Quinta-feira, 11 de Agosto, 2016

 

A complexidade econômica

Todas as semanas os noticiários econômicos no Brasil compõem-se de uma enxurrada de comentários baseados num relatório conhecido como Relatório Focus, do Banco Central do Brasil. Esse relatório é uma coletânia sobre o que pensam sobre o futuro os analistas pelas diversas entidades financeiras do país. Já comentamos diversas vezes aqui que esse é um relatório sem sentido (ver "Crise é psicológica" e "Fora de Focus"), que não traz adendo nenhum a situação real do país.

Mas os que o constróem e ainda mais, aqueles que o divulgam, gostam de enaltecer os gráficos e tabelas lá existentes como se tudo o que está nesse relatório é uma verdade imutável sobre o futuro econômico do Brasil. Já mostramos aqui que, ao se comparar suas previões com a realidade, o relatório praticamente erra tudo, e sempre.

Isso ocorre por diversos motivos. Primeiro porque a opinião de analistas é traduzida como "expectativa do mercado", o que não é verdade. Essa é uma expectativa do analista, que deseja sempre puxar a "brasa para sua sardinha", uma vez que ele emitiu um relatório no mesmo sentido para seus clientes. E quem disse que clientes seguem o que esses analistas recomendam?

Outro fato é que a indústria e comércio reais são bem diferentes e atuam de forma bastante diversificada, não fazendo jus a nada do que os modelos arcaicos da economia tentam prever. Isso porque esses modelos partem do pressuposto de um "mercado racional", um mercado onde os atuantes tentam manter uma situação de equilíbrio nos negócios.

A realidade é bem diferente. Os atuantes no mercado, no comércio, na indústria, não desejam nunca a estabilidade dos negócios, mas ganhar cada vez mais para crescer. Ou seja, eles desejam a instabilidade, para que eles possam aproveitar a situação e ganhar clientes dos concorrentes.

Ainda um outro fator que também já cansamos de escrever aqui é sobre o pensamento "linear" da economia no Brasil e dos economistas no Brasil. A maioria ainda utiliza a ideia de previsão linear, com retas ajudando o ajuste dos dados ao modelo que eles pensam ser realidade. E para forçar a barra entre modelo e dados, muitos utilizam de maneira errada, técnicas de econometria para tentar mostrar que estão corretos do ponto de vista probabilístico.

Por ocasião de 30 anos de sua fundação, o Instituto Santa Fe nos EUA, lançou uma série de entrevistas em 2014 para mostrar como eles tentaram modificar a maneira de observar a economia. Ao invés de manter o padrão de análise econômica, o instituto mudou de paradigma chamando para compor o corpo de pesquisadores, professores de Economia, Biologia, Computação e Matemática.

Na revista, que pode ser conferida no pdf gratuito da entidade , o texto do professor W. Brian Arthur explica como eles estão pensando e trabalhando nesses últimos anos com modelos totalmente alternativos e diferentes. Ao invés das tradicionais equações em equilíbrio da Economia, os pesquisadores resolveram inovar trabalhando com redes e conexões, teoria de caos, equações não lineares e ligações com alta complexidade para tentar entender a relação entre o ser humano e o mundo econômico.

Professor W. Brian Arthur - ISF

O professor explica a dificuldade para criar o grupo tão diferente e sobre o que tinham na época para tentar fazer algo diferente. Ligar as teorias e até mesmo aproveitar o advento de computadores mais velozes, foram desafios hoje vencidos para o instituto se tornar referência na área que ele próprio cunhou como "Complexidade Econômica".

É possível nos dias atuais comprovar as palavras de Brian Arthur ao pesquisar na internet sobre o assunto. Um artigo do próprio professor apresenta como eles simularam um mercado financeiro artificial para repetir padrões de comportamento do investidor.

Utilizando-se de relações aleatórias de comportamento entre investidores artificiais, eles reproduziram um mercado baseado nas previsões dos próprios agentes.

