
Terça-feira, 31 de Agosto, 2010
Cavaleiros do Império
... "Sexta-feira, 27 de Agosto de 2010. Noite quente no Japão, acostumado a clima frio. Na hora em que todos dormiam, um funcionário do alto escalão do Banco Central liga para o presidente. Ele é o responsável direto pela "vigília" do Yen. Pelos gráficos da tela o Yen estaria sofrendo especulação violenta. O presidente do Banco Central, Masaaki Shirakawa que ainda estava acordado, ouve as palavras sombrias e desesperadas do outro lado do telefone. Agradece gentilmente dizendo que tomará as medidas possíveis. O chefe do Banco Central é o primeiro ministro Naoto Kan e a dúvida paira sobre a mente de Masaaki. Deveria ele acordar o primeiro ministro? Não seria preocupação exagerada? Ponderando que os mercados no Ocidente ainda estavam em negociação, qualquer pequeno atraso poderia fazer a diferença entre salvar a economia do país ou a deterioração na segunda-feira. Tomou coragem e ligou para o ministro Naoto. Esse mais que depressa deu a incumbência de marcar uma reunião urgente para o fim de semana. O Yen não poderia continuar sofrendo ataques de especuladores, disse ele ao presidente do Banco Central. Quando o dia amanhenceu, todos estavam postos à mesa do BC japonês e a reunião já tinha vazado para imprensa mundial. O quadro piorou pois agora a decisão seria sob pressão. Manter a taxa de juros foi fácil, uma decisão matemática quase de consenso, 8 à favor e somente 1 contra para a taxa de juros em 0,1%. O problema era o segundo número, ou seja, quanto deveriam aportar de recursos para estimular a economia japonesa e "segurar" os bancos financeiros evitando uma quebra. Com o Yen em seu ponto mais alto desde os últimos 15 anos, os produtos japoneses estão mais caros e as exportações que ameaçavam se recuperar estão voltando a ficar estagnadas. Essa parte da reunião foi difícil e o primeiro ministro teve que usar de seu poder de cavaleiro do Império para segurar os ânimos. Não havia consenso, a mesa tinha papel de todos os lados. Não havia espaço nem mesmo para o chá japonês, tradicional das reuniões calmas de outrora. Os números que eram ditos tinham tantos zeros quanto seu valor real. Falvavam-se em 30 trilhões de Yen, outros argumentavam sobre a inflação e outros ainda com a China "engasgada" na garganta, lembravam que o japão tinha perdido seu posto de segunda maior economia mundial. Então, fechou-se um número de consenso, pelo menos para começar. O valor de estimúlo seria de 920 bilhões de Yen, ou 10,9 bilhões de dólares. Na mente do primeiro ministro esse número era satisfatório e iriam segurar pelo menos por momento a especulação e as compras exacerbadas do Yen"... Será que foi assim que os fatos acontenceram? As linhas anteriores foram colocadas sobre um aspecto de novela, de imaginação, mas os resultados são reais. Realmente a decisão de domingo (29/Ago) foi recebida a contento pelo mercado japonês. Mas no Ocidente a história foi diferente. Pensando "friamente" os analistas estão desconfiados que tem mais algo de errado com a economia japonesa do que apenas especulação do Yen(" Japan eases policy, plans new economic stimulus"). A figura a seguir mostra a dura fase do japão. O nikei (principal índice de mercado japonês) está realmente estagnado desde 1992. Preso na faixa entre 10 mil e 20 mil pontos, está uma eternindade de seus anos de glória na década de 1980. Enquanto nos áureos tempos o nikei atingia 40 mil pontos, nos dias atuais se segurar em 10 mil é motivo de festa para os japoneses.
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O japão vinha bem, com uma boa recuperação no primeiro trimestre desse ano de 2010, mas de repente a velocidade da sua recuperação parou. O aumento na produção das fábricas foi muito comemorado nessa semana e atingiu o valor "maravilhoso" de 0,3% ! A comemoração veio pois a produção tinha parado há alguns meses. O ministro (como todos os ministros dizem) disse que "... a produção industrial continua a mostrar um movimento de alta embora tenha tido uma pausa temporária..."(ver "Japan factory output rises 0.3 percent in July"). Parece que já ouvimos essa frase em algum lugar antes. E o BC japonês errou, como todos os outros, com exceção da Alemanha. Ao colocar um número (11 bilhões de dólares) está novamente dando sinais aos especuladores de quanto poderão testar sobre o Yen. Dizer quanto tem de munição numa guerra é sinal de fraqueza e desespero. Será testado mais ainda, como foi nessa segunda-feira. Todo o ganho que o Nikei mostrou com valorização de 3%, se perdeu. Os especuladores estão entrando pesado e o Nikei perdeu no pregão de ontem (segunda-feira para terça-feira) 3,55%. E com isso, levou todos os mercados mundiais para o movimento de baixa (ver "Japan's Nikkei leads global stock market retreat"). Conforme escrevemos em "o código das bolsas " ninguém entende as bolsas pois ninguém consiguirá entender o íntimo de outra pessoa. O segredo sempre é estratégia, calma e interpretação dos sinais. De todos os países nesses últimos meses, vamos voltar a ressaltar como decisão mais correta, a tomada pela premiê alemã Angela Merkel como já fizemos em "a nova dama de ferro". Quando a França entrou em desespero querendo abandonar o euro pelos ataques em 18 de Maio ("França jogará toalha?") a Alemanha segurou o euro de forma estratégica. Ela injetou dinheiro no mercado para salvar a Grécia e claro se proteger, mas endureceu as regras sobre as commodities. Modificou rapidamente algumas regras internas de seu mercado financeiro e obrigou outros países a pelo menos fazer algo parecido. E o euro que estava ameaçado de cair abaixo de 1 dólar se recuperou e tem se mantido em US$1,27. A economia japonesa é muito importante para o mundo. Apesar de estagnada e até de críticas internas sobre o desemprego, se ela mantém-se estável ou se recupera, manterá o mundo estável. Apesar de tecnicamente não ser considerada a segunda maior economia do mundo, na prática ainda será por muito tempo. Isso porque o mercado financeiro Chinês se mexe ao sabor do poder não democrático. Se daqui uma semana a China decidir que não permitirá mais fábricas internacionais atuando dentro do país (como fez com o google) ninguém consiguirá reverter o quadro. A China é imprevisível. No japão as regras são infinitamente mais claras e democráticas. É importante que o BC japonês volte a se comportar como um cavaleiro do Império, de maneira sóbria e estratégica e não com atos de desespero. O mundo agradece. |
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