Quinta-feira, 29 de Setembro, 2016

 

Nova Década Espacial

"Viemos em paz em nome de toda a humanidade".

Essa é a frase deixada na lua pela missão espacial Apollo 11 em 1969, em placa comemorativa ao lado das pegadas dos astronautas. Foi o fechamento de um projeto que começou a se acelerar 10 anos antes. Para a época, um monstruoso projeto da Nasa, que contou com mais de 100 mil colaboradores diretos e indiretos. Muitos professores brasileiros fizeram parte desse enorme projeto, um dos quais tivemos a honra de conhecer e ouvir suas histórias.

E nessa semana, duas notícias empolgaram a comunicade científica espacial. A primeira notícia foi sobre a participação de Elon Musk, dono do Paypal, dono da Tesla Motors e agora dono da SpaceX, o empreendimento responsável pelo projeto e missão tripulada de viagens espaciais à Marte. Foi uma apresentação de congresso, com simulações, com gráficos e exposições de fotografias a partir de computação gráfica sobre como se procederá a viagem até Marte.

O projeto é apenas um esboço, longe de dar certo, ainda mais para lançamento em menos de 10 anos levando cerca de 100 pessoas até o planeta vermelho. Foi claramente uma boa jogada de marketing para atrair novos investidores, mão de obra acadêmica e marcar território para um início de corrida espacial.

A SpaceX tem mostrado bom desempenho até o momento. Por exemplo, eles conseguem lançar um foguete, colocar em órbita um veículo de carga que já ajuda a Estação Espacial e seu tanque é retornável, pousando sozinho com controle automático seja em plataforma móvel ou fixa em Terra. Isso a Nasa não faz, apenas deixando cair seus tanques de lançamento no mar e recuperando através de embarcações.

Mas muita, muita, muita coisa ficou de lado na apresentação. E cada uma dessas minúcias podem atrasar os trabalhos e a finalização do projeto em muitos anos. Elon Musk não disse como as pessoas da viagem (que poderá durar entre 80 a 150 dias) ficarão ao chegar em Marte.

Será montada alguma estrutura básica para essas pessoas se locomoverem? Alguma estrutura exisitirá em solo para elas deixarem a nave? Que tipo de refeição elas farão? Qual o espaçamento para novos envios de alimentos? Como serão os cuidados médicos?

Um dos grandes problemas ao chegar à Marte é na reentrada atmosférica. A reentrada no planeta será severa, com uma enorme desaceleração provocando uma temperatura de aquecimento de mais de 1.600 graus celsius. Esse foi um gargalo enorme para os onibus espaciais da Nasa.

As placas de proteção se soltavam em todas as viagens, comprometendo o retorno. Foi numa dessas viagens que as placas se soltaram e no retorno do onibus Columbia ocorreu a explosão fatal matando todos os tripulantes da missão.

Está previsto na missão, o reabastecimento ainda em órbita da Terra antes da partida final. Mas e se na reentrada esse foguete tanque explodir? Quanto tempo demorará para enviar outros? Será uma produção em série desses foguetes? Muito dificil ter mais de um. O próprio Musk detalhou os custos, que são extratosféricos.

Elon Musk comparou o preço de um Boeing 737, mostrando que o reaproveitamento com o tempo diminui absurdamente os valores, afirmando que, se um boeing fosse utilizado apenas uma vez, uma viagem custaria US$ 500 mil por pessoa. Com reaproveitamente em milhares de viagens o custo cai para US$ 43.

Para o caso do projeto de viagem à Marte, o custo dos foguetes é de US$ 230 milhões, o custo dos tanques é de US$ 130 milhões e o custo da nave que levará as pessoas é de US$ 200 milhões. Segundo o projeto a nave terá vida útil de 12 viagens para Marte. O custo por tonelada é de US$ 140.000.

Para justificar o empreendimento, Elon Musk afirma que tem condições de colocar 1 milhão de pessoas em Marte e fazer esse custo cair para US$ 230 mil até o fim do século. Mas para isso o projeto precisa ganhar cara de projeto. As pessoas não irão até Marte para ver, ficar uma semana e voltar. E também não viverão em Marte dentro de uma nave espacial, esperando veículos cargo trazer mantimentos. Será que eles plantarão algo no solo?

Cá para nós, as pessoas selecionadas pagarão para ir até Marte. E com certeza essas pessoas não serão agricultores, cientistas, biólogos, pelo menos na visão de Musk. Serão pessoas comuns interessadas em "comprar um terreno em Marte".

Outro ponto falho. E a comunicação com o comando da Nave?

Hoje existe um delay enorme de 20 minutos para para o sinal de telecomunicação percorrer distâncias que variam entre 100 a 400 milhões de quilômetros entre a Terra e Marte. Os atuais robôs da Nasa gastam 40 watts de potência com uma antena de 12 kilobits/segundo. Como o projeto vai contornar o problema do atraso?

Nada foi dito.

Por fim, o projeto quer colocar 16 supermotores ligados o tempo todo para aumentar a velocidade de cruzeiro. Mesmo assim, a nave está presa à natureza. A tranferência deverá seguir uma órbita, conhecida como órbita de transferência de Hohmann. Ela é matematicamente provada como a melhor transferência possível entre órbitas.

Ao acelerar demais, essa nave espacial terá que frear mais para poder entrar na órbita de Marte. Painéis de frenagem e motores de retropulsão vão frear a nave. Pois bem, como serão feitos esses sistemas? Quais os componentes para tamanha diminuição de velocidade. E se alguns foguetes falharem? Cem pessoas morrerão em órbtida de Marte?