Os pesquisadores criaram regras para algumas variáveis binárias (números entre zero e um) de forma que elas faziam previsões e compravam e vendiam ativos com base nessas previsões erradas.

O padrão gráfico pode ser observado ao lado, com bolhas e crashes ocorrendo da mesma forma que se observa com frequência no mercado financeiro real.

Isso comprova que informações erradas ou obsoletas, de forma aleatória, mais conturba o ambiente financeiro do que propriamente ajuda.

Relatórios de analistas são os responsáveis pelas tragédias financeiras, uma vez que criam instabilidade.

Ou seja, exatamente aqueles que trabalham em cima de equações que supõe mercado racional e estável, são responsáveis por destruir a teoria.

 

 

 

Mercado Artificial simulado por computador

 

 

 

Medidas de complexidade nas relações entre países

 

Em busca na internet é possível reparar que as pesquisas com esse tema estão em crescimento exponencial e contínuo.

No artigo "The building blocks of economic complexity", por exemplo, é possível ver novas medidas de desempenho de mercados com base nas ligações entre blocos de países que formam uma rede.

Nesse caso, como um exemplo que está apresentado ao lado, a preocupação é sobre as medidas de distâncias médias entre as ligações, sobre as distribuições de probabilidades entre as ligações, entre o tamanho médio da rede, sobre o deslocamento de alguns nodos centrais e nada lembram a economia tradicional.

O assunto está tão desenvolvido fora do Brasil que já existem laboratórios de observações de possíveis crises econômicas baseadas nessas novas medidas.

Por exemplo, o prestigiado MIT em Boston, EUA, mantém um observatório sobre a complexidade econômica para diversos países do mundo, como pode ser conferido nesse video.

E qual país é o mais complexo?

Sim, o MIT construiu e mantém um ranking de complexidade econômica para os países. No link gratuito de 2014 é possível observar que o país mais complexo do ponto de vista econômico era o Japão.

O Brasil, em 2014, ocupava a posição de número 54. A China ocupava a posição 19, EUA a posição 14 e assim por diante. Segundo estudos dessas medidas, o grau de complexidade é menor quanto mais dependente o PIB de um país de seus recursos naturais. Países como o Brasil que dependem excessivamente de exportações de minério e grãos tem economia extremamente simples e frágil.

Já países industrializados, como o Japão, Alemanha, Suíça entre tantos outros na ponta do ranking, promovem uma cadeia e rede complexa de interligações, com medidas de redes bastante diferentes dos países subdesenvolvidos. A mão de obra, os salários, a estrutura do mercado pode ser medida e observada pela teoria de rede. A teoria de rede é o foco central da complexidade econômica.

É possível observar nessa área de estudo que, as estabilidades e lineariedades tanto promovidas pelos tradicionais economistas não encontram espaço. Pelo contrário, as medidas e distribuições das ligações comprovam que a suposição de mercado racional e estável é apenas um subconjunto de uma situação muito particular dentro da vida real complexa.

E quando essas medidas vão chegar até o governo? Quando os economistas que se tornam ministros de Estado vão olhar para essa nova teoria para explicar gastos, PIB, previsões sobre crises financeiras e projeções de lucros? No mundo desenvolvido isso está se tornando mais comum, apesar das resistências dos economistas tradicionais.

Mas no Brasil ..... a complexidade de corrupção e a noção de gangue política é tão maior, que torna esse estudo complexo demais para ser assumido como mais uma ferramenta de auxílio econômico. Talvez, daqui 100 anos, estaremos ouvindo falar sobre essas medidas dentro de um governo honesto composto de jovens economistas de verdade, e não de políticos que acham que entendem de economia. Na verdade, os atuais economistas dos governos no Brasil consegueriam falir até o botequim de esquina de cidade pequena.

Complexidade no Brasil é um assunto complexo demais.

 

 

Gostou do texto?

FAÇA UM DONATIVO PARA O SITE

(R$ 2,00 ; R$ 5,00 ; R$ 10,00 )