
Sábado, 14 de Janeiro, 2012
Cascatas de informação dos mercados Caro leitor, você tem seus 18 anos e sai com um grupo de amigos para conversar num bar bem legal e lotado por pessoas bacanas. O bar é "o bar", todo mundo da cidade vai badalar nesse bar. Todos sentam na mesa, pedem o cardápio e o problema começa. O que pedir e como será a divisão? Cada um pagará seu consumo ou será dividido por todos? Se a divisão for feita igualmente por todos, tudo dependerá dos primeiros pedidos. Se todos fizerem pedidos parecidos em preço, todos correm o risco de passar uma noite chata, pois muitos não gostam das mesmas coisas. Sempre vai ter o primeiro que vai fazer um pedido extravagante. Se o segundo e o terceiro fizerem mais pedidos extravagantes com a divisão acertada ser igual para todos, o que acontece? Com certeza, mesmo não sendo extravagantes, o restante vai pedir inclusive coisas que nem é acostumado a consumir. É que nesse tipo de problema, indíviduos em uma população param de se comportar como indivíduos e começam a agir como uma massa coerente. É fazer o que todos fazem para não ser diferente. Se está numa mesa com 20 amigos, por que questionar o pedido de um champanhe que você terá que pagar sem gostar da bebida? É que você corre o risco de ser o único a levantar tal questão e ser tachado de "diferente". Como nesse tipo de problema não temos informação à priori se mais alguém vai aceitar nossa posição contrária, é natural se calar. E assim, mesmo sendo contra ou não gostar do que o grupo faça, não questionar se torna uma posição mais confortável diante da massa. A informação não disponível em seu total, que aparece aos poucos e a medida que o tempo do evento avança, forma uma informação que vem nível após nível, caindo em nossas mentes como uma cascata. Imagine uma passeata, por exemplo contra o regime socialista na Alemanha Oriental em 1989. Depois de muita opressão, era comum ser contra, mas se manifestar como a massa oprimida de maneira quieta. Melhor ainda era seguir as opiniões de não se manifestar. Mesmo não concordando, para não ser diferente da massa, o melhor era concordar. Mas quando alguns se levantam e as pessoas percebem que existe conformidade de opinião, as revoltas e decisões explodem a ponto do governo que era sólido se desmoronar. O psicótico movimento hitlerista foi a mesma coisa. Muitos alemães não concordavam com os atos e os caminhos da Alemanha nazista. Mas ser diferente ou questionar poderia custar a vida. A informação disponível estava em níveis muito distante e só apareciam aos poucos, caindo como uma cascata. Dentro desse fenômeno aparece um outro, conhecido como conformidade. Por exemplo, você usa facebook? Por que usa? Parou para pensar em sua utilidade ou o que ele acrescentará em sua vida? Certamente não. Você se cadastrou porque muitos parentes e amigos estão, e estão lhe dizendo que é muito bacana, que é legal e que "todo mundo" tem. Então você começa agir em conformidade com sua comunidade para não ser "o diferente". Você se acua em questionar e ir contra as pessoas com medo de magoar ou ser motivo de sátira. Pois bem, fique tranquilo, 50% das pessoas são assim. Psicólogo Social Solomon Asch Essa foi uma famosa pesquisa conduzida pelo psicólogo social Solomon Asch nos anos de 1950. Ele selecionava um voluntário e colocava numa sala com outros atores. Os atores eram instruídos a dar as respostas livres de alguns slides até um certo momento. Então, começavam todos a dar as mesmas respostas completamente erradas. O voluntário até resistia um pouco, mas no final ia em conformidade com o grupo, mesmo sabendo que as respostas eram absurdas. O estudo mostrou que 50% seguiram as respostas erradas do grupo e todos sentiram ansiedade, suor e medo pela reprovação dos demais.
