Sábado, 21 de Abril, 2018

 

A complexidade da simplicidade

Ao final da palestra que proferimos nessa semana sobre "Previsibilidade de Cenários Catastróficos" no INPE-Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, um pesquisador da platéia nos perguntou:

"Quando estamos isolados pensamos racionalmente e quando estamos em conjunto agimos como partículas, de forma irracional e aleatória?"

Muito boa questão e a resposta é sim. Aquilo que chamamos de efeito manada é possível de observar todos os dias na natureza, na revoada dos pássaros, no enxame de partículas, na manada fora de controle ou no deslocamento de um cardume. Algum animal do bando, lídera ou direciona o movimento conjunto?

Aparentemente o instinto animal é quem move de forma aleatória todos os animais quando estão próximos. Quando isolados a procura por alimentos, traçam uma trajetória mais determinística, se protegem à sombra num dia de calor, ou se protegem da chuva, mas em conjunto, o zig-zag parece completamente desordenado, porém belo de se ver.

Efeito Manada

Como pode um vôo reto, direcionado, pode se tornar aleatório, sem rumo, apenas por fazer parte do que os outros fazem? Alguns desses movimentos os biólogos já conseguiram explicar. No caso do enxame de abelhas o movimento segue ao redor da rainha à procura de um lugar seguro para a construção da colméia.

Mas num campo africano, o estouro de uma manada de elefantes, nós podemos perceber que o movimento é compacto, irregular, mas agindo como se todos formassem um único sistema que se movimenta como um corpo. Estar uns próximos dos outros dá a sensação de segurança, traz um certo conforto de que "para chegar em mim, qualquer intruso deverá passar por muitos outros corpos antes".

No entanto, essa disparada e aumento na incerteza desses movimentos conjuntos tem sempre um agente externo. Ou foi uma colméia destruída, ou um incêndio na floresta, ou a percepção de um caçador, enfim, sempre esses movimentos conjuntos advêm de um fator externo ao oscilar sincronizado da dinâmica estável.

E para muitos leigos em teoria da complexidade, ou em sistemas dinâmicos, é mais fácil sempre dizer que existe uma "teoria da conspiração" quando algum tipo de alerta é disparado contra o sistema. Basta algum pesquisador de um determinado assunto, basta alguma entidade experiente em certo evento, enfim, qualquer tipo de alerta que venha a perturbar o sistema, é imediatamente rotulado de "teoria da conspiração".

O termo teoria da conspiração foi criado exatamente por pessoas de dentro do sistema vigente, sejam eles quaisquer tipos de sistemas, para obrigar a se tornar ridículo quem ameace a estabilidade vigente.

Nos anos 90, no governo de Fernando Henrique Cardoso, corriam boatos de que o então senador às vesperas de se tornar presidente tinha um filho bastardo, um filho fora do casamento com uma jornalista da Rede Globo. Rapidamente isso foi colocado como teoria da conspiração para prejudicar um governo, para prejudicar o plano real, coisa de gente "inescrupulosa".

Hoje sabemos que era verdade.

A partir dos anos 80 outro boato era de que a CIA estava por trás de todos os levantes e guerras internas para derrubar governos. Principalmente governos de países ricos em petróleo, a instabilidade, dizia-se naquela época, era por ação coordenada da CIA.

John Perkins, que fazia parte de uma organização que, segundo ele, ainda age hoje da mesma forma, mostrou em seu livro "Confissões de um Assassino Econômico" (Economic Hitman) que isso não era uma teoria da conspiração. Essa organização existe e tem como finalidade desestabilizar todo e qualquer governo que não ceda às pressões de propina, privatizações e transferência de recursos naturais como minérios e petróleo para as empresas ligadas a organização. E segundo ele, isso existe desde os anos de 50.

John Perkins - "Assassino Econômico"

A complexidade está presente em qualquer forma simples existente no universo. A explicação simples de qualquer movimento dinâmico não se sustenta. A teimosia em aceitar que coisas muito mais complexas existem em sistemas simples levam ao que conhecemos como caos. Uma forma simples de entender a complexidade pode ser visualizada com duas simples equações.

Vamos supor que x seja uma comunidade e y outra comunidade, que a princípio vivem em perfeita harmonia. Às vezes a comunidade x tem mais pessoas, às vezes a comunidade y tem mais, mas essa oscilação é harmoniosa e benéfica ao sistema. As duas equações podem ser descritas no Excel. Qualquer pessoa com conhecimento básico de Excel será possível de repetir esse experimento.

As duas equações são:

As duas equações são colocadas no Excel conforme apresentadas ao lado. Vamos supor que as duas comunidades começam com x =10 e y = -1. Ao arrastar essas células por poucos passos, obtém-se o primeiro gráfico ao lado.

Sim, como podemos ver, o movimento é cíclico e harmonioso. Esse gráfico é construído utilizando-se o estilo "dispersão" na ferramenta de gráficos do Excel.

Mas se fizermos o gráfico de x e y no modo simples de linhas, teremos o segundo gráfico ao lado. Pode-se observar o fenômeno da harmonia, observando quando uma comunidade aumenta e quando a outra diminui.

E de tempos em tempos tem-se uma alternância no número de elementos entre as duas comunidades.

