Quarta-feira, 3 de Dezembro, 2014

 

Uma conta impagável

Todo mundo já deve ter visto, ou presenciado, aquela cena famosa do cunhado que chega devagar e conta diversas histórias, cheias de rodeios para então chegar ao ponto fatídico de pedir um empréstimo. Depois de emprestar dinheiro, ele sempre aparece com presentes, às vezes caros como uísques importados, alguns eletrônicos e a pessoa que emprestou o dinheiro fica tranquila, achando que não terá problemas para receber.

E então o cunhado vai enrolando, enrolando, até que aparece pedindo só mais um pouco, porque ele aplicou o dinheiro mas ainda não recebeu e assim por diante. E essa história se arrasta por anos, até que um dia a casa cai. Toda família se vê envolvida, brigando e se separando, principalmente perto do Natal.

Os EUA estão na mesma situação. É aquele cunhado que todo mundo gosta, que pediu empréstimos, tem uma bela casa, carros do ano e todo mundo tem certeza que vai receber o empréstimo de volta. Mas nosso cunhado atualmente desistiu de tudo. Obama em seu segundo mandato jogou a toalha para as contas públicas. Impagável o empréstimo que o mundo lhe fez, e ainda por cima deram aos EUA o nome de mercado seguro, de títulos mais seguros do mundo!

Cerca de alguns anos atrás vivenciamos todo embate e briga no congresso dos EUA para aprovar as contas e dar ao governo de Obama 18 trilhões de dolares em créditos para tocar a vida pública. Mas nem isso parece que Obama desejou cumprir. Voltamos aos site do servišo fiscal federal dos EUA para verificar como andam os gastos de Obama. Nada bem.

No dia de ontem os EUA arrecadaram 1,756 trilhões de dolares e gastou 1,835 trilhões. Logo, um enorme deficit nas contas públicas de Obama.

Mas olhar apenas um dado não seria estatisticamente correto, ou mesmo honesto com o governo de Obama. Talvez fosse apenas um ponto isolado dentro das contas americanas. Afinal de contas, as bolsas americanas estão batendo recordes todos os dias. E agora no final do ano, já começa a velha conversa sobre o rally de final de ano.

Mas as contas estão cada vez piores nos EUA. A tabela abaixo nos mostra que nesse mês passado de novembro, Obama agiu como irresponsável, tão igual quanto qualquer outro governante do mundo, como no Brasil. Contas negativas em vários dias de novembro.

Mas poderia ser apenas nesses dias. Quem sabe no ano passado as coisas não foram melhores para Obama, que tinha enfrentado uma grande batalha para aprovação de seu plano de saúde para todos. Mas a triste realidade mostrou que não. Novamente, no mesmo mês do ano passado, Obama novamente gastou mais do que recebeu.

 

Mas então, quem sabe os gastos do início de seu mandato foram positivos, pois ele tinha toda a população ao seu lado depois da crise de 2008. Foi eleito como a salvação do país diante do rombo que Bush deixou os EUA.

Nada, infelizmente Obama sempre gastou mais do que arrecadou aumentando ainda mais o deficit americano. No gráfico ao lado podemos notar que não só o deficit americano aumento com Obama, como chegou pela primeira vez na história aos patamares de trilhões.

Em 2009 o deficit foi de 1 trilhão e 400 bilhões de dolares. Mas o que torna os EUA tão confiável assim? Mesmo demonstrando que não consegue economizar como um administrador de primeiro mundo, gastando como um inadimplente comum, ainda são confiáveis?

O que torna ainda os EUA seguro para o investidor de grande porte é que ele ainda produz muito. E também consome muito do mundo todo, fazendo com que seu PIB seja extremamente alto a ponto da dívida de um trilhão representar algo em torno de 10% (gráfico ao lado).

Obama vem garantindo que está trabalhando para diminuir a dívida, mas não eliminá-la. Isso é impossível, impagável. Nas contas fechadas de 2012 essa relação foi de 6%, muito melhor que a do Brasil que passa dos 50%.

E é essa relação que torna os EUA o cunhado bom, e nós brasileiros, o mau cunhado.

Tornar as contas apenas com superavit não significa muito para o mercado financeiro. Consumir muito e produzir muito fariam com que a relação dívida por PIB fosse mais baixa e confiável.

Nosso déficit nem de longe é um trilhão de dolares, mas quando relativizamos com nosso PIB, ela se torna preocupante.

 

Deficit dos EUA desde 2008

Relação dívida por PIB dos EUA

 

Histórico da relação defici/PIB nos EUA

 

 

Isso não quer dizer que os EUA algum dia não possa dar um calote global. Eles estão emitindo dinheiro virtual o tempo todo, dinheiro de plástico que não encontra lastro real.

Apenas em alguns poucos anos nos dados históricos, a relação deficit por PIB foi positiva, ou seja, teve superavit nos EUA.

Foi exatamente logo após a segunda guerra mundial, quando os EUA tornaram-se a potência bélica e exportadora do mundo e nos anos de 1998-2001.

Durante a segunda guerra mundial essa relação foi muito ruim, com 30% de dívida em relação ao PIB. E mesmo assim, com todos aqueles anos de chumbo, ainda o Brasil atual consegue ser pior.

Educação, saúde, e sobretudo honestidade são conceitos que nos prejudicam em relação aos EUA. Se os EUA tem uma dívida monetária impagável, nós temos uma dívida social impagável.

Nossa sociedade se corrompeu, se extraviou do rumo, onde a maioria deseja ser mais experta no trânsito, nas vendas, nos lucros e ainda culpam o governo. Todos os governos são reflexos da sociedade.

Nisso, em seu depoimento, o ex-diretor da Petrobras na data de hoje no congresso, falou a verdade. A corrupção está em todas as empresas do país, todas que prestam serviços aos órgãos públicos criticam os "prolabores" para se ganhar concorrência, mas gostam disso, pois ganham muito depois do processo fechado.

O gráfico ao lado mostra a relação do deficit dos EUA com cada um dos governos desde 1963 até o mandato de Bush filho.

Infelizmente para Obama, na próxima atualização dos dados no congresso americano, ele vai perfilar como o pior governo no controle dos gastos desde 1963.

Se existe alguma probabilidade de outra crise ainda nos pegar nos próximos anos, o mais sério dos problemas está exatamente nessas contas americanas. Se ocorrer uma crise de existência nos EUA, uma crise de moralidade para controlar os gastos, ela será a "mãe de todas as crises", pois todo mundo empresta e espera receber de volta o seu dinheiro dos EUA.

Até quando o dinheiro de plástico e virtual reinará ninguém sabe, mas o que acontece quando um calote acontece, todo mundo sabe e nunca ninguém se esquece. Assim como não podemos brigar com os cunhados, não podemos brigar com os EUA.

O último presidente brasileiro que tentou levantar a voz para os EUA ficou encaixotado entre a Inglaterra e Uganda (video do youtube na reunião de Florença, 21/11/1999). Quando Fernando Henrique Cardoso tentou explicar de maneira errônea que os capitais deveriam ser controlados, pois o Brasil sofria intensos ataques e essa era a causa de nosso rombo nas contas, o presidente Bill Clinton disse numa reunião na Itália: "O Brasil deveria aprender com o Chile, que controla a entrada dos capitais e ainda assim os investidores investem lá. Por que? Porque são confiáveis "

Poderíamos dormir sem essa desse cunhado rico, mas é a pura verdade.

 

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