Quinta-feira, 10 de Novembro, 2016

 

Teoria da Conformidade elegeu Trump

A eleição de Donald Trump ainda será comentada por muitas décadas. O sistema americano novamente comete a discrepância de aceitar presidente, um candidato que teve menos votos que seu adversário. Ele permite que a maioria das intenções de votos não seja respeitada, pois são votos ponderados pelo peso que cada estado exerce na nação. Se isso é justo ou não, não vem ao caso, pois a Suprema Corte dos EUA acha que sim, a Constituição do país acha que sim, então nada mais a discutir. E como nosso sistema eleitoral também não é bom, vamos deixar essa discussão pra outra oportunidade.

Enquanto Hillary Clinton teve até o momento desse texto 59.938.290 votos, Trump teve 59.704.886 votos, mas levou a eleição pois fez até o momento 290 delegados contra 232 delegados de Hillary. Mesmo com 200 mil votos a mais, a candidata democrata teve minoria entre os delegados, aqueles que participam do colégio eleitoral e realmente votam para presidente. Como existem mais delegados Republicanos do que Democratas, Trump venceu a eleição.

Mas a discussão que mais toma conta das televisões é sobre "como os eleitores escolheram Trump"? Depois das bombásticas declarações, das palavras xenofóbicas, das ameaças aos imigrantes, dos apoios repugnantes que recebeu, como da Klu Klux Klan, a entidade que perseguiu e ainda persegue pessoas da raça negra nos EUA, como o cidadão americano votou nas ideias de Trump?

Logo de início nesse debate, é bem perceptível que toda a mídia, tanto dos EUA quanto dos outros países, estavam apoiando abertamente a eleição da candidata Hillary. E nessa escolha, ao invés de serem neutros para colocar racionalmente um debate sério sobre ideias e sobre as atitudes do maluco de Donal Trump, resolveram baixar o nível, correndo atrás de "fofocas", de vídeos, de declarações passadas, de contas não pagas, de prejuízos e calotes que o milionário fez no passado.

Antigamente, quando a imprensa partia para esse lado, lá nos tempos em que não existia internet, funcionava perfeitamente. Jogavam para a população que estava assistindo aos seus editoriais, suas notícias, suas reportagens de rua, e adotavam tudo aquilo como verdade. Agora tudo mudou.

Com a proliferação de milhões ou bilhões de blogs pelo mundo, indivíduos não acreditam 100% no que dizem os jornalistas, mas sim o que diz seus seguidores de facebook, seguidores de Twitter ou redes de sua empresa e amigos. A audiência das televisões vem caindo ano após ano. Mesmo essas mídias tradicionais tentando entrar no mundo da internet, já não conseguem convencer os internautas, estão cansados das mesmices e tolices que são ditas.

As redes de televisões não captaram isso, não entenderam ou ainda, não querem entender. Não adianta entrevistar apenas pessoas que apóiam a ideia que o jornalista e seu editor desejam. Se isso ocorre, nos dias atuais, gera uma reação de ódio que vai somente fomentar violências verbais, físicas, ondas de passeatas, ocupações chegando ao extremo do caos total, como na Síria.

Então, por não entender desse fenômeno, a imprensa elegeu "erro estatístico" ou ainda "eleitor silencioso" para justificar sua falha e seu erro nas previsões. Ficou muito claro que redutos importantes nunca foram entrevistados pelos institutos que claramente desejavam Hillary Clinton.

E nesse ponto, Trump deu um nó em todos eles. Ele percebeu que a estatística não tem como vencer a Teoria da Conformidade.

Psicólogo Social Solomon Asch

Explicamos em nosso texto de 2012 (ver "Cascatas de Informação dos Mercados") essa interessante teoria comprovada pelo psicólogo Solomon Asch. Essa teoria diz que as pessoas, por medo, por vergonha ou algum sentimento introspectivo, prefere seguir sua comunidade apenas para ficar com a maioria, ao invés de pensar no que está fazendo.

Muitas vezes, mesmo sendo uma ideia absurda, uma pessoa que não deseja contrariar seus pares, se conforma, se rebaixa e tende a fazer a mesma coisa que estão fazendo ao seu redor. Loucura? Não, estima-se que 50% das pessoas fazem isso.

Em nosso texto de 2012 colocamos esse vídeo ao lado que existe no youtube. Já assisitiu? Vale a pena ver como uma pessoa adota uma ideia absurda, principalmente quando está sozinha dentro de um grupo de desconhecidos.

Nessa linha foi que Trump agiu. Ele percebeu o silêncio das comunidades agrícolas, comunidades tradicionais dos EUA que ainda não se recuperaram da crise de 2008.

Percebeu que dentro das indústrias de automóveis, existe um certo desejo incontrolável de parar com as importações de automóveis asiáticos.

Trump também percebeu que na parte sul dos EUA, os latinos são completamente indesejados pelos moradores da fronteira com o México e falou exatamente o que esses tradicionais americanos queriam ouvir: mandar latinos de volta para seus países.

Ao se observar os votos que Donald Trump recebeu, é notório que o centro e interior dos EUA votou em peso nas ideias reacionárias de Trump.

É o que eles queriam ouvir. Há muitos anos eles desejam isso. Eles gostam de ter armas, querem vender mais cigarros, comercializar seus produtos sem concorrência mundial, e se possível, viver apenas entre eles, brancos e legítimos americanos.

