Terça-feira, 02 de Agosto, 2011

 

A cabra cega dos EUA

 

Quando criança quem não brincou de cabra cega? Em algumas regiões também chamada de cobra cega, a brincadeira consiste em deixar um dos participantes com os olhos vendados correndo atrás dos demais. Se ele tocar em alguém, esse alguém se torna a cabra cega. A versão mais sensual é aquela que meninos e meninas vendam um dos participantes e com a ajuda de um participante vai apontando para os demais. Quando se escolhe (sem saber) um participante o cabra diz se quer um passeio de mão dada, um beijo, um abraço, etc. Bons tempos que essa brincadeira era saudável e as meninas ficavam roxas quando tinham que beijar os meninos, na bocheca, é claro.

Mas mesmo nessa brincadeira tinha alguns truques para não escolher alguém não desejado. A parcimônia do jogo fazia com que os amigos, na hora de apontar um escolhido, desse um apertão como um sinal que a pretendente preferida ou preferido estavam sendo apontados. A versão mais cruel dessa brincadeira é a chamada roleta russa, onde um revólver contém apenas um projétil e o tambor é rolado. O participante então é obrigado a apertar o gatilho contra si. Esse era um mecanismo de tortura bastante utilizado nas guerras dos anos 1960 entre soldados americanos e vietnamitas.

A novela do débito dos EUA chega ao término de sua primeira fase de embate. Claramente quem venceu essa batalha foram os Republicanos e por isso o próprio partido do presidente, os Democratas, votaram em sua maioria contra o atual aumento do déficit. Era visível o ar de derrota no presidente Obama dos EUA quando anunciou que um acordo tinha sido finalizado. Inclusive a frase inicial começa com um NÃO, onde ele diz que se perguntando: "É esse acordo o que desejávamos?". E ele mesmo responde: "Não".

Os Republicanos brincaram de cabra cega com o presidente dos EUA, que vendado tentava sozinho pegar esse ou aquele plano, cedendo daqui e dali. Mas Obama não conseguiu pegar ninguém e a brincadeira acabou. Como todo final de brincadeira, Obama vai pagar um castigo. O castigo da derrota eleitoral no ano que vem. E o castigo do aprofundamento da crise nos EUA e no resto do mundo. Mas por que os Republicanos são do tipo "quanto pior, melhor"? Vamos aos dados.

Primeiro eles foram humilhados e derrotados de modo vergonhoso nas últimas eleições presidenciais nos EUA. Foram acusados de responsáveis pela crise financeira mundial e ficaram sozinhos, encurralados com seu representante maquiavélico Bush sendo um dos mais patéticos presidentes dos EUA.

Em segundo lugar, os Republicanos não querem terminar com as guerras do mundo. Pelo contrário, quanto mais guerras para eles melhor. Não que eles apreciem mortes, mas apreciam lucros. O partido Republicano está ligado a dois tipos de empresas nos EUA: Petróleo e Defesa. Sempre que alguém tenta cortar os lucros dessas duas áreas, uma guerra é deflagrada ou gerada pelos EUA. Na verdade, na maioria das vezes por um representante Republicano.

Nixon invandiu o Vietnã, Ronald Reagan brigou com o Irã, Bush pai invadiu o Iraque e Bush filho invadiu o Iraque novamente. O Iraque foi uma dádiva, pois melhorou o desempenho da indústria bélica e petrolífera. Quem mais colaborou com o déficit nos últimos 100 anos? Olhe a figura ao lado.

 

Participação do Depto de Defesa no débito dos EUA

Em vermelho é mostrado a participação do departamento de defesa dos EUA no débito nos últimos 100 anos. Esses dados são expressos em porcentagem do PIB dos EUA. Na segunda guerra mundial o departamento de defesa foi responsável por 70% do débito nacional americano. No final dos anos 1990, o déficit americano tinha praticamente zerado, mas os gastos com a defesa também. As empresas bélicas estavam falindo. Era hora de criar uma guerra para parar os prejuízos. A invasão do Iraque fez novamente o débito aumentar com departamento de defesa sendo responsável por quase 20%.

Quem mais ganhou nesses anos todos foram as empresas de tanques, canhões, munição, aviões de guerra, informática militar, etc. Nos EUA o governo terceiriza para empresas privadas os projetos de guerra. E quem disse que lá não tem desvios como no Brasil? Desvio de dinheiro público não é privilégio só do Brasil e nos EUA a cifra é em Bilhões. É possível notar no mesmo gráfico que na guerra fria, o débito só existiu por conta dos gastos de defesa. Isso não pode parar. O gráfico ao lado apresenta a comparação entre saúde e defesa.

Comparação gastos de defesa e saúde nos EUA

Enquanto a discussão estava na área da saúde, para cortar gastos e distribuir melhor o serviço, os Republicanos foram contra apenas para garantir votos no congresso para o ataque posterior. E quando Obama começou a falar em cortes na defesa e trazer soldados de volta, a hora do ataque Republicano tinha chegado.Os Republicanos não querem diminuir em hipótese alguma os gastos no setor bélico também por outro motivo. A figura abaixo apresenta a comparação e comportamento da curva de juros com os gastos da defesa.

 

É bastante fácil observar no gráfico anterior qual foi o comportamento da curva de juros desde Ronald Regan em 1980 até os dias atuais. A curva em azul dos juros acompanha as mesmas oscilações dos gastos da defesa. Os dados de 2011 para 2016 são estimativas baseadas em dados anteriores, feitos pelo próprio governo dos EUA. Em outras palavras, para os Republicanos, manter o departamento de defesa sem cortes obriga os EUA a manter juros alto. Manter juros alto significa maior retorno financeiro das aplicações particulares e empresariais. Logo, "não mexam na defesa".

O que os Republicanos não imaginam é o tamanho da crise que eles próprios vão colher. A diferença em "brincar de guerra" agora, ao contrário dos anos 1980, é que os EUA e a Europa estão quebrados e mal cicatrizados da crise financeira recente. Em outras épocas sempre que um lado não estava bem, o outro cobria com desenvolvimento, investimento, geração de empregos e novas guerras. Agora tanto Europa quanto EUA e mesmo o Japão estão com problemas de desemprego e no sistema financeiro. Ninguém vai querer uma guerra nesse momento, pois estão saindo das invasões do Iraque e Afegnistão quebrados por empréstimos e aumento dos débitos.

O que essa crise tem com o Brasil? Tudo. E com a China também. Ambos junto com a India estão entre os maiores compradores dos títulos americanos. Se o rendimento desses títulos cair com o rebaixamento das agências de risco, os três países vão perder muito, mas muito dinheiro. A China tem mais de 1 trilhão de dólares investidos nesses títulos. Se o rebaixamento da nota de crédito dos EUA provocar uma queda de 30% como estima alguns bancos, serão 300 bilhões de dólares a menos para a China. Isso corresponde a toda reserva do Brasil !

Por isso a França e Alemanha estão desejando tirar os ratings das dívidas das mãos da Standard & Poors, Moody's e Fitch para colocar numa empresa oficial mantida pelos governos da Europa. De agora até o fim do ano a nova batalha será essa. Todo mundo vai dormir com essa dúvida: será que amanhã a nota dos EUA será rebaixada? E pior que nessa brincadeira da cobra cega, ninguém vai ter um amigo para dar um apertão indicando que a "bela escolhida" para um beijo é a próxima.