Sexta-feira, 10 de Novembro, 2010

 

 

Banda larga, banda podre

Um lobista chega na sala de um senador no congresso e pergunta a secretária se o senador já chegou. Ela confirma que sim e faz uma leitura da agenda do renomado senador recém-eleito. Sim, o lobista tem hora marcada e será prontamente atendido. Afinal, a campanha do senador foi ajudada por ele, em algo em torno de R$ 1,5 milhão. O encontro com o senador bonachão é repleto daqueles jargãos conhecidos dos políticos, dos tapinhas nas costas, do copo de wisky para ser saboreado e um bom cigarro (apesar de ser proibido fumar em locais fechados).

O leitor nem se espanta mais em ler essas linhas anteriores pois isso é tão normal no Brasil que... espera lá! Toda essa história não é sobre o Brasil. Está acontecendo nesses dias nos EUA, no Congresso americano. Quem são os lobistas? Os mesmos do "flash crash", os novos empresários do mercado digital de Wall Street. O que era para ser uma mera aplicação acadêmica, com estudos quantitativos para análise de padrão, executado por professores e no máximo seus melhores alunos, caiu em desgraça. A nova onda de Wall Street é empresário dono de "trading system" comprar deputado e correr atrás de advogados para descobrir brechas nas leis da SEC (órgão correspondente à nossa CVM) para colocar seus super-computadores em ação.

Segundo a bloomberg, empresas tais como Getco LLC, Hard Eight Futures LLC e Quantlab Financial LLC estão mais parecidas em suas ações com os grandes bancos. Elas financiam desde campanhas para senadores Republicanos e Democratas até políticos para vetar leis que podem cessar seus negócios. O professor James Angel que é do conselho de defesa dessas empresas, as defende dizendo que "como uma indústria, elas estão sob ataque e que vão brigar de volta por seus direitos".

 

Prof. James Angel: conselho de direito das empresas de trading system (bloomberg)

 

As companhias que vendem esses softwares são enfáticas em dizer que seus softwares são seguros e com a velocidade de operação dão ótimos retornos. Será? A SEC tem sérias dúvidas e está considerando aplicar uma nova norma requerendo que esses "traders system" ao comprar um ativo, o mantenha durante período de estresse. Leia-se disso o seguinte: Se o mercado estiver caindo, se o mundo estiver quase acabando, você terá que morrer com suas ações pois suas ordens via trader system de alta frequência não serão colocadas no mercado. Só quando não valerem mais nada, então você poderá vende-las. A SEC está errada?

Nem tanto. O que a SEC está começando a cercar e olhar mais de perto é que existe uma enorme vantagem desses sistemas em relação ao velho e surrado home-broker tradicional. Como relatamos em nosso texto "flash crash", o relatório da SEC mostrou alguns problemas sérios e não explicados por esses softwares sobre o crash de 6 de Maio de 2010. Enquanto as ordens dos home-brokers comuns ficam na fila esperando notícias boas ou ruins, com alguns minutos na frente os usuários de alta-frequência já lucraram e podem derrubar o mercado.

A saída parece começar a incomodar esses novos empresários. Segundo alguns empresários desses sistemas eles (lá nos EUA) já não podem operar livremente e seus softwares são obrigados a comprar a melhor oferta e ainda manter por algum tempo ("que perseguição !"). Por isso, já prevendo tempos difíceis, esses empresários estão indo ao congresso "oferecer seus prestígios" aos deputados e senadores que estiverem ao seu lado.

Por exemplo, o Senador democrata Carl Levin disse: "Quem explora nosso mercado em detrimento de investidores da economia real de longo período, não estarão mais hábil em continuar fazendo isso sem uma batalha no Senado". A SEC também já criou uma divisão para análise de dados de computadores de alta-frequência a fim de monitorar e ver se não há manipulação dos preços.

Essas empresas são tão obscuras quanto seus softwares. Ao visitar uma delas, por exemplo a "Quantlab Financial, LLC" não existe link para nada, apenas um breve histórico dizendo que atua no mercado desde 1998 e seu endereço para contato. Enquanto isso um filme cheio de números passeiam na tela.

 

 

A RGM Trading LLC, uma firma de trader de alta-frequência contratou um lobista de nome Micah Green neste ano e já pagou a ele US$ 180 mil para agir no congresso. Outra firma de lobista, a Rich Feuer Group recebeu US$ 730 mil dólares para agir no congresso a procura de leis com brechas, senadores e deputados para segurar e controlar leis que controlem demais o mercado digital.

E no Brasil?... Uma festa total. Essas empresas não precisam de lobby algum pois a nossa própria bolsa abriu canais e deseja ("com a melhor das intenções, é claro") popularizar o trading via algoritmo. A plataforma para isso , que será colocada dentro da bovespa é a trading Apama Algorithmic que se vanglorifica de ser uma das mais utilizadas em todo o mundo (ver notícia aqui). Várias corretoras correram para fechar acordos com essa plataforma e agilizar o processo de compra e venda por algoritmo.

Ainda no Brasil, uma dessas empresas que revendem essas plataformas ( a qual obviamente não vamos fazer marketing aqui) diz em sua página de propaganda:" Executar arbitragem com nosso sistema significa evitar possíveis erros causados pela "emoção", "stress" ou "super-confiança". A firma só não diz se um possível erro que o software venha a cometer por erro de programação será reembolsado. Em outro ponto, essa mesma empresa mostra o lado "negro da força" ao escrever: "... evitar denunciar ao mercado os seus spreads operacionais...". Leia-se disso o seguinte: " Podemos manipular o preço e não ser descoberto".

Pelo menos nesse quesito de lobby podemos ficar tranquilos no Brasil, e as empresas de traders deveriam deixar os lobbys gastos no congresso americano. Se vierem para o Brasil terão toda a facilidade, sem problemas com regras duras ou qualquer forma de segurar seus ímpetos. Eles estarão dentro do sistema, vigiado pelo sistema de negócios do Brasil. Quer melhor esconderijo?