Quinta-feira, 21 de Maio, 2015

 

A proibição do celular nas escolas

Temos mais celulares no Brasil do que habitantes. Segundo o site Teleco.com.br, em 2014 tínhamos no Brasil 280 milhões de celulares conectados contra uma população de 203 milhões de habitantes. Ainda no site de inteligência em comunicação, existem no Brasil 139 celulares para cada 100 habitantes. Em comparação, existem apenas 22 telefones fixos para cada 100 habitantes.

Se esse quadro continuar, teremos em breve mais telefones do que televisão no Brasil (gráfico à seguir). A velocidade do crescimento tanto de telefones fixos ou celulares em relação à televisão, demonstra que as novas mídias e suas conexões estão em concorrência direta com nosso velho e tradicional veículo de distração e informação. Mas isso é bom para nós? Trouxe ou agregou alguma melhora em nossa qualidade de vida?

É inegável o fato de que a melhor interpretação sobre ponto positvo dos celulares sempre é visível em tragédias, em comunicação para salvar vidas, criando uma rede de solidariedade muito mais rápida e eficiente do que se tinha em anos atrás. Mas qual o custo de se manter essa rede de alta conexão? Além das diversas intrigas que estamos vendo todos os dias na mídia, dos vídeos com situações ridículas e exposições desnecessárias, com as invasões de privacidade altamente estarrecedoras, temos a preocupação com a educação.

Celular em sala de aula teoricamente é proíbido, mas é impossível de se cumprir essa regra. Não porque os professores não querem, mas porque em muitas escolas os coordenadores dão de ombro, e nas entrelinhas chamam de ultrapassados os professores que insistem em proibir esse material dentro da sala de aula. Em alguns lugares professores que desejam respeito à atividade didática de ensino são considerados arcaicos e atrasados frente às "novas formas de ensino". Claro que também existem professores que liberam tudo, afinal de contas, basta juntar muitas pessoas para sempre ter aqueles que não gostam de regras.

Novas formas de ensino? Ensino sempre foi e será o mesmo, com o único objetivo de fazer a mente se desenvolver. Sempre existiu slide de 70 anos pra cá, sempre existiram laboratórios, sempre existiram inclusive laboratórios tecnológicos que muito antigamente eram lotados com as velhas máquinas de calcular, depois com os computadores XP, depois os 286, 386, 486, pentium, etc.

A diferença é que tudo tinha sua hora certa. Existia a hora de se concentrar na aula teórica para entender os fundamentos, existia a hora para os exercícios teóricos e depois a hora da aplicação dos conceitos. Nessa hora, era a hora de extravazar as ideias e com a base sólida da teoria colocar a imaginação para funcionar.

Não consta na literatura que Einstein tenha utilizado cinemas na época para ter sua ideia de gravitação geral (e já existia cinema mudo em sua época). Ou ainda que Feynman dava asas a sua imaginação do mundo quântico assistindo jornada nas estrelas em quanto pensava na teoria, em horário de trabalho na faculdade.

Tudo tem sua hora e na escola deveria ser igual.

E por sermos um país onde existe essa proporção absurda de telefones em relação ao número de habitantes, nosso ensino aqui está cada dia mais prejudicado e mal influenciado pelos controladores e administradores do ensino, sejam eles público ou privado.

Pensando em medir a qualidade ou má qualidade do celular dentro das escolas, a renomada London School of Economics no Reino Unido saiu à frente: " O uso do celular não prejudica aos melhores alunos, mas é muito prejudicial aos alunos que possuem baixo rendimento". Essa não é nossa conclusão, essa não é nossa opinião, essa não é nossa afirmação, mas dos pesquisadores dessa renomada instituição.

Nesse site obtido com link do UOL, com texto em português de Portugal, tem um caminho para o relatório do trabalho sobre celulares dos pesquisadores de Londres. O leitor poderá acessar e com um pouco de conhecimento de Estatística poderá entender a afirmação dos pesquisadores.

Os pesquisadores observaram a base de dados da Inglaterra conhecida como National Pupil Database (NPD), que ao contrário do Brasil, acompanha individualmente cada estudante, sua vida escolar, as possíveis carreiras que ele poderá seguir, sua etinia e atividade de sua família.

Foram observadas 91 escolas secundaristas como os pesquisadores explicam em seu artigo, ou cerca de 130 mil estudantes. E os estudantes são observados em relação ao seu escore nacional, uma espécie de ENEM ao qual o aluno é submetido todos os anos. Ao contrário do Brasil que é apenas no fim do ensino médio.

Segundo a pesquisa investigou, dados apontam que 90% dos estudantes possuiam celula aos 13 anos em 2011.

Assim como em várias partes do mundo, nem todas as escolas permitem a entrada de celulares em suas instalações por parte dos jovens. Esse foi o grupo chamado de "controle", o grupo sobre o qual ocorreu a comparação no desempenho dos escores das provas.

