
Terça-feira, 15 de Dezembro, 2010
Castanholas ao chão
A Espanha terá sua nota de crédito rebaixada a partir dessa semana (talvez!). As três agências que medem risco de endividamento de países vão começar a entregar o "presente de natal" para a Espanha. Dona de um índice de desemprego inconcebível para país desenvolvido, a Espanha está derrapando desde o início desse ano. Maus investimentos, aumento de gastos e pouca exportação fizeram a Espanha decair em termos de PIB nos últimos 5 anos. Conforme mostramos em "Velho continente, erros antigos" é o segundo país com nível de desemprego mais alto na Europa. Na época o índice estava em 19,7% (Abril) hoje (Outubro é o último dado) está em 20,7%. Mas entre os jovens a taxa já é muito maior, não proporcionando ânimo sobre o futuro.
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Fonte: Eurostat |
A ameaça de rebaixamento já tinha sido feita no começo do ano pelas agências de ratings, mas as conseqüências não seriam tão graves pois as bolsas estavam subindo e apesar dos temores de sempre, o mercado estava fazendo dinheiro. Agora as conseqüências podem ser mais graves. As bolsas estão de lado nos últimos tempos, sempre caindo depois de subir forte. Os PIBs estão com crescimentos modestos e na Europa a poderosa Inglaterra está tão complicada quanto a Espanha. De fato dentro da região do Euro apenas a Alemanha se mostra forte e fora dos problemas. Mas se um grande país como a Espanha cair, todos vão juntos. Mostramos em "Ameaça à Inglaterra" como são os critérios dessas agências de ratings e qual a fórmula que uma delas usa para aplicar seus índices. Tudo se baseia numa fórmula que estima a probabilidade de calote de um país através da distribuição de probabilidade "normal" ou "gaussiana" e então se podera essa probabilidade pelas probabilidades de outros países. Mas, a decisão final é de um comitê. Logo, a decisão é mais política do que técnica e por isso os países ficam assustados com essas agências. Donas de uma fortuna mantida pelo mercado financeiro mundial, essas agências se tornaram mais importantes do que os países, o que não deixa de ser absurdo. O mercado as criou, o mercado as mantém, o mercado agora depende do monstro. Elas acertam? Nunca. Mas esses ratings dão o veredicto final, empurrando um país ladeira à baixo quando estão na beirada. Basta ver a Islândia, a Irlanda, a Grécia, mais recentemente Portugal e agora a Espanha.
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Fórmula de ratings da agênica Moodys |
Uma prova do veredicto final está no texto da bloomberg de hoje onde uma analista com "ar poderoso" diz: " A Espanha requer de fundos, não somente para os títulos soberano mas para os bancos e isso pode levar o país ao estresse...". O que ela disse que o mercado não sabia? Repetiu o que todos sabem desde dois anos atrás para justificar o resultado de uma equação que é bastante questionável. Nos sites dessas agências diversos detalhes sobre o funcionamento das equações são ditos como "sigilosos" em respeito à países e empresas. Tudo que é sigiloso ou secreto é porque se esconde obviedades e coisas tão mal feitas que o mercado nunca mais pagaria por tal serviço. A prova mais recente disso está no wikileaks, a sensação desse fim de ano. Todos os telegramas mostram como mesmo os diplomatas são amadores nos tratamentos ao países em que residem, e como são apenas "fofoqueiros" sem base sólida em suas afirmações. Quando o Ministério da Aeronáutica do Brasil abriu "documentos secretos" da ditadura, o que se encontrou foi uma coleção de papéis carimbados de "ultra-secreto" que nada tinham de secreto. Era mais para justificar salários diferenciados para algo muito importante. Tivemos acesso certa vez a um documento "top secret" da Aeronáutica. O documento contava sobre a instalação de giroscópios em foguetes. O que se observou foi uma versão mal feita das conhecidíssimas equações de Euler-Lagrange para movimento de corpos em 3 dimensões. Essas equações existem desde o século XVIII. Não havia nada de ultra-secreto. O que dizer dos documentos do DOI, orgão repreensor dos militares. Quando se abriram os cofres pode ser visto o quanto os tais acessores eram amadores e mal intensionados. Músicas que nada tinham de insitação ao crime foram colocadas como "perigo ao regime" por usar palavras como "revolta", por exemplo. E para dar um tom de "meigo" a própria analista da Moodys diz que a Espanha "provavelmente manterá Aa". Que poder, e quanta gentileza! A reportagem afirma que a Espanha pode precisar com urgência de 25 bilhões de euros rápido, sendo 10 bilhões para resgatar um fundo do governo. No texto do New York Times, a mesma agência diz que " ...a Espanha tem créditos muito mais fortes do que outros países estressados na região do Euro...". Então por que vir à imprensa ameaçar que vai rebaixar um país? O segredo é que o ano está terminando, e essas agências precisam de manter o provisionamento de projetos para o ano que vem. Sem novas encomendas de estudos elas estariam falidas. Então vão a imprensa, fazem ameaça ou distribuem relatórios sobre os países para o mercado as contratarem para novos estudos. Se não vão a imprensa, não tem dinheiro para o ano seguinte. O que se tem de concreto é que: PIB da Espanha está péssimo; Nível de desemprego o mais alto do mundo; Endividamento de empresas e governo altíssimo. O resto, não se precisa de agências para dizer nada. Precisamos apenas de agências de turismo para uma boa visita à Espanha e ouvir a tradicional dança das castanholas.
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