Sábado, 22 de Setembro, 2018

 

A bitola e o dormente podre do nosso ensino

A distância entre os trilhos por onde um trem percorre seu caminho é conhecida como bitola, os quais são feitos por uma composição resistente de ferro e aço para aguentar grandes pesos e pressões. Os trilhos se apóiam sobre dormentes, o que antigamente eram feitos de madeira resistente e apoiados sobre pedra brita. Nos dias atuais, os dormentes modernos são de concretos com vergalhões de ferro em seu interior.

Desde muito tempo o termo "fulano é bitolado" é utilizado pelo mundo afora para designar uma pessoa que só pensa naquele assunto, que foi moldado e preparado apenas para fazer seu trabalho de uma única maneira. A pessoa treinada para a realização de tarefas repetitivas, seguindo um guia padrão é uma pessoa bitolada, como se diz.

Escala de novas bitolas e dormentes

Estamos próximos do risco de termos um presidente que representa bem o que foi o ensino nesses anos todos em nosso país. Racismo, xenofobismo, falta de educação, menosprezo pelo ser humano, com limitação de caráter e de raciocínio. O problema de forma alguma é uma pessoa ser simples e não saber falar, mas sim uma pessoa nem saber o que está falando, nem entender o que está sendo dito. Um acéfalo funcional é muito pior do que analfabeto funcional.

Um analfabeto funcional não é doente, ele pode ser recuperado, pode ser reintegrado e mesmo que não saiba ler, pode ter o pensamento lógico correto e bem descritivo. A escrita veio depois das palavras na evolução do ser humano. As pessoas primeiro emitiam sons, depois desenhavam nas pedras para muitos milênios depois a escrita aparecer.

Pinturas antigas em paredes de cavernas

Nossos antepassados eram caçadores e precisavam pensar nas estratégias para abater um animal feroz, tais como cercá-lo, como induzi-lo a cair na armadilha, escolher o local correto para aprisioná-lo e como comê-lo. Isso é estratégia, é raciocínio lógico.

Desde muitos milênios, no entanto, dentro da mesma roda de habitantes, mesmo os primatas mais antigos tinham apreço pelas mães e avós, em comunidades onde as mulheres também tinham poder de decisão. As fêmeas tinham a palavra final sobre matar, morrer, atacar ou fugir. Como sabemos disso? Estudos atuais entre primatas mostram o poder e o respeito de diversas espécies de macacos pelas fêmeas, e sobretudo pelas fêmeas mais velhas.

Frases como "lares onde só se tem mães e avós são responsáveis por sujeitos desajustados" não eram nem pensadas pelos homens de Neandertal que, apesar de ainda terem cérebros pequenos, sabiam que mulheres e avós deveriam ser respeitadas.

Homem de Neandertal recriado em museu

Mas tudo isso é culpa nossa, culpa de uma sociedade que nunca se identificou com o local e região que mora. Obviamente que eu me incluo nessa culpabilidade, vendo o ensino se deteriorando e, apesar de participar para melhorar do mesmo usando de muitas formas de protesto, vejo que ainda não foram fortes o suficiente para impedir a aberração de nosso ensino.

Ensino esse que também produziu outras bizarrices no Brasil, como economistas que venderiam a própria mãe e avós para obtenção de lucros, pois na visão curta e pequena deles, a participação zero do Estado na vida da sociedade é que trará maior lucro e emprego. São pessoas que aparentemente tem boa educação, mas apenas na forma do pensamento quantitativo. Esse tipo de economista é aquele que, em alguns casos, olha com desdém o pobre, que enriqueceu operando bancos sabendo antecipadamente qual a taxa de juros seria praticada em reunião governamental, pois era amigo de todos os chefes do Banco Central.

Então, nossa educação falhou nisso também. Falhou seriamente no reconhecimento social, que nossa felicidade isolada não faz o ambiente em que vivemos e trabalhamos um local de prazer e felicidades. Essas pessoas fazem isso, pois são desajustadas mentalmente e nunca poderiam sairem formadas do ensino básico.

Nos anos 70, os militares que tantas pessoas agora "sentem saudades", permitiram que o ensino básico fosse passado para donos de escolas particulares. Eu mesmo não vi somente um caso, mas dezenas de casos de colegas que em Setembro de cada ano, saíam da escola pública e se dirigiam para uma escola particular.

- Por que você vai sair? Perguntava eu.

- Para passar de ano. Se eu continuar aqui vou reprovar pois não estou entendendo nada. Respondia sempre coleguinhas que se despediam.

