O código das bolsas
Era uma noite fria e chuvosa em Londres quando o assessor bate a porta e anuncia: Excelência, será essa noite! Qual a recomendação? O homem gordo, fumando charuto e dando baforadas em frente da janela responde: nada. E foi a noite mais cruel desde a idade média que Londres já presenciara. Bombas que vinham dos céus despejam toda a fúria nazista contra seu maior inimigo, a Inglaterra. A princípio o premiê Churchill parecia intrépido e calculista demais para a situação. Mas sua mais famosa frase nunca refletiu tanto a agonia de sua decisão: “Nunca tantos deveram tanto a tão poucos”.
A princípio essa frase foi interpretada como uma reverência aos magníficos pilotos da real força aérea. Mas na verdade o dono da estratégia tinha um nome: Collossus. O mais poderoso computador construído na época para decifrar códigos nas transmissões nazistas. Matemáticos se debruçaram anos em cima da máquina “enigma”, a máquina nazista de codificação de informação.
O centro criado por Churchill com três Collossus e muitos matemáticos e engenheiros, na verdade só começou a produzir resultados depois que uma máquina “enigma” foi resgatada de dentro de um submarino nazista antes do mesmo afundar. Percebeu-se com a ajuda dos computadores que seria impossível quebrar o código (algoritmo matemático na máquina) devido às milhões de possíveis combinações. Mas os computadores ajudaram a decifrar em tempo recorde todas as informações por menores que fossem. Matemáticos então desenvolveram algoritmos para agilizar essa busca de decodificação e descobrir as diversas chaves que eram trocadas várias vezes durante o dia. Foi uma época de ouro para a encriptação. Se o premiê tivesse alertado a população sobre o ataque, os nazistas teriam mudado todo o código de encriptação de mensagens e a segunda guerra teria durado muitos anos mais.
Na verdade o problema é antigo. Uma das formas mais antigas de se codificar mensagens é conhecida como algoritmo de Caesar. Os generais romanos conversavam entre si e o imperador, raspando cabelos de escravos e escrevendo mensagens no couro cabeludo. Então, deixavam o cabelo do escravo crescer e o enviavam à frente de batalha. Se fosse capturado, nem ele saberia o que estava escrito embaixo dos cabelos. Ainda hoje, esse é o primeiro algoritmo que é ensinado nas disciplinas de codificação.
Entender códigos é um desejo muito antigo na humanidade. Grupos de religiosos estudam a Bíblia há séculos a procura de mensagens ocultas. Livros contemporâneos já proclamaram até mensagens escondidas no cruzamento de linhas do velho testamento.
Por isso se entender palavras que envolvem comportamento humano é uma tarefa difícil e fascinante. As pessoas sempre falam em códigos, pensam em códigos e traçam estratégias em códigos. Quando se diz que bolsa de valores é para entendidos, isso é uma falácia. Ninguém entende as bolsas de valores, porque entender pessoas no seu íntimo é quebrar o código secreto de cada um. Se fossem entendidos, o bilionário Buffet, o bilionário Soros, Bill Gates e outros não teriam perdido vultosas quantias com a crise financeira.
A bolsa de valores é para quem tem calma, projeto de vida e olhar para frente. O faro para problemas só é perceptível quando se é fiel ao seu plano pessoal e quando se tem vivência. O efeito manada é traiçoeiro, o efeito “recomendação de compra ou venda” é um código que as empresas usam para convencer os investidores que essa ou aquela ação é ótima, mesmo ela não sendo.
Esse é o código por trás das negociações, onde uma recomendação não significa que vai acontecer, mas sim uma indução para criar o efeito manada para baixo ou para cima. No auge da crise, grandes fundos internacionais entraram e saíram várias vezes durante o dia, fazendo os preços acontecerem. E quando estavam baixos esses preços eles voltavam. É o código de Caesar, onde os escravos são os pequenos investidores que acreditam na mensagem do general e levam ao fronte de batalha notícias boas ou más, mesmo que inverídicas. A tabela ao lado mostra um book de oferta em 14/10/2008 durante uma semana terrível com as bolsas caindo e subindo frenéticamente. A ação desse book é a PETR4 da Petrobrás, que todos os dias move milhões em volumes de ações. Exatamente as 11:13 o melhor preço de compra era de R$28,21 e o preço de venda R$28,23 mas... onde estão os grandes bancos e fundos de investimentos estrangeiros? Não estão.
Assim que a bovespa abria as 10:00, esses fundos entravam vendendo e fazendo os preços despencarem até por volta das 12:00. Então retornavam comprando até as 15:00. E então tornavam a irem embora, tornado a bovespa um completo caos e desespero. A mensagem que traziam era de "vitória" e a mensagem que deixavam era da "derrota". E no dia seguinte alternavam, entravam comprando, vendiam, compravam e vendiam novamente. Quem só tomou o caminho errado de sair na baixa e entrar quando as recomendações eram "boas" perdeu muito dinheiro.
Uma frase célebre de mercado é que a bolsa valoriza no boato e realiza (vendas) no fato. Na verdade ela valoriza quando Caesar quer, e realiza quando Caesar quer. Os poderosos das torres de marfim fazem o mercado acontecer com seus códigos e estratégias para ludibriar os investiores. Quando dados são conflitantes, não são conflitantes, é que grandes investidores desejam exaltar dados bons e minimizar dados ruins e quando interessa, exaltar os ruins e minimizar os bons. Esse é o algoritmo para ser entendido.
Para as bolsas subirem sólidas e de maneira consistente, todos os dados devem ter o mesmo sinal, por isso serem consistentes. Se dados importantes tem sinais contrários, não são os dados que estão confusos, os Caesar que os estão confundindo de propósito. Um jargão importante da estatística é: A informação sempre depende da qualidade dos dados e nada pode ser dito além do que estão nos dados. Se bolsas sobem frenéticamente com altos níveis de desempregos, tem alguma coisa de errada... ou certa, depende se você está dentro ou fora do mercado.


Quarta-feira, 2 de Dezembro, 2009