Quinta-feira, 17 de Novembro, 2016

 

O medo vence a Dengue

Por que ainda temos dengue no Brasil? Falta de investimento, poderia ser uma resposta. Falta de inteligência dos governos, seria uma outra resposta possível. Gastos errados também serviriam como resposta. Mas o que nos falta é educação e mais importante, medo. Sim, não é apenas um gasto com propagandas em horário nobre que fará com que os casos da dengue desapareçam. As atuais propagandas não influenciam mais como antes.

O número de casos de dengue caiu no Brasil nos últimos meses por dois fatores: Primeiro devido a sazonalidade de reprodução, que diminui no inverno e aumenta no verão. Isso é conhecido.

Mas um outro fator interessante que fez o número de casos cair nesse ano, foi o grande medo do vírus Zika, com seus problemas em crianças e gestantes, o que fez todo mundo se preocupar, fechar caixas d'água, colocar potes de plantas com areia, tentar deixar o quintal limpo, além das multas que foram autorizadas pela justiça.

Sem o vírus da Zika, com toda certeza o número de casos de dengue seria o mesmo dos anos anteriores, fosse qual fosse o investimento ou gasto com propagandas.

Em 2002 alertamos sobre uma possível epidemia em diversos jornais, se comprovando depois com diversas mortes e casos recordes principalmente no Rio de Janeiro (reportagem abaixo).

Jornal da Unesp - 2002

Naquela época fizemos um estudo com modelo matemático e dados reais obtidos da Sucen. Eram tempos difícieis para se conseguir dados reais, uma necessidade pra lá de importante na adaptação de um modelo matemático para previsão. Resolvemos voltar a prancheta para verificar a atuação do modelo, agora com maior facilidade de dados.

Nosso modelo levava em conta 4 variáveis importantes (ver o modelo no texto "Dengue, de novo esse assunto!"). A densidade de mosquitos aedes, a densidade de mosquitos aedes infectados, o número de casos de pessoas infectadas e o envolvimento da população. De concreto e seguro naquela época, eram apenas os dados sobre o número de casos de pessoas infectadas, sendo as outras variáveis obtidas de coletas de dados bem rudimentares e com baixo grau de precisão.

Nos dias atuais a Sucen (em São Paulo) possui uma equipe maior e com uma boa metodologia para se estimar densidade de mosquitos. Para essas variável a Sucen trabalha com o Índice Predial, que é o número de amostras postivas com aedes dividido pelo total de residências visitadas pelos agentes.

Para a densidade de mosquitos infectados, a Sucen possui outro índice, conhecido como ADL- análise de densidade de larvas, as quais são amostradas e verificadas se estão contaminadas.

E por fim, ainda mais interessante, nos dias atuais é possível verificar o grau de envolvimento das pessoas. Como? Decidimos verificar no google trends a quantidade de busca pela palavra chave "dengue". Essa é uma uma excelente ferramenta de termos procurados pelos internautas, com boa estatística e com demonstração atualizada 4 vezes ao mês para essa estatística.

Ao lado é possível ver os dados que baixamos do google trends para a palavra "dengue" e dados sobre a ocorrência de casos confirmados no Estado de São Paulo entre julho de 2014 e outubro de 2016.

A curva laranja se refere ao número de buscas no google trends e a curva em azul o número de casos confirmados de dengue em SP. É possível observar a rápida resposta assim que os casos começam a aumentar.

Ou seja, logo que os casos começam a ser notificados e noticiados pela mídia, existe uma busca imediata por notícias a respeito da doença.

E num rápido olhar, é possível ver que o número de casos de dengue foi menor em fevereiro desse ano em comparação com fevereiro do ano passado.

A curva laranja nos conta o porque disto. O número de buscas no google trends foi bem superior em média em 2016, em relação ao ano passado.

Isso reflete o medo, o pânico e o desespero por conta do vírus Zika e suas maléficas consequências nas gestantes. Sendo o vírus transmitido também pelo aedes, o número de buscas por soluções contra o mosquito aumentou consideravelmente.

Então, de posse dessa observação empírica, resolvemos utilizar esse número em nosso modelo de 2002.

