Sábado, 08 de Agosto, 2015

 

Saudades do Collor?

"Minha gente, não me deixem só... o Brasil não aceita mais derrotas, agora é vencer, ou vencer..."

E nós perdemos!

Essa foi a frase de Fernando Collor de Mello em seu pronunciamento ministerial ao lançar as bases de seu nefasto plano econômico, que deixou todos os cidadãos com apenas 50 mil cruzeiros na conta. Foi o maior confisco da história do Brasil, feito numa sexta-feira em rede nacional e divulgada amplamente o dia todo pela rede de televisão que o tinha eleito.

Para aqueles que não conhecem a figura existente por trás da pele de cordeiro, esse link do youtube mostra o pronunciamento todo. Ou então, para aqueles que morrem de amor por ele e queiram matar saudades dos dias nefastos que vivemos naquela década. Sim, porque algo em torno de 680 mil sentiram tanta saudades dele que o elegeram senador. Ele deve ter muitos amigos e parentes para conseguir essa proeza de voltar por cima, com ar de quem foi de fato um presidente notável.

Democracia é isso, e a tolerância faz parte das instituições para que o Estado continue funcionando e não pare ou trave por conta de picuinhas e infâmias. Mas esse "nobre" senador começa novamente a precisar de medicamentos com tarja preta. O Procurador da República, o senhor Janot, parece ter pisado no calo do senador.

Para mostrar como o senador tinha propósitos de ditador quando presidente em 1990, ele começa seu pronunciamento com o "ato número 1" dizendo que abuso econômico passa a dar 5 anos de cadeia. Como? Quem faz a lei é o legislativo e não o executivo. Mas não em sua mente, que imaginava que a partir daquele momento a lei estava aprovada e no dia seguinte as cadeias estariam lotadas.

E dia após dia, as atrocidades desse senhor, tornaram a vida quase insustentável nesse país, onde simplesmente não tinha economia. Quem viveria o mês inteiro com 50 mil cruzeiros? Só realmente um louco para imaginar que duraria o mandato todo, com atos de loucura insustentáveis como esses. Se o primeiro ato já era errado, dá para imaginar como foi o ano todo.

Apoiado abertamente pela Rede Globo (ver jornais antigos da tv no youtube), com especiais sobre os passeios do presidente em avião de caça, em navios, em automóveis, vangloriando em especiais os discursos dele em inglês nos EUA, em francês na França, em espanhol na Espanha e assim por diante, Collor se sentiu o senhor dos anéis, tirando fotos até mesmo com armas em punho.

E o plano deu certo? Claro que não, nunca. Era óbivo que as torneiras seriam abertas e começaram pelos ricos, pelos empresários, pelos bancários. O cidadão comum foi obrigado a esperar por dois anos para reaver seu dinheiro confiscado na conta corrente, depois da saída de Collor.

Os dados do IPEADATA ao lado comprovam que o plano Collor estancou por alguns meses a inflação do governo Sarney. Claro, ninguém tinha dinheiro para comprar nada, os preços caíriam.

Mas a seta em azul mostra que rapidamente as correções da inflação voltaram de forma galopante. Não adiantou e o plano ainda jogou o país num cenário de desespero por empregos e salários congelados.

Sempre de braço em punho, sempre com a frase "minha gente não me deixem só", "meus descamisados estão comigo", e assim por diante como um completo ditator, Collor de Mello andava pelas ruas como o presidente ideal.

Cercado de sua "Gestapo" particular, com truculência, pessoas comuns eram afastadas do presidente, desde que promovessem alguma palavra de ordem contra suas medidas.

Sua língua sempre foi afiada, suas artimanhas sempre tentatavam ter explicações didáticas e acadêmicas, com palavras escolhidas a dedo, assim como Goebel fazia nos discursos de Hitler.

Mas mesmo o "He-Men", personagem em desenho das crianças da época, teve seu dia de derrota para o "Caveira", o eterno inimigo desse herói.

