Sexta-feira, 22 de Abril, 2016

 

Nova epidemia brasileira: Demência de poder

No ano 37 DC o imperador Calígula tornou-se imperador de Roma, iniciando uma série de episódios bizarros no reino para a obtenção do poder absoluto. Mas a loucura de Calígula, ou suas festas de orgias, eram toleradas pelos políticos da época. Calígula não reinava, não se preocupava com problemas políticos. Então, para os corruptos senadores da época, ele poderia brincar à vontade, desde que eles continuassem roubando o povo de Roma sossegadamente.

Os problemas de Calígula começaram, quando ele resolveu se intrometer na política, tentando diminuir o poder dos senadores da época. As críticas à sua loucura ou sua incapacidade de governar foram tornando-se mais públicas, mais debatidas, mais criticadas abertamente. E claro, como sempre Calígula teve propensão a loucura desde criança, seu isolamento e poder fizeram-no exacerbar uma séria demência, hoje conhecida como demência de poder.

A pessoa com demência de poder se esquece da realidade. O doente vive sua própria realidade, cria suas estórias virtuais, elabora tramas no cérebro ou combate fielmente os opositores a ponto de assassiná-los em favor de suas ideias que, para ele, são corretas. Locais de trabalho muito fechados, com reuniões secretas entre chefes e coordenadores, ou a divisão entre grupos de amigos, aumentam o grau de demência.

Muito disso se vê em escolas públicas ou privadas, faculdades e universidades. Não é novidade nenhuma o alto grau de afastamento de professores do esnino fundamental e médio no Brasil. As pessoas que não conhecem o ambiente de trabalho, inclusive os governadores e prefeitos, chamam esses casos de "sem-vergonhice" dos professores.

Sim, existem casos de safadeza por falta de clareza na regulamentação dos afastamentos, mas a grande maioria realmente se deve ao fator psiquiátrico. Normalmente o que se vê são professores que não tem o poder de controlar uma sala de aula, que não podem orientar ou mesmo punir casos graves de desvios de conduta de alunos, professores que reprovam alunos e depois são eles os culpados, e tem que fazer reciclagem punitiva do Estado. Tudo isso e outros fatos, vão no dia-a-dia corroendo a mente dessas pessoas.

Não é incomum se observar nas instituições federais, departamentos inteiros onde as pessoas mal se falam. Quando uma pessoa recém-contratada entra numa instituição federal, ela sabe que, se cumprir alguns procedimentos básicos, poderá morrer ali, no mesmo local que entrou sem problemas de demissão. Mas depois de algum tempo, essa pessoa é levada a tomar decisão, escolher um chefe, participar de algum grupo e então, o fator perseguição começa a atuar.

No início realmente existe uma guerra entre grupos, mas ao longo do tempo, se não existir uma válvula de escape, a pessoa fica tão absorvida pela situação que começa a criar seus próprios fantasmas.

O ponto ápice, voltando a Calígula, foi a nomeação de seu cavalo Incitatus ao posto de senador. E o cavalo tinha diversos servidores do Estado, dormia em quarto refinado, tinha colares de pedras preciosas, enfim, para Calígula, Incitatus era uma pessoa. Senadores que criticavam Incitatus eram mortos. Calígula fez e desfez do senado de Roma, humilhando dia após dia os senadores, que antes estavam preocupados apenas com seus roubos e não com o Império.

Incitatus - "Senador" de Calígula

O final? Calígula foi morto.

Não, o Brasil não é uma ilha fora dessa loucura ou demência de poder. Basta lembrar da demência de Carlos Lacerda em perseguir e se sentir perseguido por Getúlio Vargas. Ou então, a demência de Gregório, o chefe da segurança de Getúlio, que encomendou a morte de Carlos Lacerda no Rio de Janeiro. Depois veio a demência dos militares, onde em suas observações, os meios justificavam o fim. Ou seja, matar cidadãos contrários, justificava a liberdade das pessoas e o sentido da "heróica" revolução.

E ainda tivemos a demência do governo Collor, quando o presidente vivia num mundo à parte. Todo dia o presidente saía para trabalhar levando e mostrando a tiracolo um livro diferente, sempre com algum título que lembrasse a situação política do dia. E claro, os demêntes jornalistas da época davam ainda mais poder a loucura, publicando nas chamadas de jornais qual o livro do presidente daquele dia. Isso não é demência de jornalismo?

E atualmente ..... bem, atualmente parece que a demência saiu dessas instituições e tomou conta de todo o país. Para onde se olha se vê pessoas claramente com grandes problemas de esquizofrenia. Uma esquizofrenia coletiva incontrolável. Grupos prós e contras impeachment não debatem ideias, não se ouvem, apenas usam os argumentos dos políticos de sua linha de pensamento para sair em defesa do governo ou contra o governo. É sempre conversa entre pessoas com grave crise de esquizofrenia, onde xingam o rádio ou a televisão quando alguém do governo começa a falar, ou agluém contra o governo começa a argumentar, ou ainda apenas pela cor da camiseta que usa.

Não vamos repetir todos os jargões que ambos os lados apresentaram nesses últimos dois meses, a favor e contra o impeachment. Todos conhecemos, todos estamos exauridos dos motivos e pronunciamentos de ambas as partes. Como se diz em matemática, o Brasil se tornou um conjunto disconexo.

As cenas no Congresso Nacional foram dignas de hospital psiquiátrico. Naquele domingo, todos os demêntes se encontraram, como se fosse uma festa dentro de uma clínica de tratamento, mas sem médicos ou enfermeiros.

A diferença entre o ritual de impeachment e as festas de Calígula, é que o sexo não ocorreu na frente das câmeras.

