Sexta-feira, 06 de Janeiro, 2017

 

Aumenta cenário catastrófico para 2017

As festas terminaram e os problemas não. Mudar de ano não significa melhorar as esperanças, mas sim um dia a mais no calendário, somente isso. O que faz melhorar as esperanças é mudança de atitude, mudança de perfil, correr atrás, fazer algo diferente e rápido. E claro que o governo não vai fazer nada, quem vai fazer somos nós.

Quem continua delegando poderes ao governo, achando que os políticos incompetentes é que vão nos ajudar, que fiquem no ano velho, pois no novo tudo será igual. A tragédia consumada se fez sentir na virada de ano. Ao visitar a bela Rio de Janeiro, olhando e contemplando o mar, as praias, o Sol, um detalhe nos chamava a atenção. A cidade estava "vazia".

No dia 31 de dezembro era possível andar de automóvel calmamente na avenida Atlântica, calmanente andar de automóvel pelas ruas de Ipanema e encontrar vagas facilmente no Leblon. Opa! Tem coisa errada aí.

Nos jornais, no entanto, a associação do comércio bradava que a cidade estava com 80% das vagas de hotéis ocupadas. Mentira. Não estavam mesmo, com a cidade e pontos turísticos bastante tranquilos. Quem essas associações desejam enganar? A si próprios ou ao governo?

Só para revivar a memória, o presidente da FENABRAVE em 2 de agosto de 2016 bradou em alto som: "O pior já passou", disse o senhor Alarico Assumpção Jr. (leia aqui).

Ah senhor Alarico, que erro! Errou feio. A projeção de sua associação não passou nem de longe perto da realidade. Nessa semana saiu a realidade das vendas. A venda de automotivos foi catastrófica, desastrosa, pavorosa e caiu 20% (leia aqui). A própria Fenabrave reconheceu que a situação está muito ruim, com a venda de veículos 0 km no patamar mais baixo desde 2007 (gráfico à seguir).

E se continuar com a mesma polítca econômica, de estado mínimo, austeridade excessiva, quebra de regras da CLT, modificações absurdas nas regras da aposentadoria, novas greves vão surgir. E nas greves não perdem apenas as empresas onde os funcionários cruzam os braços, perdem todos.

Todos estão interligados de uma forma ou outra. Com essa demissão em massa, se a inflação cai e o governo comemora é porque realmente não entende de economia. Com essa queda da inflação, sendo ela gerada pelo desemprego e não por política de longo prazo, a arrecadação despenca e o próprio governo deve aumentar as tarifas.

Isso já começou em diversos estados, com aumentos nas passagens, com aumentos no IPTU, com aumentos no IPVA, mas isso não vai resolver. Todo mundo vai .... sonegar!

Essa é uma lógica simples de entender. Entre pagar impostos e não ter retorno, e salvar o salário para os filhos e seu sustento, todo mundo sonega. E o governo que acha que vai ganhar com aumento de impostos, vai perder ainda mais.

Esse ciclo vicioso leva a outro absurdo. O governo vende tudo, achando que com isso se livra de problemas como salários, luz, telefones, ou seja, encargos das empresas públicas. Se engana de novo. Pois nas empresas terceirizadas os serviços são ainda piores e mais abusivos, tais como os pedágios do estado de São Paulo, ou a penintenciária de Manaus onde ocorreu o massacre dos presos.

Nesse presídio gerenciado por uma empresa, cada preso custava ao governo R$ 4 mil reais, sem nenhuma diferença de tratamento ou alojamentos para os presos em presídios públicos. A diferença é que esse custo é três vezes maior, ou seja, o contribuinte paga ainda mais caro por um preso de uma empresa que gerencia o presídio, do que se fosse um presídio público. E as condições são iguais, ruins da mesma maneira.

É claro que sempre os governos vão querer colocar propagandas na televisão para alardear que estão se mexendo, fazendo, melhorando nossas vidas. Mas o mais estranho é uma associação, que trabalha com esses números no dia a dia, não saber fazer previsão sobre seus próprios negócios.

E como todo mundo gosta de culpar funcionário público, essas associações são privadas. Mas elas chamam as televisões para realçar seus erros de prognósticos cheios de falhas, empilhados de erros contábeis?

Isso realmente é ainda mais ignorante, pois as televisões compram essa ideia numa combinação de burrice e sacanagem, na esperança de que propaganda enganosa salva cenário catastrófico em economia.

Tomamos os dados da CNI( Confederação Nacional da Indústria) que é um órgão privado e fizemos algumas estimativas para junho desse ano de 2017.

Utilizamos o já comentado aqui modelo autoregressivo (AR), o mesmo que apresentamos em nosso acerto sobre o PIB do Brasil (leia "Acertamos em cheio no PIB").

A CNI trabalha com uma modelagem chamada de "número índice". Toma-se uma determinada data como 100 e então sempre se compara os valores em relação a essa data. Ao lado mostramos os dados reais em azul e nossa previsão em vermelho.

O primeiro gráfico acima é sobre a venda de veículos na indústria do Brasil. Ajustamos o modelo AR para o período todo que se inicia em janeiro de 2003.

