
Terça-feira, 09 de Agosto, 2011
Quem disse que a Bovespa está barata?
Foi só as bolsas começarem a cair para analistas aparecerem na mídia dizendo que as quedas foram exageradas e que as ações estão baratas. Qual é o parâmetro para se julgar se uma ação é barata ou cara? Na economia existe uma disciplina bastante rígida que consiste do nome "formação de preços". Nessa disciplina são usados modelos dinâmicos, otimização e uso de uma função conhecida como utilidade. Ajustar essa função utilidade à realidade é uma das coisas mais difíceis, pois ela é empírica e adota a hipótese do investidor racional. Mas mesmo assim a teoria é muito bonita com uma matemática fácil, compreensiva e não tão complicada de se usar. Infelizemente todos os que aparecem na mídia dizendo que a bovespa está barata não fizeram nenhum desses cálculos. Ou seja, ninguém (pelo menos não mencionaram) usou um ajuste de parâmetros ótimo, para uma específica função utilidade, nem maximizaram usando algum método de pesquisa operacional. Os analistas da mídia apenas olham o mais antiquado e antítese da era moderna conhecida como relação P/L (preço dividido pelo lucro). Esse tipo de parâmetro funcionava muito bem na época das tais "guimbas de charuto" do senhor Buffet, lá pelos idos de 1950. Hoje temos alta frequência nas negociações, com robôs nada racionais operando no lugar de um humano para os grandes fundos e bancos. Não é verdade que as ações estão baratas e que a Bovespa chegou ao fundo do poço. Não, a Bovespa não chegou, pelo menos ainda não. O cenário mundial não deve ser observado por dados de sentimento de entrevistados, por palestras motivadoras ou reuniões de executivos. O cenário deve ser observado pelas atitudes e essas não são nada satisfatórias. O sistema financeiro precisa de urgente modificação em sua linha de pensamento no que se refere a formas de usar dinheiro e investir em algo que exista. Olhe para os estrangeiros aqui no Brasil, em especial na Bovespa. Pelo nosso monitor de estrangeiros com dados adquiridos diretamente da Bovespa percebe-se que os estrangeiros voltaram e o fluxo é positivo. Mas se eles mais compraram do que venderam, por que o ibovespa foi o índice que mais caiu entre os emergentes? Porque os estrangeiros que estão entrando estão operando como vendido no mercado futuro, obrigando a queda da bolsa para as ações à vista. Não há regras de limitação e quanto mais a bovespa cai, mais os grandes fundos "batem" no ibovespa para ganhar no futuro. O leitor pode observar nesse gráfico que quando o fluxo era negativo a bolsa subia e não tínhamos crise! E por que eles estão chegando na Bovespa apesar da crise voltar?
Mas as ações das empresas americanas não subiram com os relatórios trimestrais positivos? Sim, mas não devido ao aumento do comércio e sim devido à especulação no mercado financeiro. Todas as empresas com ações em bolsa resolveram atacar no mercado financeiro, tomando dinheiro emprestado, pois os juros são zero. E então começaram a jogar na bolsa também. Algumas até desenvolveram tecnologias novas, mas reduziram o quadro de funcionários demitindo em massa. Estão esperando o retorno da normalidade para recontratar e enquanto isso não acontece aplicam o dinheiro em bolsa. Se a situação fosse real como mostrado no gráfico de comparação, por que HSBC notificou na semana passada que vai demitir 30 mil funcionários em todo o mundo? O termômetro do mercado financeiro é banco. Quando banco começa a demitir aquilo que menos custa para ele, é porque tem algo errado nas contas e nas "brincadeiras" financeiras. O HSBC pode estar abarrotado de títulos de Itália e Espanha e já percebeu que pode tomar calote e não ter dinheiro para continuar movimentar o mercado financeiro. Estando então as ações não baratas, quando será possível afirmar que as ações são baratas. A julgar pelos dados admensionais anteriores, é possível notar que a atual crise de 2008-2011 tem as mesmas dimensões em relação a 1929. Com exceção que ocorreu a enxurrada de dinheiro sem lastro no mercado fazendo subir ( o que não aconteceu em 1929), o quadro é o mesmo e assim que arrebentar a sustentação deveremos atingir o mesmo fundo do poço de 1929. O pior patamar da recessão americana de 1929 foi ficar em 40% do pico máximo. Nos dias de hoje seria algo em torno de 5.000 pontos para o Dow Jones. Conforme mostramos em nosso trabalho internacional resumido no texto "Nova crise já tem dono: Federal Reserve" (detalhe: publicamos antes da crise chegar agora em Agosto) pelas 300 simulações com 1800 dias, o poder da influência do FED na queda das outras bolsas é de 34%. Ou seja, em nossa simulação computacional, quando colocamos o FED para atuar no mercado ele derrubou em média 34% o valor da Bovespa. Se tomarmos o patamar que a Bovespa estava operando nos últimos meses, em torno de 65.000 pontos, se o FED atuar novamente com um quantitative easing 3 como todos estão ansiosos esperando, pode-se esperar o chão da Bovespa para 42 mil pontos. Mas se adotarmos a partir de agora com a nova entrada forte do FED, quando a Bovespa está com 50.000 pontos, podemos esperar que no novo pânico que ocorrer a Bovespa vai parar em 33.000 pontos. Esse deve ser o ponto ideal e considerado o chão das ações brasileiras. Claro que esses 33 mil pontos são teóricos e baseados em simulações de modelo, que podem falhar mas que dão um melhor cenário para a crise do que apenas achismo da relação P/L. O século XXI não permite mais esse uso arcaico e ultrapassado de finanças de 1950. Vamos olhar para o futuro, com técnicas e teorias novas, para não revivermos crises do passado. Quem acha que os 50 mil pontos da Bovespa são baratos para entrar, farão parte da segunda onda da crise que ainda poderá piorar até o final de Outubro desse ano. |
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