E no ano seguinte, o aluno voltava, para depois em Setembro novamente sair para poder passar de ano. As escolas particulares já nasceram podres e cresceram rapidamente com aval dos militares. Mas a culpa não é só deles.

Com a redemocratização os políticos criaram o trabalho de loby das escolas.

Dizia-se na época ao final dos anos 80, que para ter autorização de funcionamento, um dono de escola particular precisava procurar o deputado de sua região e pagar uma certa quantia.

Pagando ao deputado, ele traçava o caminho a ser seguido e claro, depois de aberta, a escola chamava o deputado para inaugurar e mantinha um vínculo com ele.

Também é culpa de todos nós ficarmos calados observando como o loby dos donos de escola permitiu a modificação da lei de diretrizes básicas do ensino, favorecendo os donos de escolas particulares para abrirem vagas também no ensino médio.

E ainda pior foi ver o Conselho Nacional de Educação, que antes era formado por pensadores renomados em educação, reformulado no governo de Fernando Henrique Cardoso, permitindo que reitores de universidades particulares de baixo nível fizessem parte para votar e controlar todo o ensino nacional.

É claro que eles não deveriam estar lá. Isso era mais do que óbvio que não daria certo, como não deu. Essas pessoas não pensam em sociedade, mas nos seus próprios lucros.

Mas a culpa não é somente dos professores.

Quantas greves não foram rechaçadas pela imprensa, sobretudo aquela que tem o maior poder no país.

Não foram isoladas às vezes que em horário nobre os noticiários deturpavam os motivos das greves, levando a sociedade a crer que se tratava apenas de um "bando de vagabundos vermelhinhos".

Escola Caetano de Campos para formação de professores (1939) - Pública

 

Instituto de Educação de Minas Gerais (1906) - Pública

 

 

Mário Covas em greve de professores querendo entrar na secretaria de Educação (maio/2000)

 

PM avançando sobre professores em passeata em São Paulo

 

 

 

Por exemplo, não há como se esquercer da cena histórica de Mário Covas passando por cima de manifestantes em frente à secretaria de educação de São Paulo, dizendo que ele mandava na secretaria de educação e entraria ali, no meio de todos, pela porta da frente.

Obviamente que o saudoso Mário Covas já não estava em razão de si, sabendo que o cancêr estava levando-o à fase terminal. Nunca Mário Covas tratou o ensino com esse enfrentamento e esse ato foi decorrente das terapias químicas que ele fazia.

Mas o ato deplorável, foi a exploração da mídia e dos outros políticos para destruir com os professores, com a imagem da greve, apresentando-os como arruaçeiros.

Instigaram o pobre Mário Covas a fazer isso, para depois jogar a sociedade contra os professores. E a imprensa e seus assessores foram os mais cruéis executores contra os professores.

Temos ainda o caso de Alckmin ordenando a PM a passar por cima de professores na avenida Paulista, não apenas uma vez, mas por diversas vezes em diversas situações.

São apenas flashes de muitas atrocidades cometidas por esses mesmos políticos que agora se dizem com "medo do extremistmo" e falam que "em sua gestão" a educação é referência.

Para quem não sabe, pelo menos em quatro ocasiões as greves não foram pelo salário, mas para aumentar o repasse do ICMS para as universidades públicas.

No caso das universidades paulistas, o percentual é o mesmo desde 1988, cerca de 9,57% do ICMS para as três maiores universidades do país.

Sem aumento desse repasse é impossível termos laboratórios de ponta, pesquisas objetivas e contemporâneas. Mas o que a sociedade faz é acreditar nos políticos que dizem que as universidades públicas precisam ser privatizadas, pois são teto de "vagabundos e vermelhos".

Não, as universidades públicas, ainda longe do ideal, estão há anos luz das faculdades privadas em termos de estudos, pesquisas e extensão. O que elas precisam é de dinheiro, não de serem privatizadas ou terceirizadas.

Para piorar todo o cenário, o ENEM foi criado e depois aperfeiçoado para melhorar a avaliação das escolas do ensino médio. É aquela velha máxima, que de boa intenção o inferno está lotado.

A ideia que sempre foi boa, novamente foi deturpada, permitindo que donos de cursinho virassem também responsáveis pelo ensino fundamental e médio.

Isso é um crime, um crime educacional, onde obviamente os alunos são bitolados desde seus 8 anos de idade a se prepararem para um exame que será feito aos 17 anos.

Os donos de cursinho moldaram a cabeça das crianças para pensarem cerca de 10 anos à frente. E por que isso?

Porque usam a nota do ENEM e fotos dos seus melhores alunos em propagandas na TV, Outdoors e panfletagem induzindo os pais a acreditarem que eles fazem o melhor ensino para nossas crianças.

