Quinta-feira, 23 de Julho, 2015

 

Vamos dar calote no mercado?

Às 20:00 hs do dia 20 de Fevereiro de 1987, o então presidente José Sarney abriu uma cadeia nacional de rádio e televisão para seu pronunciamento catastrófico: "... Brasileiros e Brasileiras...". O país estava suspendendo por 90 dias o pagamento dos juros da dívida externa brasileira. Foi uma jogada arriscada de Dilson Funaro, ministro da Fazenda, para fazer com que os credores baixasse, os juros de risco da dívida ("spread") depois de quase um ano de reuniões sem sucesso.

O primeiro a saber antes de todo o mercado financeiro foi Paul Vocker, presidente do Banco Central dos EUA ( Federal Reserve- FED), que afirmou: " O governo Sarney não é confiável". Assim como a Grécia, Sarney resolveu encostar os credores na parede, mas as consequências foram mais graves para nós do que para eles.

Com o próprio Sarney, nada aconteceu, mas com o brasileiro comum, o sofrimento foi quase insuportável. A inflação era de 80% ao mês, as remarcações dos produtos nos supermercados eram feitas as 8:00 hs da manhã e as 15:00 hs, a poupança rendia em apenas um dia algo em torno de 10%, ninguém tinha a ideia do que seria no dia seguinte e os empregos eram raros.

Mas vivemos e sobrevivemos, com dia após dia uma solução imaginativa aqui e outra acolá. Não tinha carne para todos? Fomos para a carne de soja. Não tinha cerveja para todos? Tomávamos a cerveja com gosto de lata do México. Não tínhamos celulares, nem computadores, mas todo mundo ainda assim fazia sua festa, seu churrasco e a vida seguia.

O que se vê plantando nos dias atuais de baixa na economia são os discursos derrotistas onde parece que o fim do mundo chegou. Discursos sobre a tal crise financeira não saem da mídia, o tempo todo, com olhares das pessoas mais pobres assustadas e com medo até de ir à feira comprar verduras. Solução, ninguém comenta, mas a palavra "crise" agora virou moda nos jornalecos brasileiros. Quem não fala de crise, ou usa a palavra crise, não tem crédito.

Alguns veículos até decretaram a "falência do Brasil". Outros já publicaram a "falência da Petrobras" e outros terrorismos baratos surgem a todo instante na internet e televisão. O governo errou, o governo erra, e os políticos são os personagens do centro. É inadimissível o Congresso Nacional ter o direito de gastar em seu orçamento quase 300 milhões de reais. É inadimissível o judiciário pedir 78% de aumento. Enfim, temos uma série de erros, mas daí dizer que estamos falidos, é baixar o nível de mais. Ou então, todo mundo nasceu apenas após 1994 e não sabe nada da vida!

No dia 21 de Fevereiro de 1987 todos os países do mundo manifestaram-se sobre o pronunciamento de Sarney. O primeiro apoio veio dos hermanos argentinos. Raul Alfonsin, presidente da Argentina, ligou calorosamente para Sarney apoiando-o. Algum tempo depois a Argentina repetiu o gesto do Brasil, que já havia copiado o gesto do México.

Uma das justificativas na época para nosso calote, é que em 18 meses o Brasil gastara US$ 5 bilhões das reservas, o que foi um escândalo naqueles dias. E sabe quem apoiou Sarney e a moratória? O deputado Delfim Neto do PDS-SP na época, que escreveu: "... É lamentável que estejamos tentando tirar um efeito populista de uma medida que tecnicamente já aconteceu..." (FOLHA SP 21/02/1987 - Caderno de Economia).

Quem também apoiou foi Franco Montoro, Orestes Quércia e Ulisses Guimarães do PMDB, que indicavam um "terrorismo internacional" sobre o Brasil. Hoje o mesmo PMDB é contra o governo o qual ele mesmo criou e apoiou nesse século XXI.

Nos dias atuais, não existe base técnica, teórica ou financeira, para que a mídia e veículos de internet propaguem essa ideia de que o Brasil está falido, e de que essa é a "pior crise" da modernidade no Brasil. A figura à seguir foi construída utilizando os dados oficiais da Secretaria do Tesouro Nacional, com dados sobre as várias faces da dívida.

O que se observa é que desde dezembro de 2007 até maio deste ano, os investidores estrangeiros estão participando cada vez mais dos leilões do Tesouro, comprando os títulos da dívida pública. Nos dias atuais, praticamente existe uma divisão igual entre os Bancos, os fundos de investimentos e os investidores estrangeiros na porcentagem de interesse nos títulos brasileiros. Por que? Porque são os títulos que pagam melhor no mundo, com nossos juros exorbitantes.

