Sexta-feira, 18 de Novembro, 2011

 

Hora de ir às compras...de títulos

A estratégia de mercado e principalmente do governo é não falar de suas ações ou o que se espera delas de forma direta, mas através de códigos usando a imprensa. Desde o final do primeiro semestre de 2011 o governo brasileiro através do Banco Central (BC) avisou a todos através da imprensa que iria começar a baixar os juros. Economistas de visão "curta" bradaram que a inflação ia aumentar e que o papel do BC não era de previsão, mas de atuação. Sempre afirmando que o Brasil tinha que baixar os juros para enfrentar a crise financeira, as ações do BC vêm se mostrando corretas, conforme comentamos de maneira favorável a essa ação ("Melindrosos da inflação"; "Juros da discórdia").

E por que os analistas se esperneavam em dizer que a inflação aumentaria? Devido aos cálculos errôneos e estimativas grosseiras da tão chamada "expectativa inflacionária". Mostramos nos mesmos textos acima que os modelos usados para essas expectativas são simplistas, irreais e lineares a ponto de "cegar" qualquer analista. As hipóteses desses modelos são, na verdade, suposições que fogem de qualquer premissa científica básica. A vida não é linear, e então por que usar retas para predizer o futuro? Erro.

Mas claro, esses analistas estão operando em outra frente. Ao fazer previsão de forma errada, eles estão forçando o governo a aumentar os juros para ganharem em seus fundos atrelados à juros pré-fixados. E quando o governo derruba todos invertendo a ação, causa um estrago nas estratégias, fazendo com que as planilhas Excel fiquem todas desatualizadas e... haja trabalho para recompô-las! (veja nosso comentário em "O diabo se esconde atrás dos dados...dos fundos de investimentos").

O fato é que para o investidor que gosta de segurança e de investir pensando em muito longo prazo, a hora se tornou ótima para entrar em títulos. Mas não os pré-fixados que são colocados "goela" abaixo pelos corretores e sim os pós-fixados. Contamos a história do surgimento dessa jogada de transformar dívida em algo lucrativo em "O perigo do monopólio irracional". O famigerado John Law criou esse mecanismo de títulos da dívida pública para fazer dinheiro com suas empresas, levando o Rei da França a perder muito dinheiro e sua cabeça com a revolução francesa de 1789.

E tudo se resume a aplicação e uso de uma fórmula do ensino médio, onde qualquer um pode estudar, colocar números e concluir a hora de entrar e hora de sair dos títulos. A fórmula para títulos da dívida pública, por exemplo do Brasil (fonte: tesouro direto) é

Essa fórmula diz que o preço de um título no futuro (lado esquerdo da equaçã0) é igual ao valor que você pagou hoje corrigido lá no futuro (2015, 2024 e 2035 no caso do Brasil) pela inflação acumulada dividida pela taxa de juros. E a parte embaixo da equação é que diz qual a política aplicada pelo governo. Se o juros diminui mais rápido do que o valor de cima da divisão o preço aumenta. Caso contrário, se o juros aumenta embaixo, o preço diminui.

Complicado? Que nada! Observe e imagine que Preço = 2/1. Bom, 2/1 é igual a 2, certo? E quanto é 2/0,5? Essa divisão tem como resposta o número 4. E 2/0,1? O resultado agora é 20. E se Preço = 2/0,0001?

É isso que a queda dos juros (de maneira bem simplificada) faz, ou seja, quando o número acima da fórmula é dividido por um número que vai ficando cada vez menor, mais o preço dispara, pois a divisão aumenta.

 

A parte em cima da divisão é corrigida pela inflação futura como mostrada ao lado. E aí entra a guerra de informação. Você conhece o futuro? Nem nós, nem os economistas. Então eles usam uma reta inclinada no lugar da variável "inflação" ao lado quando "acham" e imaginam que ela vai subir. E quanto mais o governo baixa os juros, mais eles tentam controlar as ações subindo as "expectativas". Assim, se o termo de cima da equação aumenta e embaixo diminiu, o Preço do título sobe mais rápido.

Olhe:

Preço = 2/0,1 = 20

Preço = 3/0,01 = 300

Preço = 4/0,001 = 4.000

Por isso nessa época as tais "expectativas" inflacionárias são altas prevendo um caos futuro. Mas como o governo coloca os títulos para venda no mercado, essa estratégia não dura muito, pois chega um momento que a inflação deve ser acertada para o cenário dos analistas não ficar muito irreal a medida que chegamos no futuro previsto. Então os preços se corrigem e caem um pouco e voltam a subir o tempo todo.

Equação para cálculo do preço futuro dos títulos

 

 

 

Berlusconi mostrando seu dente de ouro

 

Um tipo de título pós-fixado no Brasil é o NTNB-principal (Notas do Tesouro Nacional do Brasil) que tem vencimentos em 2015, 2024 e 2035.

A figura ao lado mostra o preço do título NTNB-principal com vencimento em 2024. O gráfico mostra o comportamento do preço desde 2006. Se você tivesse comprado em 2006 teria pago R$ 320,00 e hoje eles valem mais de R$ 1.000,00. Seu rendimento seria mais de 200% mesmo com a crise de 2008 onde muita gente, muito fundo e muito banco perdeu dinheiro.

Mas é seguro? Assim como tudo na vida, esses títulos tem seu risco, conforme o leitor pode simular com números na equação acima. Por exemplo, se tiver uma crise grave, o governo poderá subir a taxa de juros. E o que acontece com isso?

