Quarta-feira, 15 de Julho, 2015

 

Ainda não há Crash na China

O grande Dragão Chinês, segundo a mitologia chinesa, foi um dos quatro animais sagrados convocados para participarem na criação do mundo. Então nada mais justo, do que quando esse deus adormece, o mundo se desespera. Com olhos de tigre e corpo de serpente, o dragão representa a energia do fogo, que destrói tudo, mas permite o nascimento do novo. Assim, muito mais do que a destruição, temos que pensar na reconstrução de um novo mundo.

Observando o dragão à seguir, é interessante notar as diversas "ondas" feitas pela cauda do dragão, que sempre inspiraram as pessoas de que a vida é repleta de ciclos, de que a economia mundial se repete sob o mesmo padrão cíclico de altos e baixos. Mas infelizmente, mesmo notando isso, os seres humanos sempre repetem os erros do passado.

Há duas semanas atrás , a mídia divulgou com amplo ruído que a bolha chinesa estava estourando. Na semana passada, quando o índice de Shanghai caiu 7%, todos correram para os prêmios Nobel para entrevistar sobre o estouro. Alguns disseram que sim, a bolha tinha estourado, outros disseram que não, apenas era uma correção. Esse é um assunto bastante controverso, pois mesmo em 1929, renomados autores ainda hoje não acreditam que existia uma bolha financeira nos EUA. Erro puro, claro que sim, havia uma bolha imobiliária na Flórida que junto com a política de juros da época alavancou as bolsas de valores (explicação em nosso livro "Mudanšas Abruptas no Mercado Financeiro").

Desde os anos 1990 até os dias atuais, um modelo difundido pelo professor do ETH, Didier Sornette, tenta explicar bolhas e anti-bolhas financeiras sobre os preços dos mais variados indíces pelo mundo. O modelo é conhecido como Log-periódico e tem a característica apresentada no gráfico à seguir.

As medidas, sejam elas preços, população, bactérias, terroristas, enfim, o que se desejar colocar no eixo vertical, permanecem um bom tempo praticamente estacionadas com tendência de leve alta. Então, de repente, os valores do eixo vertical explodem. Uma vez atingido o ápice do crescimento, o próprio modelo permite uma implosão, tudo desaba, criando o que conhecemos como crash. Matematicamente o modelo tem a equação à seguir.

O preço p(t) é aproximadamente representado pelo inverso da diferença entre o tempo de crash ( o tempo em que tudo vai desabar) elevado ao inverso de um parâmetro conhecido como delta (grego). Quanto maior o valor desse parâmetro mais a curva se acelera e maior é o crash. No exemplo do gráfico acima usamos delta igual a 1/2.

Didier Sornette é geofísico, mas depois de prever com perfeição problemas e riscos nas prisilhas do foguete francês Ariane, e de propor uma solução interessante e econômica, voltou-se nos anos de 1990 para o mercado financeiro. Além desse modelo Log-periódico, Sornette ainda incluiu algumas funções trigonométricas para indicar a oscilação, semelhante à cauda do dragão chinês. Em seu livro bastante motivante de 2003 ("Why Stock Markets Crash") ele apresenta diversos estudos para quase todos os índices de bolsas de valores do mundo. Em alguns a perfeição do ajuste até assusta o leitor, pelo alto grau de acerto.

Por exemplo, para o caso da crise de 1929, o gráfico à seguir com o modelo de Sornette mostra em vermelho o modelo Log-periódico. O ponto alto do modelo, é que quando a curva se aproxima da inclinação de 90 graus, o tempo de "crash chegou". Podemos observar abaixo, que exatamente no ano de 1929, a curva em vermelho estava em seu grau máximo de inclinação, e o índice Dow Jones começou a quebrar. Antes de atingir o ápice, pode-se perceber os ciclos de crescimento e o aumento na frequência de oscilação.

Mas o leitor mais atento deve estar se perguntando, mas como descobrir o tempo de crash com representação dada pela variável "tc" ? Não tem como, e para isso se utiliza a velha metodologia do "tentativa e erro". Sornette fica bastante chateado quando se argumenta isso sobre seu modelo, mas é a pura verdade. O tempo de crash "tc" depende do grau de ajuste das variáveis sobre os dados que foram apresentados. E como no modelo de Sornette existe apenas uma equação e muitas variáveis, o grau de ajuste depende da localização do chamado "chute inicial".

Ou seja, se fornecermos ao modelo um valor que não sabemos, mas ele está próximo do valor real, o modelo converge de forma magnífica para a previsão. Mas se o valor inicial for completamente desconhecido e estiver longe, muito longe do valor real, o modelo fará uma previsão bastante crítica e errada. Por exemplo, Emilie Jacobsson observou isso em seu artigo de 2009, mostrando diversos "buracos" que representam os mais variados valores que essas variáveis do modelo de Sornette pode assumir.

Relação entre as variáveis do modelo Log-periódico (Emilie Jacobsson)

No entanto, uma vez identificado pelo menos de maneira razoável o modelo para os dados de preço e índices das bolsas, os resultados se tornam interessantes e com discussões importantes para o mundo financeiro. Por exemplo, em 2007 fizemos a seguinte previsão para o Ibovespa utilizando o modelo de Sornette, que indicava uma queda forte para nossa bolsa no final daquele ano.