As duas equações são muito simples, existe uma simplicidade aparente onde qualquer colegial do ensino médio consegue resolver.

Mas agora, vamos simular um membro externo a esse sistema.

Adotaremos a hipótese que, como membro externo a essas comunidades, poderemos mexer em suas relações.

Suponhamos que desejamos que a comunidade x não aumente de 6/7. Esse termo representa o quanto a comunidade x cresce independente de y.

O leitor pode acreditar, por exemplo, que esse termo 6/7 é um certo "aprendizado" da comunidade x. Ela se realimenta de suas próprias ideias com taxa de "aprendizado" de 6/7.

 

alteração da taxa de crescimento da comunidade x para 1/7

 

Mas nós, como membros influentes, como "formadores de opinião", podemos induzir a população x a pensar apenas no que falamos.

Com isso, existirá uma diminuição na taxa de realimentação da comunidade x, digamos de 1/7, ao invés dos antigos 6/7.

O resultado?

O resultado dessa "nossa" intervenção externa foi uma completa destruição das duas comunidades. Como pode-se ver no primeiro gráfico ao lado, a expiral dos valores das duas comunidades converge para zero.

Ambas as comunidades x e y são destruídas num futuro próximo com apenas uma pequena alteração numa das taxas de apenas uma comunidade.

Um sistema simples, com uma mudança simples, produziu um resultado complexo, caótico de destruição. E isso está ocorrendo o tempo todo na natureza.

Muitas espécies foram destruídas pela caça indiscriminada, pelo abatimento para comercialização de couros, de peles, de chifres, enfim, sempre com o intuito de gerar mais dinheiro.

Algumas espécies são mais vigiadas e sua extinção foi prorrogada a partir dos anos 80, como a pesca sem controle das baleias tão somente para aproveitar seu óleo natural.

Mas quantas outras já se foram?

Quantas ainda mais irão sumir do planeta, para apenas serem conhecidas por meio de livros ou fotos de internet? O fator humano por si só, ao interferir de forma descontrolada no sistema biológico, altera parâmetros como esses da equação anterior.

E na pisicologia, com ajuda de diversos estudiosos, a manipulação também da sociedade com alteração de alguns fatores, levam aos comportamentos mais nefastos para nós, seres humanos.

Ou seria natural a população da Alemanha, com boa educação nos anos 30, apoiar um bando de loucos comandados por Hitler a perseguir e matar milhões de pessoas?

Como conseguir isso sem o maior veículo de mudança dos parâmetros de sistema: a mídia?

A mídia de grande porte pode levar comunidades inteiras a extinção, apenas com a alteração em um dos parâmetros, como a formação de ideias ou a compreensão melhor dos fatos ouvindo seus próprios membros. Quando um veículo fica dia após dia, colocando a mesma notícia, por diversas vezes forçando a notícia a se tornar real, a população, e principalmente aquelas com ensino fraco, começam a pensar em manada, começam a pensar como o veículo de mídia quer e não por ela mesma.

É como no exemplo anterior, diminuindo a realimentação de compreensão de 6/7 para 1/7. Isso é muito fácil para a televisão, principalmente aquelas que atingem muita gente no chamado "horário nobre".

Não concorda com isso?

O grande ator José Wilker, em 1986, em palestra contou como foi formado o padrão Globo de Jornalismo. Ele conta que a Globo pediu um tipo de projeto para o futuro, para criar um padrão. E ele entregou o projeto copiado do livro de Hitler. Sem saber disso, os diretores da época elogiaram o projeto e disseram que era aquilo que eles queriam.

O leitor pode conferir o próprio ator contando isso nesse link "Padrão Globo de Qualidade-1986".

José Wilker em 1986 sobre o "Padrão Globo de Qualidade"

Por que vivemos esse ódio dos últimos anos? Por que tantas correntes destruidoras começam a aflorar? Sim, o sistema normal foi alterado, um parâmetro ou mais em nosso sistema de vida foi revirado a tal ponto que pensamentos nazistas, facistas, xenofóbicos e racistas agora dominam como nunca qualquer debate, qualquer rede social.

A mudança foi tal, que o respeito deu lugar a vingança de qualquer jeito. Qualquer pessoa sem estudo, ou com um pouco de estudo, se acha no direito de debater com estudiosos, acadêmicos, pesquisadores, temas complicados com soluções dificílimas, não usando livros, conceitos apropriados, mas .... usando vídeos ou memes de Facebook.

Para a grande maioria do mundo, o Facebook é agora a enciclopédia que torna possível confrontar qualquer estudioso de anos em determinado assunto. Qualquer pessoa se acha no direito, não de usar como ferramenta um livro, mas palavrões ou interpelações ameaçadoras a pessoas que fundamentam suas opiniões em estudos.

Como isso veio acontecer?

A mídia jornalística de grande porte foi a responsável por mudar esse nosso parâmetro de controle e instalar esse ódio que agora, também se volta contra ela e seus jornalistas. Como visto no último gráfico acima, quando se mexe indevidamente no sistema, todos saem perdendo a longo prazo, inclusive quem mexeu.

Não existe "teoria da conspiração", existe "teoria da complexidade". Ao mexer num parâmetro, podemos transformar complexo aquilo que era simples, em nosso caso, a convivência social harmoniosa e respeitosa promovida por uma boa educação.