Quinta-feira, 8 de Fevereiro, 2018

 

A silenciosa crise financeira

Quando jovens, nessa época do Carnaval, quantas bocas não se beijam?

É aquela época que para os jovens, tudo pode, tudo está liberado, tem que aproveitar de tudo antes que os dias terminem. O problema vem depois. Muitas doenças começam a aparecer e a mais frequente é o resfriado com gargantas inflamadas. Claro que tem as doenças com transmissão sexual, que nos dias atuais não deveriam mais aparecer com a enorme gama de proteção disponível. Mas ainda assim, aquela que aparece com frequência logo na semana seguinte é a garganta inflamada.

Após a "farra", com milhões de bactérias circulando entre as bocas, muitas delas não são "previstas" dentro do catálago imunológico do nosso corpo. E muitas bactérias nesses dias sofrem mutações, adquirindo novas formas de resistências contra os anticorpos. E se uma dessas pessoas acabou de chegar do hemisfério norte, certamente os vírus tipo influenza da gripe vão adorar esse ambiente profano de proliferação.

Entre bactérias e viroses o pós-Carnaval é um terror.

Isso é para nos lembrar, que durante a farra, a crise já está instalada. O negócio é se prevenir para ter um quadro mais leve dos problemas que vão surgir, tomando vitaminas, exercitando-se para fortalecer o sistema imunológico, comendo muita fruta e bebendo muita água (não apenas a cevada).

No mercado financeiro, via de regra, os analistas midiáticos são como jovens no Carnaval sem proteção. Esses tais "formadores de opinião" que ganham zero para publicar suas besteiras de projeções nunca aprendem. Têm medo de assumirem uma posição diferente dos colegas e sofrerem com gracinhas nas redações, nos meios em que trabalham, entre os colegas ou no seu facebook.

Então, é mais confortável falar aquilo que todo mundo quer ouvir durante a farra. Claro, já imaginou alguém começar a falar que o carro de som poderá quebrar no meio da dança na multidão?

Uma crise financeira não vai dizer: "Olá, estou aqui!". Todo mundo vira o rosto para esse tipo de mensagem. Bolsas subindo, Temer contando mentiras com números errados do Meirelles, inflando dados do rombo da previdência, colocando terror em aposentados e quem terá coragem de dizer que já estamos no meio da crise?

Quem vai contra essa maioria de jornalistas que insistem em tentar colocar na cabeça das pessoas que juros baixos e baixa inflação é um sinal claro de que a crise acabou?

Só como exemplo, e o leitor poderá procurar outros nos acervos dos jornais, voltamos para 2007. A euforia era total, o mundo estava eufórico e poucos "loucos" diziam: "olhem, tomem cuidado, a canoa vai virar". Quem dizia isso na época era nomeado de "Dr. Doom". E 2008 virou, e os mesmos analistas, jornalistas econômicos e blogueiros "formadores de opinião" quebraram a cara e muitos perderam seus empregos.

No dia 29 de dezembro de 2007, a "infalível" FGV anunciava na Folha de S.Paulo que a demanda indicava que a procura interna forte, prevendo um ano de 2008 com nível mais alto desde 1987. E não foi.

No mesmo dia, um alto empresário da Oi saía numa foto, apoiado numa porta de vidro, sorridente, confiante, influenciador, afirmando que em 2008 a Oi seria consolidada na telefonia. A Oi faliu, está em recuperação judicial e corre desesperadamente atrás de comprador ou do dinheiro do BNDES. Errou também.

 

Reportagem interna do jornal, no mesmo dia, colhia opiniões diversas sobre como seria 2008. Enaltecia que a Bovespa era a segunda maior do mundo em rentabilidade. Estava batendo inclusive as bolsas asiáticas! Hummm, ninguém parou para pensar que algo estranho estava ocorrendo? Se os países asiáticos são os maiores exportadores, como poderia o Brasil, ainda começando a sair da crise de 2002 ter a melhor bolsa do mundo?

 

E que tal essa outra? Depois de gritar em alto e bom tom que nossa bolsa era a melhor desde 2003, analistas diziam que a expectativa era de que os ganhos prosseguissem.

E ainda teve outro que afirmou: "Pelas projeções de analistas financeiros, 2008 promete ser mais um ano de ganhos para os mercados acionários". Errou.

Não basta falar com base no presente, nem somente no passado. Mas devemos observar o passado, tentar colher informações sobre determinados padrões para tentar formar opinião. Errar é muito natural nessa área, uma vez que o objeto observado interage com o meio. Se dizemos que a bolsa está no máximo, pessoas podem vender com medo que ela caia. E a afirmação de que a bolsa vai continuar aumentando os ganhos se torna falsa. O investidor mexeu com a análise do analista, ao mudar de opinião.

Mas o que não pode, é sempre insistir em aproveitar dados do presente e achar que tudo vai seguir como está. Isso nunca foi assim. Se subiu demais sem fundamentos, a mudança de trajetória é quase certa.