Os pesquisadores colocaram diversas variáveis num modelo conhecido como regressão linear. Esse tipo de modelo estatístico permite calcular qual variável influencia mais no resultado final e se, estatisticamente, essa influência é significativa ou não. O modelo está ao lado.

A variável Yist é o resultado do teste do estudante "i" na escola "s" no ano "t". Esse tipo de comparação é conhecida na pesquisa social como modelos de Painel.

Significa tomar o modelo e para cada variável simular a equação e comparar o resultado obtido com o resultado real. Se a discrepância for maior do que 5% (por exemplo) a variável é descartada ou dita sem significância estatística para o modelo.

As variáveis do modelo ao lado servem como parâmetros para aumento do escore com celular, sem celular, queda no escore, se estudantes estavam em escolas com permissão de celulares ou sem permissão de celulares.

 

 

Fonte: Paper No. 1350, Maio 2015, LSE

Porcentagem de estudantes com celulares aos 13 anos na Inglaterra

 

 

 

Modelo para verificação do desempenho dos estudantes na Inglaterra

 

 

Impacto na nota com a proibição de celulares nas escolas

 

 

Em entrevista, os pesquisadores disseram que seus resultados apresentavam dados importantes. Por exemplo, escolas que não permitiam celulares, ganharam em atenção o correspondente de 1 hora a mais de concentração dos alunos por semana. Em um ano escolar na Inglaterra, isso significa 5 dias!

Ou seja, escolas com proibição de celulares, obtiveram resultados de seus alunos como se eles estivessem se concentrando e estudando por 5 dias sem dormir e sem comer. É uma diferença absurda!

Lendo mais profundamente o texto, percebe-se outros comentários interessantes na pesquisa. O gráfico ao lado retirado do texto, mostra um eixo horizontal que varia entre -7 e +9. O ponto zero desse gráfico é a partir de quando os celulares foram banidos das escolas.

Os valores negativos no eixo mostra a quantidade de anos anteriores à proibição do aparelho, e os valores positivos, a quantidade de anos após a proibição.

O eixo vertical significa o impacto nas notas dos estudantes (em média). Valores positivos nesse eixo indicam aumento na nota do aluno. Valores negativos indicam perda nas notas.

Bem, olhando a tendência desse gráfico, não precisa ser bom entendedor para perceber que depois do ano zero, o ano da proibição dos celulares, a nota média aumentou nas escolas.

As barras verticais indicam a variabilidade dessa média, mostrando que nove anos depois, apesa das médias melhorarem muito, ainda existem estudantes piorando sua nota.

 

Obviamente que devido a variabilidade do ser humano, seria até estranho se todos os estudantes tivessem suas notas melhoradas. É perfeitamente admissível o fato de que, apesar de uma turma ir bem num ano, alguns estudantes com deficit de atenção ainda manterão notas baixas nos testes.

Então o resultado final dos pesquisadores é: Para os bons estudantes, aqueles que sempre tiveram notas altas em sua vida escolar, a proibição do celular aumenta seu desvio padrão em 6%. Ou seja, sem celular, 6% a mais de alunos podem conseguir entrar no ranking mais alto das notas. E para os estudantes que sempre estiveram com notas baixas, a proibição dos celulares aumentou em 14% o desvio padrão em torno das notas mais altas. Ou seja, ocorreu um aumento de 14% na variabilidade das notas mais altas, provocada por mais alunos de baixo rendimento conseguindo melhorar seu desempenho escolar.

Isso é uma prova muito interessante de como a distração afeta a concentração. Sem essa forma de distração (celular), 14% dos alunos que estariam excluidos do ranking de bons estudantes, passaram a ser considerados bom alunos. Os próprios pesquisadores reconhecem na conclusão, que entre os melhores alunos, celular ou não celular não tem a menor diferença. Eles são mais concentrados. No entanto, entre os alunos considerados "mais fracos" a proibição do celular é muito benéfica, pois termina com o fator distração e aumenta a concentração.

É claro que o debate não terminou. Muitos outros estudos vão vir na direção contrária, tentando provar que as "novas mídias" aumentam o desempenho dos alunos. Não no Brasil, visto que nosso país está na lista de baixo dos rankings de qualquer instituição quando o resultado é prova de matemática e interpretação de texto. Apesar de termos excelentes campeões mirins nas olimpíadas de Matemática e Física, esse resultado não traduz em incentivo para os demais garotos.

A partir de março desse ano, na linha contrária, o prefeito de New York retirou a proibição de celulares nas escolas. Segundo ele, em ataques e tragédias, os pais precisam avisar ou serem avisados pelos filhos. Na China, ao contrário, o celular continua proibido na sala de aula. Assim que entra na sala de aula, existe um "porta-celular coletivo", com o nome de todos os estudantes da turma e todo mundo é obrigado a colocar o equipamento desligado dentro.

Enfim, não existe melhor maneira, existe alguma maneira de continuar estudando e mostrando resultados. O que não pode é esse festival sem regras que existe no Brasil, onde todo mundo pode tudo, inclusive com 9 anos de idade.

 

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