Domingo, 23 de Agosto, 2015

 

Ciência para presidentes

O entendimento dos eventos relacionados a mãe natureza é difícil e, mesmo depois de explicações convincentes, os dados coletados muitas vezes derrubam toda teoria elaborada pelos cientistas. Faz parte das teorias na Ciência, serem confrontadas e muitas vezes delas terem vidas curtas. Teorias nascem e morrem a todo instante, outras nascem e demoram para desaparecer, mas todas ficam esperando o dia que um dado, um único dado as derrube.

Foi assim com a Teoria do Éter que governava o Universo, que explicava como a luz de uma estrela chegava até nós. Nunca ninguém no século XIX conseguiu provar ou medir esse Éter que existia fora da Terra, até que Einsten chegou e provou que não exisita Éter nenhum. Tudo era relatividade geral, a explicação estava na curvatura do universo, e não num líquido que transportava a luz.

A Ciência em busca da verdade

A hanseníase foi por séculos tratada como maldição dos deuses, ato de bruxas e demônios, até que a medicina provou que tinha cura. Apenas algumas injeções e remédios curam os infectados para sempre. A AIDS foi tratada como doença desenvolvida por homosexuais, que atacava somente gays. Provou-se depois que era uma doença causada por um virus, transmitida pelo sangue e nada tinha como uma doença específica para somente um tipo de pessoa. Todo ser humano está sujeito à isso.

Como as gripes se espalham? Qual o grau de virulência? Quantas pessoas morrerão, qual a melhor forma de isolamento? São todas questões debatidas a todo momento em diversas partes do mundo, por pessoas que estão estudando, que estão se dedicando em tentar entender. Elas criam modelos, modelos biológicos, modelos matemáticos, criam teorias e tentam convencer a todos que sabem como as coisas se desenvolvem.

O aquecimento global é atualmente um dos assuntos mais polêmicos do globo. Há três décadas atrás, ninguém dava atenção para os cientistas, eram todos loucos, ou aloprados, profetas dos últimos dias. Degelo da camada polar? Que loucura! diziam os políticos. Isso só acontecerá daqui há milhares de anos.

Nos dias atuais, qualquer navio consegue atravessar quase que o ano todo o pólo norte terrestre. A camada polar já se abriu, permitindo a travessia e o transporte comercial. Agora o problema está na Antártica, com o pólo sul terrestre começando a apresentar rachaduras enormes, do tamanho de países.

Quem vai decidir o que fazer, se interesses como os da indústria do petróleo falam mais altos? A capacidade dos cientistas tem um limite, que é o do convencimento. Mas a atuação e tomada de decisão são dos políticos.

Variação da temperatura global

A figura anterior apresenta o gráfico da variação da temperatura global terrestre, medida em terra e nos oceanos. Como pode-se perceber, desde 1880 a variação da temperatura vem se tornando ano a ano, cada vez mais positiva. Desde 1960, ano a ano as mínimas são sempre mais altas do que as mínimas dos anos anteriores.

Não existe coincidência em Ciência. Se um evento é comprovado por dados, é porque a hipótese é verdadeira. Então, porque o ano de 1960 foi crucial no aumento da temperatura?

A figura ao lado é clara mesmo para um leigo em Ciência. A partir de 1960 a indústria de petróleo e seus derivados, dominaram as atividades humanas.

Foi em 1960 que a industria automobilística implantou seus parques gigantes, com robôs automotivos ajudando na aceleração da produção.

A liberação crescente de CO2 na atmosfera, fez com que se criasse no planeta uma camada escura de poluição, retendo mais e mais o calor que nós, seres humanos, produzimos.

Quanto mais poluição, maior o calor concentrado, maior o derretimento das calotas polares, maiores as inundações e muito mais errantes se tornam as frentes frias, mudando de sua direção rotineira.

Mas como os políticos serão convencidos disso, se mal entendem o significado de média?

Por exemplo, em qualquer debate no congresso, alguém maldosamente de uma dessas indústrias poluidoras, podem simplesmente manipular a média para medidas de 5 em 5 anos, e mostrar que em média, a mudança é muito lenta.

Claro que os políticos leigos vão se convencer que a situação não é tão grave.

 

Comparação CO2 x Temperatura

 

 

 

 

300 mil anos de dados sobre CO2

Concentração de CO2 300 mil anos x Concetração atual

Por exemplo, como convencer um político do gráfico ao lado? A figura mostra a temperatura e as concentrações de CO2 desde 300 mil anos atrás até os dias atuais.

