Sábado, 2 de Dezembro, 2017

 

O custo do irracional econômico

 

 

Caro leitor, vá a um congresso e tente falar para economistas sobre o aquecimento global. Risos irônicos, perguntas sobre a confiabilidade dos dados, contrapontos sobre metodologia e claro, o máximo da resposta que: "... não há consenso sobre a relação entre queima de petróleo e aquecimento global ...".

Errado.

Há um consenso entre cientistas de peso e com currículos impecáveis que a queima de hidrocarbonetos é a principal reponsável pelo aquecimento global. O que não há consenso é sobre a velocidade do aquecimento e as consequências. Os poucos que defendem a não relação entre petróleo e aquecimento são aqueles que recebem verbas das petrolíferas. E que por sinal, tem espaço na grande mídia para a divulgação de dados não aprovados por cientistas.

Já escrevemos algumas vezes aqui sobre a deterioração do nosso clima devido ao aquecimento global, como no texto "A mudança rápida no clima". Vamos observar novamente a curva da emissão de CO2 no mundo.

A disparada da curva da emissão de CO2 é evidente no gráfico anterior e em qualquer outro gráfico que se demonstre a trajetória sobre gases de efeito estufa, tal como o dióxido de carbono. O ponto vermelho na curva mostra o momento em que a curva começa sua alta exponencial até os dias de hoje. No site Timo Grossenbacher Labs é possível observar a produção e o consumo de petróleo por todos os países do mundo desde 1965. Ao olhar para o gráfico de produção e consumo de petróleo, essa é a curva que se apresenta:

A produção e consumo de petróleo no mundo não diminuíram desde 1965, com apenas uma queda leve nos anos 90, como parte de estratégia árabe para aumentar o preço do barril. No site é possível visitar outros eventos com outros países e observar que a emissão veio de todos aqueles que consomem petróleo e dependem dele, sendo estas as maiores economias do mundo.

Outro site interessante é Our World in Data que possibilita que seus dados sejam baixados em planilha Excel e todos podem checar as informações que estão em seus gráficos. Um dos dados que baixamos foi sobre o custo econômico decorrentes das tragédias naturais desde o ano de 1900.

Grande parte dos "cabeças econômicos" estão sempre pensando em lucro, em dinheiro, em retornos positivos, em mercado de derivativos, em mercado futuro e aqueles que pensam no bem estar social, são excluídos dos círculos de Davos. Raras são as vezes que economistas preocupados com o lado social da população são levados à sério. Isso só acontece quando esse tipo de trabalho recebe um nobel, mas via de regra no círculo comum, economistas do lado social não são bem recebidos no meio financeiro.

Mas já que o mercado financeiro se acha tão importante para a vida das pessoas, onde o lucro (receita - custos) vem em primeiro lugar, o irracional resultado deveria chamar a atenção para as previsões de longo período. Vamos ter sérios problemas em menos de 10 anos.

O gráfico a seguir mostra os custos de 1900 até hoje relacionados a todas as tragédias ambientais, tais como enchentes, fogo, deslizamento de terras, terremotos, furacões, etc.

 

 

Observamos que a partir de 1992 os custos para consertar casas, arrumar cidades, disponibilizar créditos, ajudar seguradoras, enfim tudo o que relaciona dinheiro e tragédia, chegou a casa dos 350 bilhões de dolares. Mas esse gráfico engana, pois não coloca democraticamente todos os dados em suas perspecitva correta. O melhor a fazer é transformar esses dados em logartimo natural (no Excel é a função LN). E quando fazemos isso, tudo fica mais claro.

 

 

Como podemos observar, os custos para arrumar estragos provocados por desastres naturais explodiu e não voltou mais aos mesmos níveis a partir de 1962/1965, exatamente no mesmo período quando ocorreu a explosão de produção e consumo de petróleo. E por consequência, como mostramos no primeiro gráfico, quando as emissões de gases de efeito estufa dispararam.

Para ser mais específico, vamos olhar alguns desastres em particular e seus custos medidos em logaritmo natural.