Teste sobre Teoria da Conformação de Solomon Asch

 

 

 

Mudança de Voto de 2012 para 2016

 

 

 

 

 

 

 

Mas o erro foi da Estatística? Os modelos erraram? Os pesquisadores que fizeram os modelos erraram?

Não.

Todo modelo precisa de "calibração", ou seja, de dados reais para ajsutar parâmetros. Seu êxito nas simulações depende de uma paciente, e séria, busca pelos dados até o modelo se comportar de forma adequada.

Ao lado é possível ver como ocorreu a mudança de votos, saindo dos democratas e indo direto para Donald Trump. Essa foi uma excelente representação feita pelo New York Times sobre o deslocamento dos votos entre 2012 e 2016.

A linha vermelha na diagonal é muito clara, mostrando que os agricultores do interior, ao longo do Rio Mississipi, esperavam pelas palavras "confortantes" de Trump.

Mas essa mudança foi silenciosa, pois as pessoas agiam em conformidade, assim como explica Solomon Asch.

No passado, votaram (ou nem votaram, pois não são obrigados) seguindo a maioria, mesmo não gostando dos candidatos.

Mas dessa vez, bastou uma chama acender o pavio de certos nodos chave na rede de comunicação, que o fenômeno se tornou viral.

E novamente, com certeza, muitos votaram seguindo sua comunidade, em conformidade, pois o pastor falou que Trump era bom, o líder agricultor falou que era bom, o delegado "manda chuva" disse que as ideias estavam corretas e assim por diante.

E quando percebeu que suas ideias viralizaram, Trump aumentou o tom, para reforçar a conformidade, reforçar a informação errada e convencer que ele era o melhor para essas comunidades.

O New York Yimes criou uma ferramenta bem interessante de projeção da probabilidade de vitória dos candidatos. Ao longo da apuração as setas se mexiam e na grande maioria do tempo ficou no setor de "aprendizagem".

Ou seja, o modelo, que segundo o NYTimes deveria aprender e estacionar as setas, ficou minuto a minuto oscilando, mas sem sair da condição "learning" ("aprendendo").

Isso mostrou até 2h da manhã, que o modelo pode estar correto, mas o ajuste de meses anteriores estavam todos errados (tendenciosos, claro!).

Quando os dados reais, os verdadeiros votos começaram a aparecer, o modelo simplesmente "pirou". Ele achou incompatível seus resultados de projeção com os dados que estavam chegando no sistema. Por isso a seta ficou estagnada em "learning".

A imprensa e grande mídia dos EUA coletou claramente, dados que interessavam ao seu propósito. Certamente foram a essas comunidades agrícolas, certamente foram aos desempregados das indústrias, mas não colocaram tanto peso na amostragem dessas regiões. Devem ter colocado peso (um número que pondera as intenções) menor do que outras regiões ou mesmo igual aos de bairros de grandes cidades.

A oscilação frenética do modelo mostrou em tempo real, que sua calibração estava errada. Não existe "eleitor silencioso", ou "estatística silenciosa", mas amostra errada. A teoria de Solomon Asch foi demonstrada de modo vivaz nessa eleição dos EUA.

Mas ele é melhor ou pior para o Brasil?

Nossos políticos, inclusive o presidente, disseram que nada mudará nas relações Brasil x EUA. Claro que não mudará. Estão paradas e isoladas e os americanos nem olham mais para o Brasil. Mas que Trump será um desastre para nossos interesses comerciais, claro que será.

Nossos políticos estão tentando usar as mesmas estratégias de Trump, falar aquilo que muita gente quer ouvir, mas quando eles agem subindo preço das coisas, confiscando salários, confiscando aposentadorias, terminando com diversos programas sociais demonstram que são iguais a Donald Trump.

Podemos esperar pelo pior?

Sim, se o mundo inteiro vai mudar, porque estaremos nós com essa economia frágil, protegidos como disse o ministro da fazenda?

Esse comentário de que estamos protegidos foi o mesmíssimo comentário dito pelo presidente do Banco Central do Brasil em 1998, quando a crise daquele ano começou no México. Depois passou para a Russia. E por fim, quando chegou no Brasil, o goveerno de Fernando Henrique aumentou a taxa de juros Selic, numa única tacada para 50% ao ano!

O mais preocupante não é o novo presidente dos EUA. Mas duas coisas importantes.

A primeira é que o congresso inteiro é de Trump. Os Republicanos são maioria tanto no Senado quanto na Câmara. Tudo o que ele quiser, desejar e "comprar", vai passar.

A segunda preocupação será a grande onda de protestos que já está se formando. Esses ânimos aumentarão a medida que Trump começar a falar, discursar e provocar. E se aqui no Brasil temos brigas por divisão de classes, lá podemos multiplicar por 100. Não descartamos nem mesmo a hipótese de Trump sofrer vários atentados à sua vida.

A fantasia que ele criou, agora terá que ser realidade. Se ele começar a mudar sua opinião, os mesmos fazendeiros do interior que o elegeram vão perseguí-lo de armas na mão. Se Trump fizer o que promete, toda a rede de mídia vai perseguí-lo até um impeachment.

Então, não sejamos conformistas como prevê a teoria. Vamos observar e filtrar tudo, pois o mundo mudou, e para pior.

 

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