional. Mas aí, melhor não dizer nada. A humanidade vai agradecer aos céus!

 

 

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