Domingo, 1 de Outubro, 2017

 

A conta volatilidade da Petrobrás

No dia 30 de junho desse ano de 2017, a presidência da Petrobras anunciou a decisão de alterar os preços dos derivados de petróleo no Brasil diariamente. A nota dizia (ler reportagem completa aqui):

"...ajustes que vinham sendo praticados, desde o anúncio da nova política em outubro de 2016, com revisões uma vez por mês não tem sido suficientes para acompanhar a volatilidade crescente da taxa de câmbio e das cotações de petróleo e derivados, recomendando uma maior frequência nos ajustes..."

Num primeiro momento é uma justificativa bastante plausível. Para se manter uma empresa importadora e exportadora saudável é muito interessante acompanhar diariamente as variações que podem trazer prejuízos e se precaver de mudanças repentinas no mercado. Empresas desse tipo utilizam muito dos contratos futuros de moedas para evitar oscilações indesejáveis.

Mas mesmo para empresas de médio porte, não se vê alterações diárias nos preços de seus produtos. Claro, entre um contrato de demanda e outro sim, mas não diariamente. Por exemplo, mantimentos não variam de preço todos os dias (entre 1988 e 1990 sim, várias vezes ao dia). Ainda mais com inflação baixa, como diz o governo e os órgãos de medição.

O que vem a ser "volatilidade" a que se refere a nota? Nada mais é do que as oscilações, mas oscilações essas medidas através da medida estatística conhecida como desvio padrão. Nesse caso, para a estimativa da média de preços ficar confiável, ao redor do preço médio devemos adicionar e subtrair dois desvios padrões. Fazendo isso temos 95% de confiança em dizer que o preço médio é representativo.

Quando a volatilidade é muito alta, fora dos padrões observados anteriormente, as previsões começam a falhar e novas e mais constantes alterações de preços são necessárias.

O gráfico a seguir mostra dados entre os preços da ação da Petrobras (PETR4), negociada na Bovespa, e o preço do barril de petróleo em dólares. Tomamos dados desde janeiro de 2013 até junho desse ano a título de comparação.

Podemos reparar que o preço da ação da petrolífera estatal brasileira oscilou e seguiu bem de perto o preço do barril de petróleo. E nos últimos tempos o preço da ação tem estado bem acima, em termos de comparação, do preço de petróleo. A rentabilidade das ações da empresa ultrapassam as oscilações do preço do barril desde fevereiro de 2016.

Mas um gráfico que poderia justificar esse aumento diário diz respeito a tal "volatilidade", mencionada pela presidência da empresa. A seguir medimos essas oscilações desde janeiro de 2013 até junho desse ano também.

A curva azul anterior são as oscilações no preço do petróleo e a curva vermelha as oscilações da PETR4. O preço do barril realmente pegou a empresa desprevinida em novembro e dezembro de 2016 quando oscilou positivamente para mais de 15% no mercado internacional. Mas fora isso, o que se vê, são as oscilações no preço da ação muitas vezes superiores às do barril de petróleo.

Por exemplo, no final de 2015, enquanto a oscilação foi positiva para a empresa em mais de 20%, o barril caiu por volta de 15%. O mesmo aconteceu em abril e maio de 2015, quando as oscilações da PETR4 ultrapassaram 15% enquanto o barril ficou em 10%.

Soa bastante estranho esses aumentos diários atuais no preço da gasolina, diesel e gás como justificativa para compensar a volatilidade. Pelo menos em termos de barril de petróleo, não ocorreu nesses últimos 4 anos uma diferença tão grande assim. Pode-se utilizar, por exemplo, uma medida estatística para afirmar que não ocorreu essa variação ou defasagem dita pela empresa. Por exemplo, pela ANOVA (análise de variância) não se pode afirmar com 95% de confiança que existiu variação acima do normal no mercado internacional.

Do ponto de vista estatístico ou econométrico, a afirmação da presidência não condiz com esses dados. Se levarmos em conta que após junho desse ano os aumentos foram ainda maiores, essa variação, se exstiu, já deve ter sido compensada pela empresa. Mas vamos ver outros dados.

Poderia ser uma justificativa que os preços da gasolina estariam dando prejuízo à empresa.

Mas como o leitor poderá observar ao lado, os aumentos da gasolina desde janeiro de 2015 estão com volatilidade bem superior às oscilações do barril.

A diferença entre o que ocorreu com o preço do petróleo e o que ocorreu com o preço da gasolina internamente no Brasil, está bem claro no gráfico.

Claro que poderíamos justificar que o imposto cobrado pelo governo federal derrete os ganhos da empresa. Mas mesmo assim, o produto está dando muito lucro para a empresa desde há muito tempo.

Em termos de gás (GLP) esse é mais problemático. Esse é um produto muito ligado a população mais carente.

Pequenas alterações nos preços já causam grandes transtornos para pessoas de baixa renda no país.

Realmente o GLP (gás de cozinha) ficou durante anos "apanhando" das oscilações do preço do barril, como podemos observar ao lado.

No entanto, desde setembro de 2015 o GLP já subiu 26%, enquanto a inflação do período, apesar de alta, nunca esteve nesses patamares.

E como podemos observar, enquanto o GLP veio subindo, o preço do barril de petróleo veio caindo.

 

O diesel sempre foi um produto segurado pelos governos e sempre foi subsidiado. Isso atende aos interesses dos fazendeiros e industriais, pois se aumemtar demais seu preço, encarece o produto final ao consumidor.

Toda logística nacional está envolvida com veículos que se locomovem com utilização de diesel.

Também em outros tempos sempre foi um produto que ficou muito aquém das oscilações normais do preço de petróleo.

Mas observando ao lado, desde 2015 a variação foi de 26%, muito acima da variação da inflação ou mesmo da variação do preço do petróleo.

Talvez a empresa queira recompor perdas passadas, o que é compreensível. Mas às custas de quem?

Ou então, que a empresa seja honesta em dizer que o caixa está negativo há muito tempo e precisa de correções mais frequêntes.

O que soa, no entanto, bastante estranho é dizer que "devido as oscilações" do mercado as variações diárias são necessárias.

Isso não é verdade.

Desde o início do plano real, as políticas de alterações nos preços dos combustíveis são alteradas a cada novo governo. Mas nunca um absurdo de alterações diárias foram utilizadas a ponto de dizer que a estratégia do mercado obrigou a empresa a fazer isso. Se assim o fosse, na crise de 2008 seria perfeitamente justificável que isso ocorresse.

Mas não aconteceu.

E a empresa continuou com lucros, continuou com grau de investimento e o retorno de suas ações foram sempre lucrativos, mesmo com o mundo inteiro despencando no caos financeiro.

Ao investir nessa linha, a empresa e o governo mais uma vez estão jogando nas costas da população o custo pela oscilação dos preços, ou a chamada volatilidade. A população não deve pagar pela volatilidade, afinal de contas, dentro da área de finanças existem inúmeras maneiras de se prevenir a volatilidade.

Essa alternativa de mudança nos preços de forma diária tira a volatilidade da responsabilidade da direção e presidência da empresa e joga dentro da casa do cidadão, que já está estafado de tantos impostos. Mais uma decisão estranha dentro de uma política cruel contra o cidadão mais necessitado da população, visto que gás de cozinha está em todos os lares, do mais rico ao mais pobre.

É realmente necessária essa política de governo? O estado não deveria estar ao lado do cidadão mais necessitado e sem chances de se defender da volatilidade?

 

Gostou do texto?

FAÇA UM DONATIVO PARA O SITE

(R$ 2,00 ; R$ 5,00 ; R$ 10,00 )