Sexta-feira, 25 de Setembro, 2015

 

A batalha dos juros nos EUA

Sua entidade, "o senhor mercado", está há três anos tentando vencer o Banco Central americano (FED), pressionando para uma alta na taxa de juros. Com a escolha de Janet Yellen, os grandes fundos e bancos de investimentos tinham em mente que conseguiriam rapidamente reverter o quadro de juros entre zero e 0,25% ao ano nos EUA. Até o momento todos perderam em suas apostas e Janet Yellen tem se mostrado dura na queda.

Na última reuinião do FED ela foi clara e explícita, que não estava olhando apenas para a taxa de inflação nos EUA, mas para um conjunto enorme de variáveis, como emprego, vendas de casas, comércio, indústria, exportação, importação, etc. Também disse que o FED não fazia previsão, não é função do banco fazer isso.

E qual foi a primeira pergunta que um jornalista da CNBC americana fez?

- "Qual sua previsão para alta dos juros?"

Parece piada, mas não é. Depois de um longo discurso, detalhando porque a taxa de juros americana não teria alta nesse mês de setembro, os jornalistas perguntaram todos, a mesma questão. Será mês que vem? Será em novembro? Quando? Por que a demora?

Janet Yellen se saiu muito bem, serena e tranquila respondendo que já tinha se pronunciado sobre previsões, sobre os dados, e que não tinha previsão sobre a alta de juros. Não adiantou. Essa semana inteira os noticiários dos EUA abordaram incansavelmente e apostaram abertamente sobre quando a alta de juros virá.

Mas a batalha não é apenas de aposta "infantil" ou divertida. A batalha é forte e sorrateira. A presidente do FED voltou a se pronunciar numa palestra nesse meio de semana e agora começou o jogo sujo contra ela.

Os jornais alardearam em todos os cantos, que Janet Yellen pode estar com problema de saúde, devido sua fala pausada e paradas para respirar antes de continuar lendo. Outros disseram que ela está demonstrando medo, ao parar sua palestra diversas vezes e precisando tomar "ar" para continuar. Outros ainda chegaram a dizer que ela pode estar sendo acometida por uma síndrome do pânico.

É sempre assim, não joga o jogo dos grandes, sofre com as falácias. Vão plantar notícias de todos os tipos até ela subir consideravelmente os juros. Certamente diretores internos já "deixaram vazar" para os grandes fundos que quem está segurando o touro à unha é Janet Yellen. Mas por que essa neurose tão pronunciada para a alta dos juros?

Claro que os economistas dos grandes fundos e bancos de investimentos estão dizendo que sua "entidade", o "mercado", está com medo da inflação nos EUA disparar com o crescimento da economia. Mas não é isso. Esse é o gráfico da taxa de juros nos EUA nos últimos 10 anos.

Depois de passar de 5% entre 2005 e 2008, com a crise financeira, os juros caíram para a banda entre zero e 0,25% ao ano. Por isso a linha constante em zero no gráfico anterior. Algumas comparações interessantes com outras taxas podem ser realizadas.

Por exemplo, quando se compara a taxa de juros com a exportação, é possível notar que as exportações nos EUA aumentaram de forma sólida e considerável com juros em zero (gráfico ao lado).

Isso fez mais dinheiro entrar na economia americana, fazendo aquecer a produção nas indústrias.

Um resultado positivo desse fato é que o PIB dos EUA está crescendo a taxas positivas desde quando os juros caíram a zero.

É possível notar na comparação no segundo gráfico ao lado, que a taxa de crescimento do PIB oscila, mas sempre de maneira positiva, alavancando semestre a semestre a economia nos EUA.

E quando a economia cresce, o desemprego diminui. E isso aconteceu nos EUA, com o desemprego caindo para valores abaixo de 6%.

O terceiro gráfico ao lado mostra essa comparação, com a taxa de desemprego seguindo uma tendência sólida e persistente de queda.

Isso garante emprego para mais pessoas, que possuindo uma renda, voltam a gastar e fazer circular as mercadorias em estoque.

E voltando a gastar, a produtividade na indústria tem que aumentar, para satisfazer a ânsia de compra das pessoas.

E a taxa de produtividade nos EUA disparou com os juros zero, como pode ser visto no quarto gráfico ao lado.

