Quinta-feira, 14 de Julho, 2016

 

Crise é psicológica?

A cise é psicológica ou para psicanalista? Sim, porque para entender os políticos do Brasil e suas políticas econômicas só com médico ao lado e um receituário enorme de remédios. O governo interino de Temer consegue bater o recorde de frases e pensamentos ridículos, dignos de prefeitos do interior longínquo do país dominado pelo coronelismo.

A palavra chave do governo é cortar. Cortar a CLT inventando jornada de 80 horas, cortar benefícios de aposentados do INSS, cortar salários, cortar aumentos, cortar bolsas, cortar, cortar, cortar, mas, ... e cortar impostos? Temer gesticulando seus dedos como uma marionete com linhas invisíveis, afirmou nessa semana (novamenete) que é hora de todo mundo parar de falar em crise. Segundo suas palavras "médicas", "a crise é psicológica". No começo do ano, quando não era ninguém, cansou de vir com sorrisos à imprensa falar de crise.

Depois do horroroso texto conhecido por "uma ponte para o futuro", onde mais parece uma "pinguela para o futuro", com palavras jogadas ao vento, sem critérios ou dados e sem apontamentos numéricos confiáveis sobre cenários otimistas ou pessimistas, o "senhor mercado", alavancado pela ideia de que deve ajudar o governo Temer, trama de todas as formas a divulgação em alto e bom tom de que o pior da crise passou.

E para quem acha que o texto é bom, visitem os curriculum vitae de quem escreveu a longa poesia da fantasia necessária. Tem economista que fez doutorado fora do país e desde 2000 não escreve uma linha sequer que preste em termos acadêmicos. As publicações são apenas em revistas nacionais desprestigiadas e sem impacto internacional na área de Economia. Se o texto tivesse vindo de um prêmio Nobel em Economia, poderíamos pelo menos discutir a evolução do pensamento. Nessa pinguela do texto, não dá nem para monografia de final de curso.

O conhecido relatório focus é outro que não tem absolutamente nada de científico e serve como um bom objeto de estudo de como não fazer modelos, ou ainda, como fazer modelos que dão errado. Alardea que prevê queda uma inflação para dezembro de ... 2017! Isso é coisa de cartomante. Nenhum modelo matemático tem esse poder com dados de mercado financeiro. Em Mecânica Celeste, em Engenharia Espacial e diversas áreas de eletrônica sim, é possível esse tipo de previsão. Mas para mercado financeiro?

Alguns empresários estão aparecendo direto agora na televisão dizendo que estão vendo "uma luz no fundo do túnel". Claro, a maioria deles é ligada a Fiesp e estão ansiosos por uma jornada de 80 horas de trabalho e o fim da CLT. Ao invés de brigar com os governos (federal, estadual e municipal) para baixar impostos, se aliam ao governo federal para punir leis trabalhistas como causa da crise financeira. E a lei não é a causa.

Por fim, vem um jogo sujo estatístico. A equipe econômica agora deseja mudar os componentes da cesta básica (ver notícia de ontem no Estadão). Claro, vão retirar produtos que normalmente são mais caros para fazer os dados despencarem e iludirem a população que a inflação está voltando para a meta. E não está.

O gráfico a seguir apresenta a inflação acumulada de 12 meses. Onde está a melhora?

Inflação acumulada de 12 meses

Em março a inflação era de 9,39% e nesse mês de junho foi de 8,84%. Quem disse que 0,5% de queda na inflação é sinal de fim de crise? Qualquer bom aluno de matemática ou estatística, ou mesmo aluno que faça um bom curso de estatística dentro da grade de economia, saberá que essa variação está dentro do limite de igualdade. Ou seja, o desvio padrão desses dados de um ano é de 0,61%. A média de inflação com esses dados é de 9,72%.

Não se pode afirmar, mesmo considerando um intervalo de confiança simples de 70%, que existe variação perceptível e diferente do estado anterior para essa oscilação. Como então que irresponsáveis vem a público dizer que a previsão é de queda da inflação para dezembro de 2017?

Pode-se pensar que a queda na inflação mensal é sinal de melhora da crise. Ao lado colocamos os dados mensais, não de um ano atrás, mas desde 2013.

O leitor perceberá o fenômeno que sempre escrevemos aqui, sobre a tal da "sazonalidade". A seta vermelha mostra alta, que sempre ocorre no segundo semestre de cada ano.

Pode-se reparar claramente a queda (ou mudança de tendência para queda) da inflação no primeiro semestre e o aumento no segundo semestre. Todo ano é assim.

Não precisa ter bola de cristal para afirmar que a inflação voltará a aumentar no segundo semestre. Esse número mais baixo registrado no mês de junho, de 0,35% de inflação não significa nada. Em 2015 tivemos número ainda maior (0,22%) em pleno pico de crise!

