Sábado, 24 de Fevereiro, 2018

 

O colapso dos trilhões

O colapso das tulipas na Holanda é bastante conhecido, mas vamos relembrar rapidamente como ocorreu. No dia 5 de fevereiro de 1637 as finanças da Holanda colapsaram por causa de um bulbo, uma semente de tulipa. Na realidade o colapso ocorreu não por causa de um bulbo, mas pelo mercado paralelo de tulipas.

Os colleges eram mercados que comercializavam preços em paralelo no interior das tabernas. Enquanto os mais ricos negociavam a planta e o bulbo nos mercados oficiais, as pessoas mais pobres e camponeses também tinham seus negócios, mas não no mercado oficial. Isso sempre existiu, mas por volta de 1600 os grandes palácios da França descobriram que as tulipas harmonizavam perfeitamente com seus jardins.

Então reis, lordes, barões, todos da alta casta tinham a obrigação de se mostrar com tulipas, em especial aquelas com riscos aleatórios nas pétalas que aumentava a beleza dos palácios. Mas esses riscos não podem ser previstos. Possuir tulipas, ou bulbos que garantem tulipas diferentes, então começou a render status e dinheiro.

Quem tinha tulipas "inéditas" recebia visitas de pessoas com maior pompa e importância na sociedade francesa. Logo a corrida por esses bulbos que só nasciam na Holanda se fez presente. A loucura chegou a tal ponto que lordes colocavam como garantia de pagamento seus castelos em troca do "preço futuro" do bulbo.

Um mercado sem lastro, sem garantias e de aposta, um perfeito derivativo que tinha data certa para crash. E ele veio, segundo se conta, após a morte de um lorde sem herdeiros na Holanda, com um campo enorme de tulipas e bulbos. As freiras, que herdaram o plantio, resolveram vender toda a plantação para fazer benfeitorias em seu convento.

O resultado foi que ao chegar os contratos no mercado oficial, o preço das tulipas despencou. A plantação toda colocada à venda destruiu o mercado holandês. E obviamente, no mercado paralelo despencou ainda mais forte, paralisando a economia. É possível ver documentos da época com assinaturas de hipotecas de lordes ao lado de impressão digital de analfabetos e pessoas simples.

Foi a colapso mais sério até então, a primeira crise real envolvendo derivativos. Envolveu preços futuros de algo que não poderia se prever e cujo montante investido era maior do que o próprio preço do produto. Em nosso livro, no Capítulo 2 contamos essa história em detalhes com os preços e a volatilidade para a época (ver em Mudanšas Abruptas no Mercado Financeiro).

Nos dias atuais, não se fala em bulbos de tulipas. Na verdade os riscos que embelezam as pétalas da planta, hoje sabemos que é causado por uma doença que o bulbo adquire. É um vírus que altera o DNA da planta e o núcleo se perde o comando na hora de lançar as cores das flores. Uma doença que valia ouro na época.

Quanto vale 1 trilhão? Com o que se parece 1 trilhão? Matematicamente 1 trilhão é 1.000.000.000.000. É tanto zero que se não tomarmos cuidado podemos errar a representação. A dívida dos EUA está entre 18 a 19 trilhões de dolares. O PIB do Brasil de 2016 foi de 1,796 trilhões de dolares. Tudo o que produzimos não chega nem perto da dívida americana. O site "The Money Project" nos conta que o total de dinheiro no mundo, o total de tudo envolvendo produtos é de 90 trilhões de dolares.

Nos EUA um órgão fiscaliza os bancos nos EUA para tentar evitar problemas de colapsos como o das tulipas na Holanda. Mas ele sempre falha, como vimos em 2008. No entanto, eles são transparentes ao relatar de maneira clara como os bancos estão agindo e onde estão agindo.

O órgão é o Office of the Comptroller of the Currency (OCC), fundado em 1863 que conta com 3.973 funcionários.

Pois bem, no site do OCC são emitidos relatórios sobre quanto os bancos possuem, o que compram, o que vendem de produto, quanto recebem do governo, quanto de dinheiro circula por eles entre outros dados. Em especial a aba "Financial Markets/Derivatives" tem especial apreço. Nesse local são divulgados trimestralmente tudo sobre os principais bancos americanos.

No mais recente relatório, do terceiro trimestre de 2017, em sua página 15, o órgão mostra o quanto está alavancada a atividade monetária nos EUA.

No primeiro trimestre foi movimentado 161 trilhões de dolares, no segundo 151 trilhões e no terceiro 136 trilhões de dolares.

O gráfico ao lado mostra a circulação do dinheiro desde 2013. E se olharmos as bolsas americanas, vemos exatamente que elas só sobem desde 2013.