Veja:

Preço = 2/0,1 = 20

Preço = 2/0,5 = 4

Preço = 2/1 = 2

Ou seja, se o governo subir os juros, você começa a perder dinheiro. Então é hora de pular e mudar para títulos pré-fixados ou ações, que nesse caso devem estar baratas.

O que acontece na crise?

O gráfico a seguir é uma ampliação da região em vermelho do gráfico anterior. Na época da crise em 2008 o governo foi obrigado a aumentar a taxa de juros para reduzir a fuga de investidores e controlar uma possível inflação. No gráfico anterior, a queda parece muito pequena, mas sua ampliação revela que os investidores devem ter passado muitas noites sem dormir.

 

Dos R$ 610,00 na época, o valor do título chamado de NTNB-principal de 2024 caiu para R$ 490,00, ou seja, 19,6% de queda no preço. Então não existe segurança, mas a relação risco-retorno mostra que a longo prazo e dependendo do código de aviso do governo esse é um tipo de investimento interessante para épocas como a nossa atual.

Em muitos casos, o país está bem, mas os especuladores chegam em tropas bem treinadas com a finalidade de derrubar a casamata do governo obrigando a subir os juros. Por exemplo, é o que está acontecendo na Itália nesse mês quando os especuladores começam a vender a qualquer custo os títulos italianos. E se eles vendem ao primeiro que aparece o preço cai, e se o preço cai, os juros aumentam. Olhe o que aconteceu com os juros do nosso título NTNB-principal 2024 na crise de 2008.

Os especuladores de plantão obrigaram os nossos "comportados" juros sair de 6,5% ao ano para 8,5% o que fez o preço cair graças a fórmula anterior.

 

É complicado comprar os títulos?

É isso que os grandes fundos de investimento querem que você pense, caro leitor. Quanto menos pessoa física comprar esses títulos, mais eles compram e mais "inventam" os nomes bonitos de fundos para te atrair. Para você eles pagam 3% num mês e você faz as contas contra a inflação e jura que ganhou. No entanto, num mês, esse mesmo fundo de investimento pode ganhar 30%, com o seu dinheiro.

O leitor pode fazer uma pequena simulação e perceber que a queda de juros de 0,5% pode trazer um rendimento enorme nos títulos. Observe essa simulação usando as fórmulas acima, implementadas no Excel.

Na primeira linha amarela de juros, baixamos lentamente a taxa como se fôssemos o Banco Central, em cerca de 0,5% de queda a cada mês. O leitor pode ler o retorno, na segunda linha amarela como os rendimentos vão se acumulando podendo chegar 9% em seis meses. Esse seria o gráfico dos preços simulados:

O leitor pode simular crises também. Foi o que fizemos num cenário pessimista, diminuindo os juros até o mês 3 e aumentando depois como se tivesse acontecido um ataque especulativo no país. Veja o que aconteceu.

Nos três primeiros meses temos rendimento positivo, mas quando mudamos o cenário obrigando os juros a aumentar a situação ficou desagradável. O que era felicidade virou pesadelo com prejuízo de 8% ao final de seis meses. O resultado dos preços é apresentado no gráfico a seguir:

Por isso, entender dos códigos é importante. O governo sempre manda um recado para o mercado e se a população for suficiente instruída pode compreender o que vai acontecer e se mover, impendindo que apenas o mercado ganhe com o dinheiro dos outros.

Onde comprar?

Fácil. No tesouro direto você poderá comprar com R$ 100,00 pois o governo permite você comprar parcelas do títulos. Por exemplo, se você não tem dinheiro para um título inteiro, compre 0,2, ou 0,4 que é permitido. Basta você se cadastrar numa corretora de seu banco e acessar o site tesouro direto como link abaixo:

http://www.tesouro.fazenda.gov.br/tesouro_direto/

Uma vez cadastrado, você pode entrar na área de compra, escolher sua cesta de títulos clicar em um carrinho e adquirir os títulos sem burocracia. Em 3 dias o dinheiro sairá de sua conta na corretora com taxas a serem pagas e aí entra outra história. Qual a corretora cobra menos taxa? No site do governo também tem um ranking mostrando isso.

Mas quem disse que eu posso esperar até 2035?

Você não precisa! O governo recompra seus títulos toda quarta-feira através do site. Se você comprar na quinta-feira de uma semana, na quarta-feira seguinte poderá vender de volta, sem burocracia. Mas terá que pagar um imposto maior por isso. O nome do ano 2035 é apenas uma referência ao ano de vencimento, mas você pode recuperar seu dinheiro na semana que desejar.

Mas e se o mundo quase acabar com uma grande crise?

Sem problemas, espere até 2035. No vencimento do título você resgata com o governo pagando os juros mais inflação ( no caso dos NTNB-principal) de cada ano. Por isso não é bom colocar todas as cartas na mesa, invista o suficiente para ganhar, mas não o suficiente para ir à falência. E se ele não pagar? É calote e o país estará quebrado, como no caso da Grécia.

Mas o cenário para o Brasil não parece ser esse, nem mesmo entre as agências de risco. Então, considerando a nossa atual época e o atual recado do governo, ninguém precisa acreditar em economistas e analistas. A caneta final é do governo, pelo menos até o mês que vem. Depois pode mudar, mas o risco talvez valha a pena, pois se os fundos fazem isso com seu dinheiro, por que você não poderia?