Sexta-feira, 06 de Janeiro, 2012

 

O centro do mundo

 

Saul Steinberg conseguiu ser um crítico das linhas e pinturas, simplesmente fantástico. Com traços simples do cotidiano esse romeno que publicou sua arte na revista New Yorker entre 1940 e 1950 continua atual. Observe sua obra cujo título é "Vista do mundo a partir da 9a. avenida".

O traço desproporcional da cidade de New York foi proposital para mostrar o comportamento americano em que primeiro se olhava para sua cidade e tudo no mais do mundo estava além do rio Hudson. Até mesmo o pacífico era menor do que New York, onde a 9a. avenida e a 10a. avenida são maiores que muitos países. E como centro do mundo, os novaiorquinos da época eram estravagantes, pois achavam que o dinheiro nunca terminaria. Compras eram e são sempre incentivadas para manter a economia girando, não importando a dívida que se faz (EUA ainda é o motor do mundo como escrevemos no texto "O motor que faz o mundo girar"). Para criticar esse fenômeno, Steinberg pintou os traços abaixo, onde os casacos não cabem nas ruas.

E com crédito fácil e incentivos fiscais, a resposta do consumidor é imediata. Não importa o que se compra, o importante é comprar, é se endividar. Obras de arte, ou obras sem arte e sem valor são compradas apenas para manter o velho status de cultura. Comprar sem saber e mesmo sem precisar é um vício sempre incentivado pelos governos irresponsáveis, retratado nessa outra fantástica pintura.

Pode parecer uma obra crítica exagerada e provocante. Mas só esse quadro tornou-se nessa semana extremamente atual não em New York, mas no Brasil.

 

As fotos ao lado mostram bem o comportamento extravagante e desnecessário do brasileiro. Primeiro compra e depois, mesmo se perder o emprego, corre atrás do governo para ver o que fazer. As fotos parecem ser criadas sob a óptica da fantasia de Steinberg, mas são reais conforme reportagem do UOL.

Talvez essas pessoas realmente possam adquirir com folga os produtos, talvez sejam bens realmente necessários e são muito seguras no seu emprego. No entanto, a grande maioria está sendo incentivada pelo governo brasileiro a gastar "com responsabilidade". Essa frase de estereótipo estranho incentiva, pero no mucho, a gastar para manter o Brasil no "centro do mundo".

De nada adianta a história mostrar que outras economias já fizeram isso e não deu certo. Será que eles erraram ou estavam errados? Foi assim com a Roma antiga e sua inflação, depois com França, Holanda, Portugal, Espanha e Inglaterra dos séculos XV a XX. Dominaram o mundo, incentivaram gastos e perderam não só o status, mas suas economias. Por último vieram EUA e Japão dos anos 80 e 90. O Japão praticamente comprou os EUA em imóveis, artes, tecnologia e imóveis. E está em sérias dificuldades.

 

 

Fonte: UOL (06/01/2012)

 

 

Mão de obra assalariada no Brasil (2009 - 2011) - IBGE

 

A China está seguindo o mesmo caminho, ainda meio tímida e pressionada pelos europeus e americanos. Está sendo obrigada a colaborar com a retenção da crise e valorizar sua moeda. Mas os empresários e "novos ricos" chineses já não ouvem o rígido governo e estão saindo comprando pelo mundo, de carros importados a obras de arte, assim como fizeram os japoneses.

No Brasil estamos fazendo a mesma coisa com um agravante: não crescemos tanto assim como China e India. Ultrapassar a Inglaterra na estatística do PIB não nos garante ser o centro do mundo. A preocupação está ao lado, nos dados do IBGE apresentados no gráfico da ocupação assalariada desde 2009.

A ocupação com carteira assinada estagnou, não cresce mais, e na verdade começa a decrescer. Muitos que estão comprando não vão pagar e estão selando seu próprio desemprego.

Como não vão pagar o que estão comprando? O gráfico a seguir mostra por que. O número de horas pagas vem caindo consistentemente desde o meio do ano de 2011. Significa que o desemprego não aumentou no Brasil sob o ponto de vista estatístico, pois estamos olhando e focando número de carteiras assinadas. Mas se olharmos o salário e o número de horas contratadas, essas duas variáveis vem diminuindo mês a mês.

Horas pagas no Brasil- Fonte IBGE

As carteiras assinadas estão se mantendo, mas os salários para os novos contratados são menores e o número de horas de trabalho está diminuindo, indicando que a indústria nacional está pisando no freio. Fotos e imagens de pessoas comprando tudo em todos os lugares não revelam o que acontece no motor do automóvel. O motor começa a engasgar e não é combustível ruim, pode ser falta dele.

Como os produtos comerciais são quase todos importados da China, a indústria nacional que é responsável pelo grande lote de contratações e salários está começando a cansar. Menos horas trabalhadas significa menos produtos vendidos e salários menores. Logo, a compra de hoje é o desespero daqui há 6 meses. O mercado imobiliário começa a sentir os primeiros tropeços, com algumas empresas de construção sofrendo fortes baixas na Bovespa em Dezembro de 2011. Pode ser sinal que a bolha chegou ao limite e vai estourar. Quem comprou dois ou três apartamentos vai tentar vender ou se desfazer e os preços vão começar a cair.

Analistas "especialistas" do mercado estão vindo à mídia dizer que chegamos ao "ponto de equilíbrio" do mercado imobiliário. Que ignorância, ponto de equilíbrio em alta? Não existe ponto de equilíbiro com preços em alta! Pontos de euilíbrio são de dois tipos: estáveis e instáveis(veja explicação matemática). Certamente o ponto de equilíbrio do mercado imobiliário será instável, em outras palavras, vai cair em breve. Esse é o perigo dos "especialistas de plantão" que emprestam jargão de outras áreas para dizer algo que desconhecem.

O IBGE divulgou a nova estatística de empregos sobre os dados de Novembro de 2011 e a queda comparativa com Novembro de 2010 é de 2,5% na produção industrial. Ou seja, salários ainda menores esperam o trabalhador brasileiro. Máquinas e equipamentos cairam 8,3% na comparação anual. Nem mesmo a indústria petrolífera manteve seu status de produção e teve queda de 5,3%.

Ninguém é centro do mundo, ninguém é centro de nada. A percepção desse fato não deve ser do governo, que é conduzido pelos habitantes. A percepção disso deve ser das pessoas que deveriam forçar o governo a buscar políticas de crescimento de longo prazo mais inteligentes com cronograma de execução, para evitar execução de devedores no futuro.