Sábado, 01 de Setembro, 2018

 

Argentina quebrou!

Ninguém quer colocar pânico. Os noticiários do Brasil passam longe, longe, muito longe sobre a quebra da Argentina. Isso é óbvio que tem uma explicação. Se começarem a dar destaque mais forte em nossos noticiários, as pessoas vão correr aos bancos, principalmente os produtores no Brasil que conhecem bem as consequências de uma quebra argentina.

Quem tem mais idade vai se lembrar da quebra de 1988 e depois em 1998. Não demorou seis meses para que o problema chegasse aqui.

Enquanto na Europa e EUA as notícias sobre a Argentina são divulgadas passo a passo, aqui apenas se diz que o FMI vai emprestar dinheiro para a Argentina controlar sua crise cambial. Mas a crise é muito mais séria do que os nossos "protetores" jornais querem se privar de noticiar.

O gráfico a seguir é tudo o que os economistas mais liberais gostam. Qualquer problema, sobe a taxa de juros. E foi o que a Argentina vem fazendo desde 2008 e não consegue resolver seu problema de solvência ou controle financeiro. Pelo contrário, agora a taxa de juros básica está em 60% ao ano, em decisão tomada nessa semana pelo Banco Central.

É claro que não é o recorde mais absurdo do país vizinho. Como se pode observar abaixo, em 1988 e 1989 a Argentina elevou sua taxa de juros aos estratosféricos 1.400% ao ano. E o descontrole total lá naquele ano, chegou aqui no Brasil, no desastroso governo de José Sarney. Foi no mesmo período que tínhamos inflação de 89% ao mês.

Antes desse recorde argentino, podemos ver que em 1982 o país já testara outro recorde, ao redor de 400% ao ano. Foi a consequência da desastrosa "guerra das Malvinas", provocada pelos militares irresponsáveis que jogaram para a morte centenas de soldados jovens e despreparados para a guerra.

O objetivo era "salvar a pátria", "salvar o território" do ataque da Inglaterra à soberania "nacional". É o que os militares argentinos diziam nas entrevistas e pronunciamentos. Na realidade a guerra foi o último ato da incompetência militar para tratar com números e pessoas, comandados por Jorge Rafael Videla, Roberto Viola que depois passou o comando para Leopoldo Galtieri.

O gráfico ao lado é sobre as reservas internacionais da Argentina, expressa em dólares.

Pode-se perceber que está atualmente ao redor de 55 bilhões de dólares. É uma reserva que parece alta, mas ligou o alerta dos especuladores.

Pode-se perguntar: Mas ela está no nível mais alto historicamente falando?

É verdade, pois nesse dólar existe a inflação em dólar nos EUA e a inflação na própria Argentina.

No entanto, não é o que parece. O momento é tenso pois os especuladores fizeram o preço do peso se desvalorizar rapidamente e as reservas não são suficientes para manter a moeda estável.

E moeda instável gera confusão social, greves, aumento de desemprego e disparada dos juros.

Uma boa maneira de filtrar esses valores é transformando as reservas em logartimo natural, ou o conhecido LN.

Obviamente que LN está programado nas planilhas do Excel e todo mundo pode conseguir esses mesmos gráficos.

O LN é uma ferramenta matemática "mais democrática", pois dá o mesmo peso e valor aos dados, não se importando com a distância no espaço do tempo.

Quando usamos isso no mesmo primeiro gráfico, ele se transforma nesse segundo gráfico ao lado. Coisas interessantes começam a nos esclarecer.

Por exemplo, a guerra das Malvinas que no gráfico anterior parecia apenas uma pequena baixa nas reservas, mostra-se como uma severa crise.

Depois a Argentina enfrentou a crise de 1998 com a quebra dos títulos russos, que rapidamente chegou aos seus títulos. E com o aumento dos juros nos EUA, tivemos a crise "dot com", com a depreciação das empresas de tecnologia nos EUA.

Por fim, entre 2010 e 2015 as reservas da Argentina são somente quedas. Nos últimos dois anos elas aumentaram, mas voltaram apenas aos patamares de 2007.