Ao lado é possível verificar que o modelo casou perfeitamente na previsão sobre a densidade de mosquitos. A curva em linha vermelha representa dados reais da Sucen e a curva em azul é a simulação do modelo matemático.

Com o modelo é possível antecipadamente fazer uma boa estimativa, com grande grau de confiabilidade sobre o Índice Predial, que diz qual a quantidade (densidade é a palavra correta) de mosquitos.

 

 

Para a segunda variável o acerto foi muito interessante também. O modelo conseguiu se ajustar bem quanto à densidade de larvas infectadas. Pode-se verificar a boa proximidade entre a curva azul e a curva vermelha.

Já o gráfico para o número de pessoas infectadas não foi uma "grande maravilha". Mas podemos observar a sazonalidade respeitada para o crescimento da doença na população.

E por que a previsão, apesar de acertar na sazonalidade, errou na estimativa?

O modelo matemático nesse caso é contínuo e admite que o ciclo do mosquito tem período perfeito, baseado em seno (função senoidal).

Isso não é verdade, como pode ser observado ainda nos dois primeiros gráficos. A natureza segue de perto a função seno, uma senóide que se repete com um período quase previsível.

Mas seguir de perto, não significa ser ele próprio.

Assim, quando o número de casos dispara, o modelo ainda está esperando pelos resultados da sazonalidade contínua e previsível, que obviamente não ocorre.

Mas um dado mais importante para a distância entre o número de casos reais e o previsto, vem da variável que mede o envolvimento da população.

Ao lado pode-se perceber que a busca pelas notícias no google não é lenta e suave, mas aguda, rápida e quase instantânea.

O gráfico em linha vermelha mostra uma busca rápida pelos termos relacionados à "dengue". Já no modelo, o que se vê como previsão é algo mais lento, suave, respeitando o número de casos.

No entanto foi interessante realizar essa simulação computacional, pois pode-se perceber que o número de casos de dengue caiu, porque o número de busca pelos termos no google foram muito superiores ao do ano passado.

Esse medo foi bem elevado a ponto das pessoas se protegerem mais, refletindo claramente esse medo no número de casos baixos desse ano.

Isso demonstra que, apesar de ser um fator novo terrível, o aparecimento do vírus Zika fez as pessoas tomarem precauções ainda mais fortes do que nos últimos anos.

O medo de pegar Zika, fez a população tentar evitar e se expor ao máximo em pegar dengue.

Em nosso modelo é possível simular o aumento de medo da população. Modelos matemáticos com razoável grau de previsão servem para a compreensão lógica dos eventos naturais. Então, por exemplo, perguntamos ao modelo o que aconteceria se a população estivesse com muito medo, ainda maior do que o real? Simulamos o modelo onde a população não esquece a dengue nenhuma semana sequer.

Ou seja, vamos supor que o assunto é semanalmente, dia após dia, durante um ano debatido nas televisões. O que teria acontecido?

O modelo nos responde que a densidade de mosquito teria caído drasticamente (primeiro gráfico acima) e como resultado, o número de casos despencaria (segundo gráfico acima). Exatamente como aconteceu com os dados reais.

Isso demosntra que a boa mídia ajuda e conscientiza a população. O grande problema é que nossos governantes não querem usar o dinheiro para uma boa mídia. Eles estão fazendo propagandas com empresas que certamente são ligadas a políticos e estão colocando essas propagandas sem muita serventia prática apenas para salvar as empresas de televisão e rádio que estavam falindo.

Algumas cidades estão fazendo um trabalho fantástico, com uma rotina de visitas pelos agentes de saúde, com anotações e muita seriedade na coleta e armazenamento dos dados. Mas mesmo com isso, a Sucen e outros órgão precisam de mais dinheiro para desenvolver novos modelos computacionais, novas contratações e novas práticas educativas de combate à dengue.

Claro que agora com a vacina da dengue que está em fase de teste, a "caça ao mosquito" vai cessar.

Isso vai ser terrível, pois se vamos ficar livre da dengue, não ficaremos livre do mosquito que vai servir de vetor, de transmissor e propagador de outras doenças modernas.

Por isso, atuar de forma responsável e séria na televisão, ainda é a melhor maneira de combater a dengue.

 

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