Pois de resto, deputados enrolados na bandeira, deputados com faixas na cabeça, pintados, pulando, cuspindo, e o pior de todos: enaltecendo bandido torturador, como um troféu contra Dilma Roussef.

E foram poucas as vaias a esse retrocesso e elogio ao Coronel Ustra, o torturador dos tempos militares.

E as cenas de demência se repetem no Senado, onde senadores que há dois meses se debatiam por apioar o atual governo, agora sobem no púlpito para descarregar uma raiva incontrolável contra um governo, do qual ele fazia parte.

Ah, sim, mas ele saiu porque descobriu os erros. Nos conte outra história, porque ratasanas assim nós conhecemos e já vimos muito ao longo da vida.

Votação na Câmara

Coronel Ustra - torturador homenageado por Bolsonaro

Capa do The Economist (23 de Abril/2016)

Programa Amanpour falando do Brasil

E então, quando observamos o STF, mais sinal de demência. Juízes agora participam de enquetes, postam selfies sobre política em shopping center, falam em programas de televisão sobre debates de economia, expõem ideias ridiculas sobre a lei X ou Y e assim por diante.

O debate no plenário do STF sobre a latitude dos estados onde se dariam os votos foi algo de retrocesso escolar. Primeiro eles tiveram que se entender sobre o que era a latitude à qual se referia a constituição (!?!).

E então, vem a demência do jornalismo. É notório o saber que aquela rede de televisão famosa sempre colocou e retirou do poder quem sempre quis. Desde seu nascimento, o grande poder de seu dono chegava ao ponto de ligar pessoalmente para o gabinete do presidente e propor mudança de política A ou B. Se não atendesse, impeachment.

Foi assim com "nosso caçador de marajás". Estava difícil emplacar a eleição de Collor (na época o ensino era um pouco melhor e as pessoas melhor politizadas).

O que fez a grande rede? Meteu goela abaixo uma novela sobre a corrupção no Brasil, e a cada dia, colocando um capítulo que refletia dia após dia a situação real sobre corrupção. E assim, Collor venceu.

E para retirá-lo? Como entrou tardiamente na cobertura do impeachment, a famosa rede aderiu ao movimento colocando uma minissérie bem caracterizada com a situação do país. E então, em tempo recorde, Collor de Melo caiu.

E agora, o ritual de demência continua. Nessa semana, todos os grandes jornais do mundo estão apavorados com nossos representantes. (New York Times(14/abr), New York Times (21/abr) , The Economist (21/abr), por exemplo).

Os jornalistas americanos se preocuparam, pois estavam vendo uma situação estranha na maior economia da américa latina, mas a cobertura estava fraca entre eles. Os editores se movimentaram enviando jornalistas para morar por um tempo no Brasil e traduzir, de forma clara para os padrões deles, o que estava acontecendo aqui.

O resultado foi um festival de documentários e entrevistas muito interessantes e bem diferentes dos apresentados pelos jornais e televisões do Brasil. Totalmente imparciais, as entrevistas nesses jornais se pautaram em esclarecer a estarrecedora situação econômica, não eximiram o governo Dilma de sua culpa, mas apresentaram argumentos muito fortes para questionar o processo de impeachment. (Videos interessantes como esse de Glenn Greenwald vencedor do prêmio Pulitzer, responsável por tornar público Edward Sonowden)

O que ficou mais claro nos textos e entrevistas, inclusive com espanto de alguns âncoras como Christiane Amanpour (CNN) em seu programa, é como alguém é julgado por julgadores réus? A pergunta tanto no Foxnews, quanto na CNN, ou ainda no New York Times, é como alguém pode ser julgado por um congresso onde 60% são criminosos e só não foram para a cadeia, pois tem fórum especial?

Mas a maior demência de todas, é que na quinta-feira, feriado de 21 de Abril, a grande rede de televisão do Brasil citou alguns textos no The Economist, dizendo de nossa situação complicada, mostrou a foto do Cristo Redentor segurando uma placa de S.O.S., mas não falou nem uma frase sequer do questionamento sobre a idoneidade dos julgadores do processo de impeachment. Alías, esse foi o carro central do editorial, dizendo que nossos políticos são uma mistura de negligência e corrupção.

O editorial diz claramente: "... O que é alarmante é que estes que estão trabalhando para removê-la são muitas vezes prior...".

Então quer dizer assim: os jornais internacionais estão corretos enquanto escrevem o que eu quero ler, a parte que eu não concordo eu retiro de minha análise. É isso? Só para citar o maior caso de loucura é que uma revista brasileira de circulação semanal chamou Glenn Greenwald de "governista"!

Qual o verdadeiro medo da grande rede? Se a análise completa dos editoriais internacionais for feita, corre o risco do processo de impeachment não passar no congresso. E qual o risco disso? A situação econômica? Nem pensar, a grande rede e as revistas não pensam nisso.

É que existe um projeto de lei parado no Congresso sobre a regulação da mídia. E a regulação não é sobre "controle de textos ou opiniões", mas sobre concessões. A grande rede sabe que, se passar esse projeto, vai ficar difícil conseguir expandir ou manter o atual grau de concessão para todas as mídias (inclusive internet). E financeiramente para um grande jornal, é perder patrocínios, contratos com o Governo, contratos com as empresas do Governo, ou seja, ficar mais pobre.

Então, em prol de nós (grande rede), vamos contar só o que nos interessa. Vamos viver nosso mundo de fantasia particular e convencer quem nos assiste que a verdade só está conosco. Isso se chama: demência de poder.

 

Gostou do texto?

FAÇA UM DONATIVO PARA O SITE

(R$ 2,00 ; R$ 5,00 ; R$ 10,00 )