Muito pouco.

 

Reservas Internacionais da Argentina

 

Reservas Internacionais da Argentina em logaritmo

 

Variação das Reservas Internacionais da Argentina em logaritmo

 

Cotação do peso argentino frente ao dólar nos últimos 3 meses

Só para termos ainda uma noção um pouco mais sensível, calculamos a variação anual em porcentagem das reservas da Argentina.

A parte debaixo do gráfico ao lado mostra dados negativos nessa variação e parte superior dados positivos de crescimento na reserva.

Aqui fica ainda mais claro do que os outros dois gráficos, o quanto as reservas da Argentina sofreram em ciclos.

Podemos mais ou menos "chutar" que desde 1978, a cada 10 anos a Argentina sofre uma grande crise provocada pelas especulações em sua moeda ou títulos públicos.

O que nos outros dois gráficos era apenas uma pequena oscilação, nesse gráfico é possivel ver uma sucessão de grandes perdas em sua reserva.

Durante a guerra da Malvinas o país teve quatro anos consecutivos de perdas. Dinheiro mais saiu do que entrou no país.

É possível notar que em 1987 e 1988 a baixa foi violenta nas reservas, o que corrobora com nosso segundo gráfico, mostrando a taxa de juros em 1400%.

O ataque especulativo foi violento à ponto de obrigar o governo a subir dia após dia a taxa de juros para satisfazer a ganância dos fundos abutres.

Depois o país sofreu em 1998, após isso voltou a sofrer com a crise de 2008 e, finalmente, chegamos nesse ano de 2018 no que parece ser uma nova e preocupante crise.

O índicio mais retumbante está ao lado, no gráfico da depreciação do peso argentino. Hoje um dólar compra 36,79 pesos, sendo que três meses atrás era apenas 20 pesos.

Ou seja, em apenas três meses, a desvalorização já bateu em 100%, visto que em seu recorde a moeda americana foi comercializada a 42 pesos.

Taxa de inflação na Argentina

Não bastasse tudo isso, a Argentina vê a inflação em ritmos fora da normalidade. A inflação acumulada de 12 meses passou dos 30% como pode ser visto no gráfico anterior. E justamente começou após outubro do ano passado, quando o presidente Macri começou a apertar o cerco como manda a cartilha dos investidores dos fundos abutres.

Ao apertar o cerco em investimentos públicos, cortar gastos em saúde e educação, o desemprego aumentou, estando hoje perto de 10%. Isso obviamente o número oficial, pois assim como no Brasil, o número de desempregados é muito maior.

Mas por que toda essa preocupação com a Argentina?

Em nosso texto de 2014 (ver "A Argentina vai nos Contaminar?") cujo resultado foi publicado em revista internacional acadêmica, mostramos que existe uma relação de rede e conexão entre os dois países. Segundo nossos cálculos, existe 15% de probabilidades de qualquer crise sempre acertar o Brasil em "cheio".

Parece um pequeno número, mas ao reforçar que nas últimas cinco décadas, sempre a cada 10 anos uma grande crise afeta a Argentina, se realmente o país ameaçar outro calote como feito no início dos anos 2000, o Brasil não escapará das chamas.

Por exemplo, diversos jornais do mercado financeiro já falam que a hora dos emergentes acabou. A notícia acima saiu há 15 dias atrás no Jornal da Bloomberg já alertando que todos os mercados emergentes estão à beira "do Urso". É a terminologia para quedas fortes provacadas por retirada rápida e volumosa com vendas de ações e títulos.

O poder de recuperação da Argentina é muito pequeno, com parque tecnológico restrito e suas commodities já enfrentam diversas concorrências mais fortes, ao contrário das décadas anteriores. Seria ela uma nova Venezuela? Nem tanto, mas o governo argentino e a Casa Rosada pode se preparar para o "Natal dos tumultos".

As panelas vão voltar às ruas nos próximos meses. As panelas estarão vazias de comida, mas repletas de raiva e ódio!