Mas o marketing traiçoeiro da equipe econômica quer induzir a mídia (e sempre consegue pois número não é o forte dos jornalistas) que o pior passou.

E o que os analistas estão prevendo para o ano que vem, o leitor pode desconsiderar, é lixo acadêmico.

Inflação mensal

Previsão de inflação com modelos de 8 meses passados

 

 

Previsão de inflação (errada) para 30 meses à frente

Para mostrar que essa afirmação é real, vamos simular uma "previsão", a mesma feita pelos analistas tão experientes que ajudam a formular o tal "relatório focus".

O que se utiliza são modelos que já explicamos aqui por diversas vezes, conhecidos como "Séries Temporais" (ver nosso texto "Difícil fazer previsão?"). Esses modelos são limitados e dependem de dados passados para previsão de dados futuros.

Mas se o modelo usa 5 dados de meses anteriores, isso de maneira nenhuma significa que o modelo tem capacidade de previsão de 5 dados para o futuro. Isso é um erro. Quanto mais dados são considerados, mais a precisão teremos para .... somente UM mês a frente. Para dois ou mais isso se torna lixo acadêmico.

Ao lado usamos um modelo de Série Temporal com dados de 8 meses passados. A linha azul são dados reais da inflação e a linha com pontos vermelhos são nossas estimativas.

O leitor poderá observar que os pontos vermelhos estão exatamente em cima dos dados reais. Ou seja, esse modelo com dados de 8 meses atrás deu erro... zero! Mas para o passado.

A estimativa para a inflação futura se mostrou razoável, como podemos ver com um mês de previsão. Mas para 5 meses, o resultado que obtivemos é bastante discutível e provavelmente estará errado. O poder de previsão vai caindo, diminuindo, se exaurindo, indo para o ... lixo.

Agora vamos fazer a "fantasia" do relatório focus. Vamos prever o que irá acontecer para 30 meses à frente.

Ao lado está o absurdo que toda semana é lançado para os jornalistas saírem publicando. Pode ser observado agora que o modelo mostra uma inflação em queda, uma previsão de queda acentuada na inflação mensal para o final de ... 2018!!

Tudo errado. Agora a linha vermelha não serve para mais nada. Não tem sentido esse tipo de dado, esse tipo de informação, esse tipo de divulgação para afirmar que a crise está terminando e que estamos no caminho correto.

Isso se chama charlatanismo acadêmico.

O pior é que existem muitos, mas muitos analistas que nesse exato momento continuam a fazer esse tipo de aberração. Num curso de Econometria básico estaria reprovado, e se insistisse, novamente seria reprovado de novo. Mas o problema é que esses alunos passam pela faculdade, são avaliados, aprender que é errado, mas quando entra dinheiro em cena, jogam tudo no lixo.

E como um dia vão acertar sua previsão, com dois meses seguidos de pura sorte, vão correr para a imprensa e provavelmente vão divulgar aberrações como essa.

Claro que isso serve tanto para ajudar algum governo como para prejudicar. Se retirarmos um ou dois meses do modelo de Série Temporal que usamos, poderemos ter uma "alta explosiva" da inflação e colocar logo na segunda-feira que a política econômica está piorando o cenário brasileiro. Sim, isso foi feito até dois meses atrás, com a mesma aberração que mostramos agora.

A crise é psicológica? Diga isso ao pai de família que acabou de perder o emprego. Faça uma visita aos "novos" grupos de moradores de rua, que estão pegando suas coisas, seus filhos e montando tendas pois não tem como pagar aluguel. Onde está a psicologia disso?

Qual a solução?

Temer já estragou tudo de novo. Primeiro colocou um orçamento todo irreal para justificar seus gastos futuros, com a colocação dos comparsas políticos em cargos administrativos. O toma lá, dá cá está absurdamente expressivo. Os gastos estão ainda maiores do que o governo anterior, e pior, com a aprovação de congresso nacional empilhado de corruptos, que deram um cheque em branco de R$ 140 bilhões para o ministro da Fazenda.

A verdadeira solução seria diminuir de verdade o número de ministérios, cortar gastos do próprio governo e não de fantasia. O governo fica cortando bolsa disso, bolsa daquilo enquanto um Senador custa aos cofres R$ 30 milhões por ano! Imaginem o congresso todo? Por que não cortar a própria carne. Por que o governo não propõe corte de verbas do legislativo, do judiciário, de órgãos que nada contribuem?

E Temer é louco?

Bom, pode ser que sim. Para um presidente da República dizer que crise é psicológica, não deve ser uma pessoa normal ou honesta com seu povo.

 

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