Então, extrapolamos nossa previsão começando em outubro de 2015 até junho de 2017. Esse modelo AR leva em conta as sazonalidades do passado para corrigir a tendência e tentar prever o futuro.

A linha vermelha já mostrava em outubro do ano passado, que em janeiro as vendas despencariam. Como então a Fenabrave prevê em agosto que o "fundo do poço" já passou?

Claramente percebe-se que ainda vai cair muito essas vendas até junho desse ano de 2017;

O segundo gráfico ao lado é para a indústria metalúrgica. Esse é um setor que ainda vai cair bastante até o meio desse ano. Os números índices desse setor mostram uma retração de 14% em relação a outubro de 2015.

 

Índice sobre venda de veículos (vermelho previsão) Fonte: CNI

 

 

 

 

 

 

 

Índice sobre Metalurgia (vermelho previsão) Fonte: CNI

Índice sobre Vestuário (vermelho previsão) Fonte: CNI

Índice sobre Bebidas (vermelho previsão) Fonte: CNI

Índice sobre Produtos (vermelho previsão) Fonte: CNI

Muitas vezes ouvimos setores bradarem que em tal mês as vendas melhoraram. Isso é um erro grotesco. Deve-se observar a tendência da série inteira para se afirmar que uma tendência é melhor ou pior.

Ao lado, por exemplo, temos os dados sobre vestuário onde a oscilação forte para baixo e para cima representa meses e estações do ano. Em determinados períodos as vendas do setor de vestuário aumentam e outras é normal a queda.

Por exemplo o setor de vestuário sobe em novembro, quando aumentam as compras das empresas para as vendas de natal ao consumidor. Em dezembro, essas vendas na indústria sempre caem, pois todos já compraram para revender no natal.

Nos últimos anos foi cansativo observar que logo no início de dezembro todas os canais de rádio e TV denunciavam que existia uma crise, pois as vendas de dezembro na indústria do vestuário estavam "caindo".

Na verdade, elas sempre caem. É só observar o primeiro gráfico ao lado.

Mas o que acontece agora é diferente. Tem se acelerado o montante de picos de queda. Nos últimos meses, as quedas tem sido mais frequentes e mais fortes do que toda a série histórica.

Então, quando rodamos o modelo, observamos que a tendência para junho desse ano é ainda pior. O setor de vestuário sofrerá muito com as vendas de inverno.

O segundo gráfico ao lado também mostra sua sazonalidade, as vendas mais fortes e mais fracas das bebidas ao longo dos meses. Mas desde 2012, pode-se perceber claramente que a tendência mudou e a curva de longo prazo está em queda livre.

Ao rodar o modelo AR, ele denuncia que a indústria de bebida também pode esperar uma catástrofe em suas vendas para junho desse nao. Não há reversão da tendência, não há dados que comprovem que o pior já passou.

Por fim, tomamos os dados sobre "produtos". São aqueles mais comercializados nos supermercados. A CNI toma 10 produtos e acompanha esses produtos ao longo dos anos em sua série de dados.

Quando rodamos o modelo autoregressivo (AR), a previsão é de queda nesse número índice. A indústria ligada a esses produtos que fazem parte da pesquisa da CNI pode se preparar. As coisas vão piorar.

Não existe crise psicológica como Michel Temer diz. Crise é provocada e pode ser controlada ou amplificada. Quando se amplifica uma crise com propagandas negativas de partidos, cria-se incertezas.

Se essas incertezas são capazes de mudar uma tendência da série (a oscilação de longo prazo, não os picos pra baixo ou para cima), para mudar novamente a ponto de voltar a normalidade levam-se anos.

Como pode ser visto nos gráficos anteriores, em todos os setores, a reversão da tendência de alta ou de baixa leva mais de cinco anos. Para a venda de veículos voltar aos dados de 2012, levará sem sombra de dúvida 10 anos (veja o primeiro gráfico de veiculos). Qualquer que seja o governo, pode dar o incentivo que desejar, para recuperar esses dados de veículos precisará muito mais do que propagandas "positivas", mas sim de atitudes corajosas.

E entenda-se como atitudes corajosas fazer o dinheiro voltar a circular, fazer as empresas contratarem, não criar incertezas em regras como CLT, como aposentadoria, aumentar as linhas de crédito, terminar com esse spread bandido que os bancos mantém sobre o cheque especial, criar linhas de pesquisa, incentivar e propiciar uma educação melhor e tecnológica de ponta.

Como nada disso está ocorrendo e nem mesmo vai ocorrer, dizer que o pior já passou é fazer como o recém-eleito prefeito de São Paulo, que colocou panos coloridos para esconder os pobres moradores de rua, como se fossem ratos. Ao invés de ajudar ao próximo, buscar uma solução compartilhada com a sociedade, Dória prefere esconder, jogar para debaixo do esgoto, seres humanos que são consequência da crise, que são vítimas e não a causa como se prega abertamente.

Somos realmente um país?

Talvez quando todos realmente estiverem na lama, no verdadeiro fundo do poço, poderemos pensar que somos uma sociedade civil. Até o momento, nosso país é apenas uma região do planeta composto de humanos, sem identidade e sem respeito com os demais, seja em época de crise, seja em época de bonança.

 

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