
Sábado, 17 de Julho, 2010
Sombras da desconfiança no Brasil
Quantos documentos você deve entregar quando aluga uma casa? E quando compra uma casa? E quando aluga um carro, quantas assintaturas deve fazer? Para abrir uma empresa, quantos reconhecimentos de sua assinatura, de sua residência, familiares, deve ser feito? Seu vizinho emprestou de você a chave de fenda e esqueceu? Você empresta de novo? Imagine a cena: você caminha numa rua escura e deserta à noite, num dia de chuva e frio. Em sua direção vem uma pessoa com capuz, o que você faz? Muda de calçada? Permanece na calçada? E se ela for conversar com você? Tudo isso serve apenas como preâmbulo para uma triste constatação: Estamos entre os 10 países do mundo onde as pessoas não confiam mais umas nas outras. A pesquisa e ranking é realizada com um questionário aplicado no mundo todo pela consultoria de assuntos sociais ASEP/JDS. O questionário, no caso do Brasil é aplicado desde 1995 de forma aleatória. Em alguns países antes, em outros depois desse ano, mas ao total quase todos os países do mundo são abordados. Por exemplo, na América do Sul o Brasil é o campeão da pesquisa, atrás de todos os vizinhos. |
A pergunta do questionário é muito simples:
Segundo a consultoria as respostas podem sempre se resumir a dois tipos:
E então as respostas são tratadas em porcentagens de cada tipo dentro de um índice quantitativo. O índice é: INDICE CONFIANÇA = 100 + ( % Maioria das pessoas confiáveis) - ( % não pode ser muito cuidadoso) Quanto mais acima de 100 for o resultado, mais as pessoas do país confiam uma nas outras, e quanto mais baixo e próximo de zero, menos as pessoas confiam. Valores muito baixo mostram um total desconforto no trato com outras pessoas, ou como as pessoas se enxergam no trato da sociedade. O ranking abaixo está em ordem alfabética e mostra que de 1995 a 2008 o índice mostrava o Brasil com valor 17,5, ou seja, muito, mas muito longe de um lugar onde as pessoas confiam uma nas outras. O ranking numérico completo pode ser obtido no site ASEP.
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E onde fica o lugar onde as pessoas mais confiam uma nas outras? A seguir, o gráfico mostra o topo, ou seja, os lugares onde as pessoas mostram mais confianças entre si. Os países nórdicos lideram com folga, mostrando que se as pessoas não são felizes (como se diz na lenda dos lugares gelados) pelo menos sabem que uns podem ajudar aos outros. Até mesmo na China as pessoas de lá sentem que podem confiar uma nas outras, apesar da ditatura militar de milênios. E que se diria do Iraque, ou do Pasquitão?
Já a parte de baixo do ranking é onde estamos. Na verdade quase os últimos no quesito confiança entre as pessoas do mesmo país. O gráfico a seguir mostra os países com índice de confiabilidade mais baixo.
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Olhando para esse gráfico é possível ver que estamos atrás do Zimbabwe, país assolado por guerras civis e sem direito à cidadania. Mas ainda assim, as pessoas se dizem que podem confiar mais do que no Brasil. E o que dizer da Tanzânia, assolado por ditadura desde sua independência? Claro que pode-se dizer que essa pesquisa não faz uma amostragem cientificamente correta, pois apesar de grande o banco de dados, se pegarmos por país o número de questionário não reflete uma boa amostragem. No entanto, aplicado durante tanto tempo, mais de 10 anos, era de se esperar que ao longo desses anos, os erros e volatilidades se compensassem para estarmos com índice por volta de 50 pontos, próximos da Itália por exemplo. O que fez essas pessoas que responderam esses questionários ter essa impressão tão assustadora de falta de confiança no próximo? Certo ou não a metodologia, ela acaba sim refletindo o que vivemos hoje. Antigamente, os crimes noticiados nos jornais televisivos eram de greves, roubos de bancos de vez em quando, batedor de carteira no viaduto do Chá ou na rodoviária de São Paulo. Nos dias atuais, digamos nos últimos 15 anos, o que se noticia são carregamentos de cocaína, sequestros, mortes violentas, pessoas da família sendo atiradas de prédio, pais matando filhos, filhos matando pais, enfim o sentimento de impunidade aumenta a cada ano. E mesmo em cidades do interior que antes eram poupadas das aberrações das metrópoles. Por mais que nossa justiça afirme que existem muitos processos e por isso não dá conta de colocar julgamentos em dia, a punição é muito desigual. Quem rouba um alfinete, acaba esperando dias para seu julgamento, numa cela de delegacia com outros traficantes e assassinos. E depois recebe por exemplo uma pena de um ano. Um bandido com crime mais grave, por exemplo por roubo pode receber 10 anos. Mas com o benefício de bom comportamento cumpre apenas 1/6 da pena o que acaba dando pouco mais de 1 ano e meio. Então para os olhos da lei, roubar alfinete ou sequestro sem morte tem a mesma validade. Muitas coisas precisam mudar em termos de lei, de investimentos em cadeias e presídios, mas sobretudo em Educação. A sociedade tem que aprender a esperar os resultados dos investimentos em educação e ensinar os novos políticos que esse tipo de investimento é que é o mais importante. Concretos e obras claro, também são importantes, mas nunca muito mais que a Educação. Sem ela, esse questionário internacional vai se mostrar cada vez mais próximo de nossa realidade. Será que um dia estaremos no topo da lista da confiabilidade? |