O trabalhador americano se tornou mais produtivo para atender a demanda que estava reprimida pela crise financeira.

Não foi a recompra dos títulos americanos, que jogou dinheiro direto no mercado financeiro, que garantiu esse crescimento.

O crescimento real nos EUA se deu por conta de maior tranquilidade do cidadão que pode fazer planos futuros com garantia de que o dinheiro que tomasse emprestado, não seria mais alto alguns anos à frente.

A taxa de juros zero permitiu que pequenas empresas tivessem coragem para investir, modernizar e vender mais produtos a preços mais baixos. Existia a garantia que o crédito tomado emprestado, seria o mesmo em alguns anos.

Essa segurança fez com que os cidadãos comuns perdessem o medo de investir, sobretudo, investir em si próprio, na família, aumentando o consumo lentamente.

Mas se tudo isso está dando certo, por que mudar?

É o que pensa Janet Yellen, mas não as pessoas do mercado financeiro.

Comparação entre taxa de juros e exportação

 

Comparação entre taxa de juros e taxa de crescimento do PIB

 

 

Comparação entre taxa de juros e taxa de desemprego nos EUA

Comparação entre taxa de juros e taxa de produtividade nos EUA

Comparação entre taxa de juros e títulos de 10 anos dos EUA

Comparação entre taxa de juros e fluxo de estrangeiros sobre os títulos

O verdadeiro motivo para essa pressão sobre a presidente do FED Janet Yellen, é que os juros dos títulos americanos estão muito baixos, por volta de 2%.

O gráfico ao lado mostra o quanto o governo americano paga ao investidor em títulos com vencimento em 10 anos. Esse investidor ganha apenas 2% ao ano, enquanto nos mercados emergentes, como no Brasil, eles ganham cerca de 14% ao ano.

Então, chegou a hora de pressionar o FED para aumentar o valor dos juros nesses títulos. Pressionados pela crise que assola os BRICs, os investidores estão querendo um porto seguro.

Mas como voltar ao porto seguro dos EUA, se lá eles vão ganhar 2% e no Brasil estão ganhando 14% ? A ganância fala mais alto, aquele gostinho de deixar uma ganho sete vezes maior, apesar do risco, deixa os fundos de investimentos desesperados.

A incerteza gera um temor nesses fundos, que ao mesmo tempo gostam do mel, mas sabem que a taxa de diabetes vai aumentar e podem ir ao hospital.

E com esse valor de juros baixo, o volume de estrangeiros interessados nos títulos de 10 anos nos EUA está baixo. O fluxo de estrangeiros procurando esse tipo de títulos está, na verdade, negativo. (gráfico ao lado)

 

Então, chegou a hora dos juros aumentarem, decidiu o mercado. Eles querem juros mais altos, para ganharem mais com os títulos americanos e se virem livres dos mercados emergentes. É a taxa de juros aumentar num dia, e a Bovespa despencar no outro. Na verdade o Ibovespa despenca no mesmo momento do anúncio do aumento da taxa de juros nos EUA.

Por isso é bom o governo agir rápido e tentar segurar para a economia não cair mais. Com toda certeza do mundo, juros mais altos nos EUA, serão quedas mais acentuadas na Bovespa. E não somente na Bovespa, mas na China, na Russia, na India e na Africa do Sul. Todos os BRICs vão despencar com a política de juros mais altos nos EUA.

E uma vez que comece a aumentar os juros, o mercado vai sempre pedir mais ao FED. E não vai ser nada estranho se, caso Janet Yellen não atenda o mercado, ela seja retirada por "problemas de saúde".

Ah sim, o leitor deve estar se perguntando: mas e a taxa de juros nos EUA? Sem problemas, isso é realmente irrelevante no momento, conforme já mencionou Janet Yellen. Como podemos observar abaixo, a taxa de juros nos EUA nem de longe mostra dinâmica ou tendência de alta fora de controle por lá.

Comparação entre taxa de juros e inflação nos EUA

Mas os juros vão subir quando? Janet Yellen já dá sinais de que está cedendo, e já mencionou nessa semana, que provavelmente até dezembro os juros americanos sairão do zero. Então façam suas apostas, a corrida pela alta dos juros americanos está perto do fim.

 

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