Mesmo com o possível risco de perdermos o grau de investimento entre as maiores agências de risco, não se vê uma saída ou efeito manada para deixar de comprar nossa dívida através dos títulos. Isso não acontecia em 1987, onde desde 1983 os investidores estrangeiros nem pensavam em comprar títulos de nossa dívida com medo de calote. Depois de 1987, da era Sarney, o Brasil somente voltou a emitir títulos com interessados em 1995.

Se realmente o Brasil vai falir, por que tanta gente interessada?

Ao lado é possível observar a variação na rentabilidade dos títulos da dívida brasileira. No geral o Brasil paga 12% de rentabilidade/ano em seus títulos, sendo que em Maio de 2015 os títulos da categoria IMA-B( ex NTNB) deram retorno de 14% em 12 meses.

No gráfico ao lado é possível observar o histórico dos retornos dos títulos de maneira geral. O IMA-geral é uma ponderação das rentabilidades de cada título e é possível notar uma certa estabilidade nos retornos dos pagamentos.

É isso que está atraindo os investidores estrangeiros, procurando uma rentabilidade alta em tempos de parada geral no mercado financeiro mundial.

Se a procura ainda fosse apenas de Bancos e fundos de investimentos, seria bastante preocupante o aumento da procura.

Esses bancos e fundos são dominantes no mercado internacional, estando sempre presentes nas crises mais graves da modernindade.

Mas dividindo de modo mais ou menos igual a fatia da dívida, deixa de expor a dependência geral existente do Brasil para apenas duas parcelas do mercado.

Com 12% de retorno médio desde 2005 como visto no gráfico ao lado, não parece que o Brasil está falindo ou que dará calote, ou ainda que não vai pagar sua dívida. Interessados existem.

Isso não quer dizer que essa situação não possa piorar amanhã, ou no mês que vem, com a pirraça de alguns membros do Congresso Nacional.

Uma coisa é ir contra o governo, outra é ir contra o Estado. O Estado tem que continuar andando, as pessoas precisam de dinheiro, de emprego, e ninguém nesse momento quer saber se o partido A é melhor que B, ou se o político A gosta do político B.

Todo mundo quer emprego e dinheiro no bolso. Então, se estrangeiros não acham que nesse momento somos caloteiros ou falidos, por que a mídia tenta vender essa ideia?

 

rentabilidade dos títulos da dívida brasileira

 

 

 

histórico da rentabilidade

 

Mas apesar dos estrangeiros confiar mais em nossa dívida e capacidade de pagamento do que nós mesmos, existe um perigo de explosão iminente.

Nessa entrevista da ex-auditora da Receita ( A dívida pública é um mega esquema de corrupção institucionalizado ), Maria Lucia Fattorelli, esclarece fatos bastante importantes de maneira muito didática sobre nossa dívida.

Por exemplo, ela critica como o Tesouro esconde o nome dos dententores de nossa dívida. E ainda diz como essa dívida ganhou uma dinâmica própria e incontrolável.

Denuncia, por exemplo, que não mais do que 12 grandes bancos estão forçando a barra para o aumento dos juros de forma galopante, e assim, forçar a onda de privatizações, que segundo ela estão entregando o Brasil para esses credores.

Já escrevemos aqui quem supunhamos que fossem, mas ela nomeia os nossos "amigos" de sempre: Citibank, Itaú, HSBC, etc..

Quem é Maria Lucia?

Essa ex-auditora é muito importante segundo a revista Carta Capital, a ponto de fazer parte da comissão que foi convocada para estudar o reescalonamento da atual dívida grega. Outros países já a convidaram para estudar e apontar formas de discutir a forma de acordos sobre as dívidas externas.

Segundo ela, o governo está lançando títulos para pagar juros de dívidas, que geram dívidas, que geram outros títulos e assim a bola de neve não para. E isso um dia, vai acabar abruptamente, podendo levar o Brasil num caos financeiro. No momento parece que ainda existe lastro para essa roda continuar, mas até quando?

Essa parada financeira para nós, não é uma crise, mas uma correção necessária, apesar de dolorosa. Apartamentos estavam fora do preço real, automóveis, eletrodomésticos, aluguéis, tudo estava e ainda está fora de rumo. Ajustar isso é uma tarefa árdua e difícil, mas não impossível a ponto de decretar nossa falência. Por isso a inflação agora está projetada em 9% e a Selic deve chegar a 14%/ano.

Não, não teremos calote por enquanto, e não estamos falidos como provocam alguns veículos de mídia e internet. Mas também não estamos numa zona de conforto. O que temos que fazer é desatrelar o mais rápido possivel a política suja, de nossa vida real e endividada. Temos que confiar que é nas crises que grandes pessoas, grandes empresas e grandes soluções aparecem. Só quem viveu inflação de 1.000% ao ano e sobreviveu à essa batalha, poderá entender que discurso derrotista é para fracos, e não para cidadãos sérios.

 

 

 

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