Sexta-feira, 23 de Abril, 2010

 

A Bolha Brasil

Nessa semana muitas entrevistas foram dadas por ministros e pessoas ligadas ao governo federal debatendo com a imprensa e negando que o Brasil esteja vivendo a chamada "bolha" de crescimento. O sinal de nascimento de bolhas no processo de ebulição acontece com uma medida muito conhecida da física do calor: entropia das moléculas. A entropia mede o grau de desordem que as moléculas estão ao se aquecer um líquido. Quando se coloca água ou outro líquido para aquecimento, o aumento da temperatura faz com que as moléculas aumentem sua velocidade e conseqüêntemente suas colisões. As bolhas parecem surgir repentinamente, mas na verdade antes da visualização das mesmas começam a se observar uma pequena bolha aqui, outra acolá e então aparece uma porção delas com tamanhos maiores e mais freqüêntes.

Então, antes de se detectar uma bolha ou bolhas, deve-se medir algumas variáveis importantes e "chaves" que denunciam o aquecimento antes da visualização das bolhas. Interessante reparar que o governo e ministérios tem uma chave de ouro em seu poder mas insistem em debater com palavras o que ele próprio tem em suas mãos. O IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) possui em seu site um banco de dados importante e confiável sobre quase todas as medidas oficiais do país, conhecido como ipeadata e onde todos podem acessar e verificar com números o que os políticos afirmam com palavras.

Por exemplo, antes de entrar no debate da bolha, não basta apenas olhar como parâmetro a inflação e os juros (O Banco Central olha diversos parâmetros e estatísticas antes da tomada de decisão da Selic). Temos que observar o contexto global e não entraremos aqui em detalhes estatísticos e matemáticos pois sua visualização é tão fácil para os leigos que não se precisa apelar para técnicas científicas nessas variáveis tão "sociais". Todo cidadão percebe no dia-a-dia em sua própria conta o que sobe, o que cai, quem foi demitido, quanto o imposto subiu e quanto o trãnsito de uma cidade está aumentando. Esses são parâmetros importantes para se medir o pré-aquecimento e se existe uma entropia que aumenta. Um cidadão consciente pode "sentir" se o país está aquecido do ponto de vista da economia só indo ao mercado, não precisa de governo para tentar persuadir e dizer que a economia está ou não aquecida.

Por exemplo, olhemos o que acontece com a energia elétrica. O consumo e a geração da energia hidráulica que é mais utilizada no Brasil seguem abaixo em dois gráficos. Pode-se reparar que nos dados do consumo a curva que se ajusta aos dados desde Janeiro de 2000 até 2010 é uma exponencial (curva com curvatura para cima). Logo em seguida vem o gráfico da geração de nossa energia elétrica e a curvatura é para baixo, o que indica que em breve vamos estagnar do ponto de vista da eletricidade. Novas fontes e formas de geração são necessárias para a indústria continuar a crescer. Se não existe energia suficiente, o preço da energia subirá e será repassado pela indústria aos fornecedores do atacado. E estes claro, repassarão aos produtos para o consumidor que causará...aumento da inflação!

Então o combate a inflação por meio de juros é uma tentativa de remediar a conseqüência e não a causa, onde uma delas será a escassez de energia elétrica. Se crescermos mais rápido que a geração da energia, a inflação subirá muito rápido e os juros (pela atual política) também.

 

 

O rendimento do trabalhador aumentou? Claro que sim, mas muito devagar e muito menor do que as vendas no geral. Nos gráficos abaixo o que se observa é claramente um aumento exponencial para a venda de automóveis e para materiais de construção. Os picos no primeiro gráfico são referentes ao rendimento do assalariado com carteira assinada do setor privado é devido ao décimo-terceiro salário sempre no final do ano. Esse são dados são referentes a assalariados, que como se sabe é a maioria da população brasileira (ou próximo disso pois a economia informal cresceu muito nesses últimos anos).No ítem alimentação, ou seja, venda em hipermercados e supermercados o crescimento exponencial aparece novamente, com mesma velocidade (aparente) das outras vendas. A linha em branco nos gráficos marca a tendência dos dados, apenas como estimativa pois ninguém pode inferir sobre o futuro com base apenas no passado. Apenas podemos visualizar ver que existe uma velocidade de crescimento numa direção, mas com um grau de erro. Uma mudança abrupta pode acontecer sem previsão prévia desse tipo de técnica.

Mas como as vendas aumentam se as pessoas com rendimento até R$2.000,00 (que são a maioria da população brasileira) tem uma base de crescimento muito menor?

 

 

Essas vendas aumentaram pois as pessoas tomaram dinheiro emprestado de alguém ou de algum lugar. Novamente vamos observar o que aconteceu entre 2000 e 2010. A curva de empréstimo no gráfico abaixo, para pessoas físicas até R$5.000,00 é praticamente uma reta crescente o tempo todo desde 2000 (dados direto do site do Banco Central do Brasil). E quem emprestou às pessoas? Os bancos, claro, através do governo com linhas de crédito facilitadas. A curva das despezas do governo estão em ascendência exponencial como todos os dados de vendas e de consumo. As despezas desde 2000 independente do governo, tem alguns períodos de decréscimo sazonais devido a variação de pagamentos de juros internacionais e aumento com o pagamento de impostos. Mas seu crescimento em termos de tendência nos últimos 10 anos sempre foi para cima.

 

O que acontece quando todas as variáveis indicam crescimento exponencial? Em termos matemáticos se diz que elas "tendem ao infinito". Em termos computacionais vão ocasionar "estouro de memória". Em termos financeiros, vão crescer mais rápido e mais rápidos até pararem abruptamente seu crescimento. Estamos nos endividando no Brasil assim como nos países desenvolvidos. A diferença é que o endividamento dos países ricos tem um lado bom que funciona. Junto com esse endividamento a população possui boas opções de educação, saúde e cultura. Sem condições realmente sólidas, que não diz respeito apenas a reservas internacionais ou controle de inflação, mas ao gasto saudável com infraestrurura a toda população, a economia vem abaixo com o estouro dessas condições de bolha. Em 1927 os EUA viviam a alegria de um crescimento parecido com o nosso. A Flórida após ter sido devastada por um furacão viu um crescente "boom" na venda de terrenos e casas. Os preços cresceram com baixa inflação e com a ajuda de crédito do governo americano. Em suas entrevistas o presidente Hoover dizia que os EUA tinham uma "economia sólida" e que não havia bolhas nos preços dos imóveis (vide livro "The great crash-1929, John Kenneth Galbraith). O mundo europeu ainda em crise resolveu se voltar à compra dos títulos americanos e depois às compras das ações americanas, na época taxada como "baratas". E então, a bolha não observada estourou do nada...