O resultado da previsão se confirmou, com uma forte queda que precedeu a crise financeira de 2008. A linha em vermelho é a previsão do modelo, a linha em cor preta são os dados reais, e alinha pontinlhada o que se esperava após 2007. As ondas começam devagar, com pouca oscilação, mas com tendência de alta. Então, o perigo é estabelecido quando a frequência das oscilações aumenta, indicando que o termo para o tempo de crash "tc" está se aproximando.

E quando se atinge o tempo de crash, as bolsas caem. A linha vertical indica a divisão entre o momento de ajuste do modelo e o momento de previsão. Após a linha vertical, os dados são de previsão.

No caso da China, muito se falou sobre o estouro da bolha financeira. A preocupação é justificável, visto que 80% da população chinesa coloca seus rendimentos nas bolsas de valores de Hong Kong e Shanghai.

Por isso é comum observarmos as cenas dos idosos em frente aos telões das bolsas chinesas vibrando ou preocupados com os preços que oscilam em sua frente.

Um desses índices é o Hang Seng Index que mede a pontuação em Hong Kong. Sendo um mercado diferenciado, Hong Kong não esboçou crescimento que lembrasse uma curva Log-periódica.

É possível ver ao lado, que as oscilações realmente estão aumentando, mas que de fato ainda existe um bom espaço para crescer a ponto da inclinação se tornar próxima de 90 graus. Rodamos novamente o modelo de Sornette usando o Matlab, que possui toolbox de otimização de parâmetros interessantes.

Oscilação frequente é preocupante, mas nada indica que um estouro se dará por esses dias, ou nesse ano. Se o modelo de Sornette estiver correto, um grande crash no Hang Seng somente à partir do meio do ano que vem no Hang Seng.

Ao lado é possível ver um aumento (zoom) do gráfico anterior, para dar destaque à previsão. Se o modelo Log-periódico de Sornette estiver correto, ainda teremos mais um ciclo de alta bom para o Hang Seng.

Para a bolsa de Shanghai, o que se observa é que o crescimento foi muito mais vigoroso, do tipo conhecido como rally. O índice Shanghai Composite subiu forte após a crise financeira de 2008 e realmente parou a partir do mês passado.

O modelo Log-periódico para o Shanghai Composite pode ser visto abaixo, sendo a cor vermelha para o resultado do ajuste dos dados reais (azul) para o modelo.

A fase de previsão está na curva tracejada. Os dados foram observados desde outubro de 2008 até o dia de hoje, e não há indícios de crash.

Mas, claro, se tomarmos dados mais recentes, podem induzir numa interpretação de crash como a que ocorreu na imprensa mundial desde duas semanas atrás.

Modelo Log-periódico para o Hang Seng

Zoom do resultado anterior

Shanghai Composite e modelo Log-periódico

Vemos ao lado uma grande onda do Shanghai Composite desde 2008, uma boa arrancada desde o ano passado e agora uma correção. Olhando para longo prazo, a bolsa de Shanghai deverá experimentar nas próximas semanas nova onda de alta, fazendo o índice ultrapassar seu recorde de 5 mil pontos.

No entanto, outros suspiros vão ocorrer quando a alta dos juros americanos vier. A alta não será forte, mas o suficiente para deixar o investidor estrangeiro mais receoso em colocar dinheiro em países emergentes como o Brasil.

Pior ainda, é que com a alta dos juros nos EUA, os próprios aposentados chineses ficarão apreensivos e deverão começar a vender as ações. Isso deverá provocar nova onda de baixa forte e novo temor de crash. Por isso o governo chinês proibiu grandes investidores de vender suas ações antes de 6 meses.

Se o modelo estiver correto, após essa correção dos preços, o nível poderá continuar subindo.

Bolha?

Talvez sim, mas o estouro não é anunciado tão facilmente e mesmo sua antecipação é recheada de parâmetros que confundem. O próprio Didier Sornette possui um centro para medir risco de estouro de bolhas financeiras. Mas os acertos são relativos, acertando e atecipando alguns, mantendo falsos alarmes em outros.

O fato é que com a crise ainda recente de 2008, qualquer queda faz voltar a conversa sobre crash, demissões, inflações, juros, etc. É como um doente que acabou de ser operado, e qualquer resfriado faz com que ele pense que o problema é grave.

Problemas graves e estouro são causados muitos mais por dinâmica endógena (dentro) do que exógena (fora). Em 2008 a dinâmica da crise estava inserida dentro do sistema financeiro e hoje em dia, é facil olhar para o passado e perceber quantos avisos tivemos naquela época, mas todo mundo deixou passar.

Mas no calor dos negócios e das notícias, dificilmente as pessoas vão querer acreditar em alertas de crises. Em 2007 ninguém acreditava em Paul Krugmann e outros, por exemplo, que alertavam sobre os subprimes cinco anos antes.

A China e seu dragão realmente são um perigo para o mundo financeiro. Uma parada total por lá, fará o mundo fragilizado e dependente se desintegrar. Crescendo a 7% em cada trimestre, o consumismo chinês parece pujante e progressivo. Esse é um fator endógeno que mais cedo ou mais tarde vai parar, independente de crise da Grécia ou de qualquer outro país.

Associar crise da Grécia com queda em Shanghai tem uma certa relevância sim, mas o volume de crescimento chinês é mais importante para uma parada total ou crash. Uma correção como a que vem ocorrendo nos últimos dias, em breve será vista mais como uma parada técnica do que crash.

Não foi crash, mas ele ainda voltará, como sempre o faz. Isso não é mitologia do dragão chinês, é fato consumado da natureza financeira.

 

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