Sexta-feira, 27 de Maio, 2011

 

 

Brincando de ser sério

 

O grande general De Gaulle era realmente grande. Quando visitou o Brasil em Outubro de 1964, o Rio de Janeiro era a sede do governo federal e o Palácio do Catete era a casa do presidente da república. O maior problema do governo brasileiro não foi a segurança do presidente francês. Foi o tamanho da cama onde ele iria dormir. De tão grande, tiveram que correr para encontrar uma cama onde o presidente francês pudesse repousar e descansar de maneira confortável. Sua altura era descomunhal para os padrões brasileiros. E mesmo assim, com toda essa cortesia do governo brasileiro ele mencionou a célebre frase: "Este país não é sério". Essa frase veio em meio a uma série de alfinetadas entre os dois países por conta das entrevistas fornecidas pelo então governador do Rio de Janeiro Carlos Lacerda. Uma das primeiras frases desconcertantes foi quando um jornalista lhe perguntou sobre que impressão ele tinha de De Gaulle. A resposta foi: "... a mesma do arco do triunfo: bonito de longe, feio de perto...". Em outra pergunta um jornalista pergunta sobre a revolução sem sangue no Brasil, no qual ele responde:"...a revolução no Brasil é como o casamento na França...". (veja outras perguntas e respostas aqui).

Parece que os franceses que dominam o Banco Central Europeu resolveram copiar o padrão brasileiro tão criticado pelo seu eterno herói de guerra. Estão abrindo os cofres do desespero em troca de nada, apenas de promessas. O prêmio nobel de economia, professor Paul Krugman escreveu um excelente artigo em sua coluna no New York Times: "Quando a austeridade falha". Sua linha de raciocínio vai de encontro as diversas críticas que estamos fazendo ao Federal Reserve e sua atuação no mercado americano ("Nova crise já tem dono:Federal Reserve"). No caso europeu a crítica não é em relação a participação no mercado financeiro, mas a falta de seriedade dos países endividados em cumprir os tratados assinados. O dinheiro está sendo liberado mediante apenas a palavras e frases de compromissos, segundo Krugman.

No Brasil das décadas de 1970 e 1980 estávamos acostumados com as tais "missões do FMI". Quantas e tantas vezes os europeus aportaram aqui com "ar de sabedoria" com suas pastas de couro marron, sem muitos documentos de análise mas muita soberba de cobrança. Para o FMI tudo que fazíamos estava errado (em alguns aspectos sim, isso era verdade) e o governo tinha que diminuir salários, demitir funcionários e permitir recessão. Sim, as missões do FMI sempre propunham recessão ao Brasil. Eram tão famosos por aqui, que quando saíam do aeroporto não davam entrevistas, sempre carrancudos e fechados como estrelas de rock assediados de fãs. Devem ainda estarem vivos para ver e sofrer aquilo que fizeram por aqui.

E por que não propõem recessão aos seus parceiros? Por que não pedem termos assinados e liberam apenas dinheiro mediante as primeiras promessas realizadas? Essa é a severa crítica de Krugman.

 

General De Gaule

Já comentamos nesse website, por diversos textos o quanto a Europa tem sido displicente e complacente com seus pares ("Castanholas ao chão","Velho continente, erros antigos", "A França jogará a toalha?", "Terrível e desesperador empréstimo - Irlanda").

Será que agora com o prêmio nobel alguém vai se alertar contra o perigo europeu? Difícil. A teimosia faz parte dos homens de ternos pretos. De dentro das torres de marfim eles são soberanos. Mas é bastante interessante que agora um acadêmico de renome alerte para a nova perna da crise financeira. Ela virá e está sendo prevista não pelos apóstolos de Cassandra ("O Oráculo de Cassandra"), mas por alguém que já recebeu seu reconhecimento dos próprios europeus.

Qual a saída? Fazer como a Islândia fez, num grande NÃO contra seu próprio governo. Portugal deveria ter feito como a Islândia em não aceitar ajuda financeira para ser paga pelo povo, mas sim punir os governantes que erraram e permitiram o jogo finaceiro desleal e perigoso (veja o texo "O caloroso NÃO na gélida Islândia").

É claro que isso parece ser um tiro no próprio pé, mas quem paga imposto deve exigir responsabilidade nos investimentos de seu governo. A Espanha chegou onde está, atolada no desemprego por falta de capacidade e organização do governo. O governo espanhol se achou, na década passada, como se ainda fosse o grande galeão do século XVI. E agora? Mesmo relutando, vão precisar de emprétimo e seu maior banco, com representação forte no Brasil não anda nada bem por lá.

 

 

 

E a seriedade que exigiram por 10 anos do Brasil? Os europeus do Banco Central esqueceram e acham que colocar dinheiro nos outros países é sinônimo de finalizar crises. Não é. Basta olhar para a Grécia que não cumpriu nenhum ponto do acordo e se tentar cumprir, o povo vai parar o país. Portugal vai cumprir o acordo com o BCE? Claro que não, pois o precedente grego já foi dado.

Qual o resultado? Nova crise financeira, segundo Krugman. Em seu artigo ele é bastante enfático em dizer: "O BCE está agindo como se estivesse determinado a provocar uma crise financeira". Essa frase parece com os nossos comentários aqui no "Mudanças Abruptas", mas é do nobel Paul Krugman.

Esse é mais um fato para nos alertar que duas pontas perigosas que emergem no exterior. Do lado americano, ainda em frangalhos, o FED vai sair do mercado agora em Junho/2011. A reação do mercado será como de uma criança que está começando a andar sozinha. Vai balançar e cair sentado. E depois chorar. Do lado europeu, já caíram, já estão chorando e estão com fome. Pior que a comida está acabando. O alimento nesse caso, é a seriedade que não existe mais.