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Mas quando a informação atinge um nó muito coligado e ligado à outros nós também muito bem conectados, essa informação vira mania. E como mania, o nó que a adquiriu age em conformidade e espalha para os demais membros da rede. Por isso um vírus de computador se espalha com facilidade e rapidez. Encontrar o nó ideal na internet não é difícil, visto que os robôs-soft (programas que estão viajando livremente pela rede) se instala via e-mail, imagens ou vídeos. Esse salto de informação tem um ponto, chamado de ponto crítico que torna a informação uma mania e transforma as pessoas racionais em massa fortemente manipulável. O movimento de crescimento de uma mania ou de uma informação que transformará uma pessoa em conformidade com a massa começa lentamente como uma curva conhecida como logística. A informação ganha caminho, ganha adeptos, e quando encontra o nó B (por exemplo na imagem acima) ganha velocidade até atingir um limiar "m" como mostrado abaixo. Então a informação não tem como crescer mais, e o mesmo responsável por transformar a mania será também o responsável por "matar" essa mania. Como o nó responsável recebe ínumeras informações o tempo todo, passará a frente outras informações que influenciarão novamente outros nós, deixando a mania anterior desaparecer. Vide por exemplo a "febre" do Orkut. Praticamente reduziu em 50% o número inicial de usuários que possuía dois anos atrás. E o Napster? Alguém ainda usa o Napster para baixar músicas?
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Com esse propósito, as agências de ratings estão rebaixando as notas de crédito de diversos países, ou por conta da crise financeira ou por que estão criando a crise financeira. O primeiro teste foi rebaixar os EUA, até então o país mais seguro do mundo e com AAA. Adiaram ao máximo o rebaixamento, por medo de sansões. Estavam no estágio da cascata de informação, pois não sabiam o que as outras agências concorrentes iriam fazer. Se uma delas rebaixasse a nota de crédito e as outras não, a agência que rebaixou seria criticada e perderia os clientes. Mas então, depois que os EUA foram rebaixados, as outras agências começaram lentamente a fazer o mesmo. Depois de um certo tempo, os bancos e empresas dos EUA também foram tendo suas notas de crédito rebaixadas. Dos EUA passaram para os demais países da Europa e agora a mania se espalhou. Estão todas no momento da conformidade, repetindo sempre o que a outra fez para agir como massa. Nessa semana a agência Fitch soltou um comunicado dizendo que não tem perspectiva de rebaixar a nota de crédito da França. No entanto a Standard & Poor's rebaixou o triplo A da França, saindo na frente dos rebaixamentos. Será que a Fitch vai manter seu comunicado, ou dizer que o "cenário mudou"? Não existe estudo, existe uma conformidade para agir como massa. O mesmo ocorreu com os bancos centrais durante a crise de 2008. Bastou o FED (EUA) dizer que o correto era abrir o cofre para os créditos, que todos fizeram a mesma coisa, sem raciocinar ou questionar outras alternativas. O Banco da Inglaterra foi o único que fez algo diferente no início, mas conforme o experimento de Solomon Asch mostrou, também eles acabaram usando o mesmo artifício para agir como massa. Agir como massa ou conforme a massa pode nos dar tranquilidade momentânea de não ser atingido pessoalmente por decisões desfavoráveis. No entanto, uma massa muda tão rápido de opinião quanto uma pessoa isolada. O impeachment do presidente Collor de Melo começou com uma cascata de informação entre estudantes cara pintadas. Então virou conformidade de massa e os mesmos que votaram e levaram Collor para o poder, o retiraram de lá. Isso mostra que se apoiar na massa ou andar com ela, não garante um futuro certo. A massa está o tempo todo procurando nós importantes de informação. Ser chamado "do contra" e questionar também faz a diferença. Tudo é uma questão de acharmos o nosso nó correto para levar a informação racional, e se for para mover a massa para o bem usando a conformidade, que seja para os nós pensantes. Os nós dessa rede global estão "entupidos" de ruídos e vazios. Encontrar o nó e a informação correta não é um ato da massa, é do ser humano racional. Se preferir viver como a massa estará deixando a máquina mais fantástica do mundo, seu cérebro, se tranformar num nó cego.
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