A correlação é mais do que perfeita, mostrando em azul a disparada nos últimos 50 anos, de concentração de CO2 nunca antes vista.

Dá para imaginar o político rindo do cientista e, às gargalhadas, perguntar se usaram as marretas do homem das pedras para medir o CO2! Na cabeça dos leigos, como é possível um cientista saber quanto de CO2 existia 300 mil anos atrás?

Gelo! Sim, o gelo guarda tudo o que fazemos com a natureza. Cilindros de gelos cada vez mais fundos na região da Antartica são retirados por máquinas e mostram como era a concetração há 300 mil anos atrás. As milhares de nevascas foram se depositando e se compactando a ponto de formar camadas claras e limpas e outras escuras com CO2.

A imagem ao lado, mostra um cilindro de gelo retirado do pólo sul. A primeira imagem acima são as camadas de 300 mil anos atrás. É nítida a cor mais escura da poluição provocada por vulcões daquela época.

A segunda imagem abaixo, mostra a concentração atual, dos últimos 50 anos. É ainda mais nítida e sem a necessidade de valores numéricos, perceber que nossos níveis de CO2 são maiores do que 300 mil anos atrás.

Como tomar decisão se um vírus mortal atingir o país? Um bom trabalho foi feito quando a suspeita do Ebola surgiu no Paraná, mas tivemos sorte, muita sorte que foi somente um caso, e mesmo assim falso.

Só o alarme na população já seria um caos total, com todas as pessoas desesperadas. E como um político lida com enxames de pessoas, nuvens terrestres de pessoas correndo de um lado para outro, saqueando os estabelecimentos?

O que acontece se um nível considerável de radiação nuclear vazar dos reatores de Angra I, II e III? Os técnicos dizem que os protócolos são seguros e não há risco para a população.

Mas foi o que o Japão dizia, e vimos que, mesmo numa população super-educada, o desesperto tomou conta das pessoas, e as falhas foram evidentes, mesmo para o Japão no Tsunami histórico.

A crise hídrica do Brasil e sobretudo de São Paulo, mostrou como nossos políticos estão despreparados. Sem um modelo de longo prazo e com pensamento mesquinho em busca de releição, políticos abandonam modelos criados por cientistas para a previsão de problemas. E quando esses problemas aparecem, a solução é retirar lama, chamada de volume morto, e dar para a população beber.

Transgênicos, crescimento populacional desenfreado, foguetes, economia, finanças, enfim, existem muitos estudos que precisam de um entendimento sério. Uma das saídas que países desenvolvidos tomam, é consultar a figura de um conselheiro científico. Nos EUA Obama consulta até conselheiro religioso, sobre decisões que envolvam a fé das pessoas.

No Brasil, temos a figura do CNPq - Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Tecnológica, que em sua fundação tinha exatamente o papel de ser o alicerce do presidente, para ajudar na tomada de decisão. Mas ao longo dos anos, o CNPq se transoformou num órgão totalmente burocrático, restrito na atividade de conceder ou não bolsas de estudo e pesquisa, do que representar os cientistas nas decisões finais de um presidente da república.

Em diversos países existem cursos chamados de "Ciência para presidente". Em Berkley, nos EUA, existe uma cadeira chamada "Física para futuros presidentes". E não se ache que é uma disciplina de "blablabla" furado como as que existem em diversos mestrados e doutorados no Brasil. É cálculo dos mais avançados, medidas, coletas de dados, tudo que um presidente precisa fazer uma vez na vida, para no momento de decisão compreender um cientista e aí sim, tomar uma decisão não apenas baseada em opinião, mas em conselho.

Enquanto presidentes se basearem em opiniões e não em conselhos, as decisões serão erradas e caras.

Um presidente precisa comprender muito mais do que média, desvio padrão e gráficos. Ele precisa entender do processo químico para saber se aprova ou não uma plantação de transgênico. Ele precisa entender de aeronáutica e espaço, para saber se vale à pena o investimento ou não, para determinada missão. Ele precisa saber pelo menos como se cria um cenário para avaliar um caos de situação em tempos de tragédia, não pode apenas ouvir amigos, que ouviram de piratas ou papagaios da sociedade.

Perguntado se realmente esperava que algum aluno se tornasse presidente, o criador da disciplina de "Física para futuros presidentes" disse não. O que ele deseja é que os alunos vejam o quanto a posição de um presidente é importante, e o quanto a Ciência deve ser entendida inclusive por um presidente.

 

 

 

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