Esse tipo de informação não está apenas em nosso livro "Mudanšas Abruptas no Mercado Financeiro". Essa informação está em diversos livros de finanças de mercado, na verdade, centenas de livros apontam para esse fato. Mas os jovens analistas insistem em enfrentar o padrão e se acham mais expertos do que acadêmicos ou professores. Eles acham que ficar o dia todo olhando telas de computadores serve como instrumento de entendimento do mercado financeiro.

E então, caem na silenciosa doença pós-farra, assim como no Carnaval.

Só para voltar um pouco, em 2007 a China crescia a exuberantes 10% ao ano. O mercado chinês bombava, com variações positivas de 500 a 1000 pontos por dia em suas bolsas.

Mas então, quando atingiu 33 mil pontos, parou e ficou oscilando. Em novembro, uma queda muito forte ocorreu no índice Hang Seng Index (HSI).

Essa queda forte não se propagou para os outros países. Dow Jones sentiu um pouco no dia seguinte, mas se recuperou dois dias depois.

O que ninguém percebeu é que ali estava um problema sério. Aquele "balançar" indicava que a tendência de alta mudaria.

Muitos com aquela queda, que parecia inofensiva, perderam quase tudo na China. Eram aposentados apostando no HSI que viram as economias quase virar pó.

Com isso contratos em empresas, consumos, construções, tudo parou. E na China, quando falamos que tudo parou, estamos falando de 500 milhões de investidores e não apenas 200 mil como no Brasil.

Daquele dia para frente, o mundo mudou e a gripe financeira atingiu a todos, em especial, o grande e imbatível elefante do Lehman Brothers.

O exerício que fizemos ao lado, foi tomar os mesmos dias de negócio no ano de 2007 até fevereiro de 2008 e comparar com 2017 até fevereiro de 2018.

Os dados ao lado estão separados por 10 anos de negócios. O que se vê é que no mês de outubro para novembro de 2007 o Hang Seng virou forte.

E não parou mais até a crise global em setembro de 2008. A linha laranja representa os dados do ano passado até esse mês de fevereiro de 2018.

Temos agora uma correção forte para o HSI que parece deslocada do padrão de 10 anos anteriores.

 

 

 

 

Deslocamos então os dados de 2017/2018 em 3 meses completos. O resultado está no gráfico ao lado.

Ao que se vê nesse gráfico, apesar de valores mais altos em pontuação em relação a 10 anos atrás, o padrão de quedas se repete nos dados.

E com essa defasagem de 3 meses, novamente, como 10 anos antes, o HSI caiu forte e continua com tendência de queda.

É natural ele se recuperar um pouco, onde todo mundo acha que a queda já foi recuperada Mas na semana seguinte volta a cair mais forte.

Esse movimento de "puxa-estica" acaba por levar os fundos mais duros e rígidos, com menos diâmica a sofrerem mais.

Se são fundos ou bancos alavancados em ativos de alto risco, quando viram pó, levam o desespero de quem perdeu tudo.

Foi assim com o "imbatítvel" Lehman Brothers. E quase com o Goldmann Sachs, que correu de chapéu na mão ao FED nos EUA.

O desespero era claro no rosto de seu CEO em entrevistas na Bloomberg, Lloyd Blankfein. De imponente CEO estava parecendo um novato prestes a perder seu emprego.


Novamente, como em 2007, pouco se comentou das quedas fortes nessa semana no Hang Seng ou no Shangai Composite. Parece que foi uma queda na semana não muito influenciadora. Mas foi.

É verdade que quem provocou a queda nessa semana de 2018 nos mercados asiáticos foram os fundos do Dow Jones, Nasdaq e SP500. Inventaram a tal "presunção" de aumento na taxa de juros dos EUA para venderem ações. É óbvio que eles já estavam posicionados no mercado futuro na ponta vendida.

Realmente esses fundos estão ganhando muito nesses dias, mas quando tem o solavanco de alta eles tem que sair correndo mudar a direção. E como comentado antes, esse movimento de "puxa-estica" vai deixar alguém grande não preparado no chão.

E já começou.

O "grande" e "imbatível" Credit Suisse foi liquidado com essa pequena queda de segunda-feira passada. Quebrou.

 

Outro que quebrou nessa semana foi o Nomura Europe Finance que tinha 32,4 bilhões de yen em investimentos. Em dolares o fundo perdeu num único dia US$ 297 milhões. Não devolveu nada aos investidores.

Silêncio, essa é a virtude do Demônio. Ele não sai por aí alardeando que vai causar pânico, ele apenas executar suas maldades comendo pelas beiradas. Cabe aos pobres humanos perceberem sua sutileza. Ao ficar extasiados com as farras nas altas das bolsas, analistas se cercam de otimismo e cegam os investidores.

E com o silêncio, a nova crise financeira parece se espreitar, doce, calma, suave, para abocanhar suas presas financeiras, como ratos que rugem como leões, mas sempre serão ratos.