E a radiação? A nave protegerá as pessoas da longa exposição de radiação? Se morrer alguma pessoa nesses dias, como farão com o corpo? Jogarão no espaço ou colocarão em câmaras congeladas?

A grade de teste mostrada apenas apresenta uma única viagem teste não tripulada por volta de 2022. A Nasa testou 10 viagens antes de enviar a Apollo 11 e ainda assim astronautas morreram num desses testes. Fora isso a Nasa ainda tinha missões antes da Apollo para aprender na prática como fazer tranferências, acoplagens, acelerações, reentradas, etc.

Do jeito que está, impossível dar certo esse projeto.

Mas é um projeto para chamar a atenção e conseguiu. Isso é muito bom, esse é o lado superpositivo da notícia. Agora ele poderá tentar convencer mais pessoas a se aproximar da SpaceX, para ajudar a tornar realidade esse sonho. Melhores cientistas poderão se associar, empresas maiores, fundos de investimentos, novos governos.

Para isso, no entanto, é fundamental que nada de errado até 2020 ou 2022, quando o evento teste está programado para ocorrer. Se um foguete explodir, ou der errado qualquer tipo de tentativa da grade mostrada, investidores vão pressionar e quanto mais isso ocorrer, maiores as chances do projeto falhar.

Paralelo a esse projeto a Nasa prevê o envio de 6 astronautas a Marte, mas somente em 2030.

Mas o projeto da Nasa é bem mais interessante e completo. Após um ano confinados num casulo, simulando ambiente marciano, astronautas deixaram o ambiente estressados. Foi uma espécie de reality show, no entanto, com motivação científica.

Todos relataram as brigas diárias após um tempo de convívio, devido as tarefas do dia a dia, o tipo de relacionamento entre cada um, as manias que todos nós temos e assim por diante.

Isso porque estavam no planeta Terra, pertinho de casa, sem problemas de saúde, com todo amparo da equipe médica da Nasa.

O que aconteceria a 400 milhões de quilômetros respirando oxigênio filtrado o tempo todo, sem a certeza de poder voltar para a Terra?

Com certeza, aqueles filmes de terror sobre "morte em marte" ou algo do tipo, além de alucinações se tornam cada vez mais próximos da realidade.

Mas essa semana foi interessante, porque esses movimentos de marketing científicos são um alento, mostrando que a vida segue, e precisa mesmo seguir.

Ambiente simulado de Marte em deserto nos EUA

 

Foto de Europa - Telescópio Hubble

Reflexo da pluma de vapor em Europa

 

A outra notícia é mais real.

Podemos mesmo ter vida fora da Terra. Mas ainda não são os E.T., mas microorganismos (que são E.T. também) vindos da lua Europa de Júpiter.

Após analisar diversas fotos do telescópio Hubble, além de dados das sondas espaciais, a Nasa confirmou o que todo mundo desconfiava.

Existem geisers gigantes em Europa espelindo material que pode conter vida! Por que da animação?

O material espelido é quente, vulcânico e atinge mais de 100 Km de altitute, jogando no espaço detritos e provavelmente muitos organismos vivos.

A certeza de se ter organismos vivos, é que na Terra em profundidade dos abismos submarinos do oceano Pacífico, onde colunas de água jorram dentro do oceano a mais de 100 graus, foram encontradas bactérias e microorganismos completamente adaptados.

Se forem do mesmo tipo, essas colunas de vapor podem conter organismos como os que vivem nas profundezas do oceano. Daí a Nasa convocar uma coletiva sobre a possibilidade de vida em Europa.

Com isso, missões futuras já estão sendo desenhadas para chegar a lua Europa, com sondas robôs para extrair material das calotas e fazer testes.

Será realmente empolgante dentro de alguns anos, a comprovação de algum tipo de material biológico vindo de Europa. Claro que não será uma tarefa fácil, mas as sondas já estão sendo preparadas para as viagens.

E diante do sucesso dos robôs e sondas do passado, com certeza teremos em breve novas e fascinantes notícias dessa área.

Mesmo em Marte também já se sabe do gelo na calota polar. Muito provavelmente esse gelo deve ser de água, o que, se comprovado, poderá incentivar mais ainda os projetos de viagens para Marte.

O grande empecilho no momento é água. Sem água, não tem conversa. Não teremos missões importantes e sérias para o planeta vermelho.

É realmente lamentável, que com esse fervilhante cenário, estamos aqui num Brasil medieval, num Brasil arcaico, discutindo coisas que outros países já discutiram há mais de 50 anos atrás. Discutir assuntos básicos como a educação, com projetos colocados apenas como medidas de eleição enquanto o mundo anda para o futuro, transforma a cada dia nosso país como uma aberração política da natureza.

Educação, Saúde e Ciência deveriam ser indiscutíveis. Os salários dessas áreas ligadas ao setor público deveria ser prioridade, deveria ter qualidade e verba, muita verba para projetos audaciosos. Enquanto vemos a Nasa descobrir vida em lua de Jupiter, enquanto vemos empresário com projeto querendo ir á Marte, paramos no tempo para brigar com ignorantes que além de não ajudar mata o ânimo e causa desinteresse entre aqueles que deveriam ser nossos futuros cientistas: os jovens do ensino médio.

 

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