O gráfico ao lado mostra a busca por recordes que o Dow Jones vem travando.

Só para lembrarmos, os bancos americanos receberam de forma direta na crise de 2008 1 trilhão de dolares para gerar empregos.

Mas, como já comentávamos naquela época, os bancos não estavam colocando todo esse dinheiro como crédito para pequenas empresas gerarem empregos.

Como sempre fizeram, o dinheiro do tesouro americano, alimentado pelos impostos dos cidadãos, foi jogado dentro do cassino das bolsas.

E isso fez o Dow Jones subir. Se hoje o desemprego nos EUA caiu para algo em torno de 4%, foi muito tempo depois de 2008 e somente depois que os bancos recuperaram suas perdas e ganharam dez vezes mais.

Dez vezes mais? Que exagero?

 

 

Atividade monetária dos bancos nos EUA

 

Dow Jones de 2013 até 23/fev/2018

 

Total de dinheiro dos bancos em ações

 

 

 

 

 

 

Total de dinheiro dos bancos em ações

Então vamos lá.

No relatório com muitas tabelas, as mais interessantes são as últimas que nos contam como os bancos estão usando dinheiro.

O inocente público acha que estão gerando créditos e "ajudando" o país e a economia.

Pois bem, somente no terceiro trimestre/2017 o JP Morgan era o número 1 da lista, com 2,153 trilhões de dolares em ações. Ele tinha recebido em 2008 algo em torno de 200 bilhões de dolares.

Logo, o banco número 1 dos EUA recebeu 200 bilhões para se salvar e num único trimestre tem dez vezes mais só em ações.

O segundo banco é o Citi com 1,407 trilhões, depois o Goldman Sachs com 157 bilhões (parece "tímido") e depois o Bank of America com 1,725 trilhões.

Mas esse não é o problema. Quando se varre a tabela, encontra-se o total de cada banco com dinheiro esperado por receber em derivativos (mercado futuro de índices, moedas, commodities, etc).

O JP Morgan tem 50 trilhões de dolares aplicados em derivativos. O Citi tem 49 trilhões.

O Goldman que parecia "modesto" é o mais agressivo de todos. Tem poucas ações, mas jogou dinheiro pesado em derivativos, com 43 trilhões de dolares.

O banco tem 157 bilhões em ações de empresas, mas 43 trilhões de dolares em derivativos?

O Bank of America tem 21 trilhões de dolares em derivativos. O relatório coloca a tabela com os 25 bancos mais importantes nos EUA.

O total dos bancos em derivativos é de 182,639 trilhões de dolares. Sim, duas vezes o total de dinheiro existente no mundo.


Pois bem, os 4 principais bancos, aqueles que estavam na mesa do FED recebendo ajuda para não falirem em 2008, tem juntos 164 trilhões de dolares. Quatro bancos tem mais do que todo o dinheiro de todos os países e pessoas no mundo! Os quatro bancos tem 90,33% de todos os derivativos nos EUA.

Mas os detonadores de uma bomba atômica financeira não param por aí.

O regulador internacional de todos os bancos no mundo, o OTC - Bank for International Settlements divulga da mesma forma tabelas semestrais sobre as atividades dos bancos no mundo todo. A tabela mais recente compara os valores dos bancos negociados com ações, ouro, moedas e .... derivativos.

No mundo todo, no primeiro semestre de 2017 os bancos jogaram 542,435 trilhões de dolares em derivativos, um dinheiro que não existe nem nunca existirá no mundo. Enquanto o total de dinheiro disponível é de 90 trilhões de dolares, os bancos e mercados financeiros investem 542 trilhões ! De onde, na forma real, com produtos e bens, esses bancos vão tirar dinheiro para pagar isso?

Sim, porque se uns bancos vão ganhar com os derivativos, alguém terá que pagar esse valor no futuro? Que produtos vão valer tanto para que os bancos perdedores ou clientes pessoas físicas paguem 542 trilhões?

Warren Buffet disse na última crise de 2008 que derivativos são "armas de destruição em massa". Hoje derivativos vão provocar um armagedon, não vão destruir o ser humano, vão destruir o universo todo com dinheiro fictício e contratos que não valem os dígitos no papel.

É só para lembrar, que quando a "mãe das crises" chegar, não podemos ficar com pena dos senhores de paletós pretos com rosto de coitados e preocupados. Só para lembrar que não podemos perdoar nunca S&Poors, Moody's nem Fitch que sabem de tudo isso, mas ainda assim ficam dando notas de créditos AAA.

Tudo isso é só para lembrar que quando isso estourar, não podemos aceitar aquela velha e batida estória: "O mercado é imprevisível". Será?