E o "Caveira" de Collor, quem diria, estava dentro de sua própria casa. Seu irmão Pedro Collor começou a contar e detalhar todo o esquema montado pelo presidente. Desde a campanha da eleição até os esquemas que funcionavam nas liberações irregulares dos cruzados novos retidos pelo seu governo.

Sempre negando (inaugurou a frase "eu não sabia") acusou o próprio irmão de ter problemas mentais. O irmão morreu de cancer algum tempo depois. Não aguentando a exposição da família, a mãe do presidente é acometida por um AVC grave e entra em coma. Seu tesoureiro de campanha é preso e morre assassinado em Alagoas.

E como a Rede Globo colocou Collor de Mello na presidência, percebeu que tinha de mudar de lado. Os "cara pintadas" saíram às ruas depois de uma convocação de Collor junto a taxistas no planalto, para que todos saíssem de verde-amarelo. Todos os "cara pintadas" , jovens contrários a Collor, saíram de preto.

Então, para "apoiar e ficar ao lado do povo", a Rede Globo lança em 1992 a série "Anos Rebeldes", só para dar uma lenha a mais nas manifestações de rua. Incentiva a revolta popular através de um conto onde jovens procuravam fazer a democracia com as próprias mãos na época da ditadura.

Manipulados ou incentivados pela TV, os protestos se intensificam, e claro, atinge os políticos ligados à Collor.

 

 

 

 

 

 

Minisérie da Globo "Anos Rebeldes"

E em 29 de Dezembro de 1992, Collor renuncia, com medo de uma cassação no Congresso. Faz um pronunciamento onde claramente se via um homem conturbado, magro e enfurecido por ter de deixar seu "império". Prometeu voltar...e voltou.

Não voltou com seu mandato de senador. Voltou nessa semana, mostrando o verdadeiro Collor que o país conhecera. Escolheu em seu discurso no senado palavras de dicionário, novamente, no mesmo estilo de quando era presidente. Escolheu as palavras da mesma maneira que sorrateiramente confiscou milhões de contas, mas que liberou algumas centenas para os amigos.

Collor voltou nessa semana, novamente com os punhos cerrados, o velho e tradicional estilo de "não mexam comigo". E então, solta o palavrão " Filho da P... " para o Procurador da República no pulpito do senado federal.

Só estranhou esse fato, a garotada do facebook que não viveu os anos nazistas de Collor de Mello. Xingar e esbravejar são comuns nesse senhor. O que não era comum, era sua atitude educada, respeitosa que vinha mantendo o tempo todo, desde sua posse no Senado.

Agora sim, temos o Collor de volta!

Está com saudades?

O Procurador da República deve ter cuidado, se cercar melhor de amigos, pois o jogo vai ficar duro. E agora, Collor não está mais isolado como na época do impeachment. Seu maior aliado é Renan Calheiros, parceiro da década fatídica. Com Renan na presidência e Collor na tribuna, ainda outros palavrões vão aparecer.

E absolutamente nada vai acontecer, nem mesmo punição por quebra de decoro. O senado está tão fragilizado e tão mal representado, que praticamente nenhum senador elevou a voz para combater o tal discurso da semana. Por que ficaram calados?

Será que lembraram do senador Ulisses Guimarães? Quando Ulisses Guimarães se revoltou contra Collor, o então presidente disse que ele era um "velho" no Congresso Nacional. No programa Jô Soares, em 21 de Setembro de 1992, o entrevistador pergunta à Ulisses Guimarães:

-"Como você se sente diante do palavreado usado pelo presidente de forma tão destemperada em relação a sua pessoa especificamente"?

- "Parece que eu previa isso", responde Ulisses. E continua: " Quando eu dizia que velho sim, velhaco não, assumo minha velhice, mas não sei quem vai assumir quem é o velhaco...". Veja essa histórica entrevista aqui no youtube, muito fantástica.

O que aconteceu com Ulisses? Morreu em acidente de helicóptero junto com o senador Severo Gomes e nunca seu corpo foi encontrado.

Sendo assim, a língua afiada de Collor está de volta e novamente um cenário trágico começa a nos rondar.

Está com saudades? Seja "mal-vindo" Collor de Mello.

 

 

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