Ao lado selecionamos as enchentes. Quanto o mundo gasta com ecnhentes? Em escala de dinheiro já está beirando os 70 bilhões de dolares por ano.

Em escala log natural, vemos ao lado que desde 1977 os custos com as enchentes só aumentam. Uma redução seria quando o log se torna negativo, o que não ocorre há 40 anos.

Que racionalidade econômica é essa, onde não conseguimos barrar as despezas com um desastre provocado por chuvas?

É só olhar o que disse o prefeito de São Paulo, que: "em janeiro teremos com certeza desastres com enchentes". Sabemos disso e... não faz nada?

E as enchentes ocorrem devido a que?

Chuvas, ventos, tornados, ciclones, etc.

Esses fenômenos naturais estão relacionados ao aumento de temperatura, que por sua vez está relacionado com o aquecimento global, que por sua vez se relaciona com a queima desenfreada do petróleo.

E ao lado, colocamos os custos para consertar estragos e ajudar pessoas atingidas por esses eventos conhecidos como clima extremo.

Também observamos o mesmo fenômeno no logaritmo do custo.

Desde o período entre 1967 a 1970 que os gastos com clima extremo só aumentam.

 

Custo com reparo e obras para enchentes

 

 

 

Custo com reparo para clima extremo

 

 

 

Custo com terremotos

 

 

 

Então, como humanos, devemos colocar a racionalidade como prioridade e ouvir uma comunidade acadêmica e cientifica séria que está dizendo a décadas que algo está errado em se queimar petróleo.

Todo dinheiro que os árabes ganharam poderá se perder em breve, com tragédias que também vão lhes assolar. Seja pelo aumento no nível do mar, seja pelo aumento na frequência de tempestades de areia no deserto, seja por qualquer outro tipo de desastre natural, as coisas vão mudar em breve.

O IPCC que é um painel sobre o clima cordenado pela ONU, o qual Donald Trump ordenou que os EUA saia, já disse que estamos num ponto quase irreversível.

Ao se observar a curva de log dos custos anteriores, podemos afirmar que, em termos de custos acumulados, esse ponto já se foi.

Vai ser difícil trazer a curva de log natural para números negativos em curto prazo. A tendência do log está relacionada com a tendência de nossos atos. Não se traz uma curva de log de um ano para o outro para o lado negativo.

Isso porque temos a inflação nesses custos e mesmo parando agora, só daqui 10 anos poderíamos ver o log natural negativo.

E sem contar que existem desastres que estão previstos ainda mais sérios que não aconteceram.

Por exemplo, os terremotos.

Já passou o tempo previsto pelos cientistas para o "big one", o grande terremoto que poderá destruir várias cidades na Califórnia.

Apesar de não termos terremotos no Brasil, os custos com eles para os outros países vem aumentando ano após ano, como vemos no gráfico ao lado.

Um grande terremoto poderia abalar a economia mundial, assim como aconteceu em 1907 em São Francisco nos EUA. Após esse terremoto as seguradoras faliram e os bancos faliram logo em seguida. Ler nosso texto " 1907: o ano que New York faliu".

Existem tragédias que não podemos evitar, mesmo com previsões de longo período. Por exemplo, terremotos são impossíveis de se prever, apesar das pesquisas evoluírem muito. Mas enchentes, furacões, ciclones, isso tudo é previsto com semanas de antecedência. A ciência já trabalhou muito para termos métodos bastante confiáveis nessa área.

Então, se podemos evitar tudo isso, por que deixamos chegar nesse ponto?

Ou melhor, se poderíamos ter evitado, como deixamos chegar até aqui? Somos mesmo pessoas racionais como os economistas gostam de admitir em seus modelos lineares e discretizados no tempo? Que hipóteses mais malucas são essas, se mesmo com dados e centenas de cientistas provando que o petróleo é a causa de tudo isso, ainda assim, por conta de um papel que permite alguém se achar mais importante do que outro, economistas do mercado financeiro dão de ombros para esses fatos?

A irracionalidade vai dar lugar a racionalidade. Mas quando isso ocorrer, será tarde demais. Na verdade, já é tarde demais. Agora é só assistir as próximas tragédias naturais.