 

Com esse formato que foi permitido a partir dos anos 2000, os cursinhos que viraram escola, mataram as escolas tradicionais, mesmo as escolas privadas melhores. Os atuais "sistemas de ensino" são guias de bitola ridículos, feitos apenas para que jovens zumbis passem em boas universidades, mas que não pensem como cidadãos.

Esse que vos escreve, ensina em primeiro semestre de faculdades há mais de 20 anos, e em ensino acadêmico superior há quase 30 anos. Semestre após semestre jovens chegam com zero de pensamento lógico. Jovens choram por notas baixas nas primeiras provas, como se estivessem ainda no quarto ano primário. Jovens se debatem por errarem questões, ameaçando "chamar a coordenação" como se isso fosse algo importante para uma faculdade.

Alunos não aceitam debates. Ainda no semestre anterior, soubemos de um caso que num debate sobre ética uma aluna de faculdade gravou o debate onde o professor instigava os alunos sobre o papel da mulher na sociedade, para depois entregar a gravação para a coordenação analisar que ele estava cometendo crime!

Agora o lugar de ensinar debate, o lugar de provocar debates importantes para o crescimento de uma pessoa, a sala de aula, se transformou em lugar de criminoso?

De onde veio essa percepção?

Da bitola do nosso ensino. Os dormentes do nosso ensino, ou seja, as bases que sustenta todo o pensamento educacional, estão podres. Com donos de cursinho virando "reitores" do ensino médio e fundamental, suas apostilas transformaram nossas salas de aulas em guetos, em campos de concentração, onde o objetivo não é o social, a convivência, o debate e aprendizado. Nessas salas, o importante é apenas a bitola.

São cerca de 50 simulados de vestibulares por ano, com aulas todos os sábados até o fim da tarde para bitolar e passar em boa faculdade. Com isso as escolas e seus donos só crescem. E poderíamos pensar, não está contente, mude seu filho de lugar!

Aí é que está, esse é o papo de economistas ligados a presidenciáveis que acham que o Estado deve ser mínimo.

Dentro da rede privada do ensino fundamental e médio, essas apostilas e sistemas de ensino dominaram tudo. As escolas privadas tradicionais se renderam e abandonaram seus métodos tradicionais com laboratórios, com visitas a parques e lagos, com estudos de animais, para focar apenas em apostilas.

E dentro da rede pública, o Estado boicota salários decentes, boicota aperfeiçoamento, boicota verbas (e até merendas como já vimos) para forçar a sociedade a pedir privatização do ensino. Pelo contrario! Precisamos é da estatização completa do ensino, com mão forte para que possamos chegar a uma Singapura.

Por que a China está com US$ 3 trilhões de reservas, enquanto o Brasil tem US$ 350 bilhões? Por que a Singapura se tornou a potência educacional que é hoje? Por que o Vietnã tem um ensino técnico melhor do que o nosso?

Os países citados, na década de 70, eram piores do que nós, eram campos de lama e sujeira, com sociedade pobre e de baixa instrução. Foi o governo, com mão dura e estratégia de longo prazo, que conseguiu recolocar nos trilhos suas sociedades e não, de forma alguma, a iniciativa privada.

Hoje, obviamente, a iniciativa privada possui diversas universidades particulares na Singapura, no Vietnã, no Japão. Mas a base, a ascensão e o projeto de modernização do ensino foi feito por Estados fortes, impositivos e duros nas regras da educação.

Educação não é um negócio, não deveria ser. O aluno nunca é cliente, é produto! Um produto lapidado de forma inteligente trará um bom nome para quem o fez, no caso, a escola. Dono de escola que trata pais e alunos como clientes está completamente imerso a um único objetivo: lucro a qualquer preço.

Agora o medo tomou conta dos brasileiros, açoitados por políticos asnos que desprezam a vida humana e valorizam armas e polícias. Valorizar farda e arma ao invés de ensino mostra não o desprezo dessas pessoas, mas o erro histórico que nossa sociedade de gueto criou. Enquanto ricos viraram as caras para as escolas públicas, não perceberam que um dia a conta chegaria dentro de seu apartamento.

E a conta está chegando. Você pode abrir a porta ou não, mas a conta está lá fora te esperando.

Precisamos tirar todos os dormentes podres da educação, trocar por concreto, modernizar os trilhos e bitolas. Só assim, quem sabe um dia, o trem do conhecimento poderá passar para nos tornar um país melhor. E isso não leva menos de 30 anos, tenha paciência!