Quinta-feira, 02 de Abril, 2015

 

Dengue, de novo esse assunto!

Ao abrir o jornal no domingo, era possível se deparar com a notícia:

Famílias estavam desesperadas com as mortes de jovens, adultos e idosos por causa de um mosquito, o Aedes aegypti que transmite a dengue. Não, essa não é uma notícia do domingo passado, ou desse ano. É uma notícia de jornal de ... 2002! Sim, treze anos se passaram, e estamos presos a uma "capsula do tempo". Não evoluímos nem um centímetro no Brasil em relação às doenças simples, tal como a dengue. Absolutamente nada, pelo contrário.

Se em 2002 o Brasil inteiro ficou estarrecido com a notícia das primeiras mortes por dengue no Rio de Janeiro, em 2015 isso é um fato normal. Agora morrem muito mais gente por dengue do que em 2002 e o fato nem chama mais a atenção dos jornais. É um fato que entrou para a "estatística dos mortos por dengue".

No final de 2001 publicamos um estudo em revista especializada, simulando casos e alertamos que um grande surto de dengue estava prestes à acontencer no Brasil. Os modelos que emprestamos de outros trabalhos, de renomados pesquisadores, eram bastantes claros e com resultados bem assustadores na época. Ninguém nos ouviu, e por que deveriam? "Matemática não serve pra nada".

No artigo mostramos a solução, e solução ótima. Mostramos a solução com baixo custo de investimento e com alto poder de impacto na população e no número de casos da dengue. Um jornal retratou nosso estudo, o que hoje está bem surrado e velho, mas nunca esteve tão novo e "inovador", infelizmente.

Jornal da Unesp - 2002

Sim, campanhas educativas e sérias são mais baratas do que colocar todo mundo em tenda de guerra com soro pendurado. Já em 2002 simulamos o impacto financeiro de campanhas educativas na população, e em determinados períodos do ano. Mas não somente as campanhas de televisão que não causam impacto e apenas enchem os bolsos dos marqueteiros e das empresas de televisão. A campanha educativa efetiva que simulamos é aquela de casa em casa, de verificação minunciosa por parte de agentes contratados pelo governo. A campanha de conscientização que custa "mísero" salário mínimo aos agentes causa um impacto financeiro gigante nas contas públicas.

O modelo matemático que representa a dengue está ao lado e não vamos entrar em detalhe, pois não é esse o objetivo aqui. O fato é que ele repete por via matemática a sazonalidade da reprodução do mosquito, o descaso da população e a conscientização (ou não) dos habitantes em áreas contaminadas pelas larvas.

Na época as fórmulas de controle da doença testadas foram o famoso fumacê, campanhas contínuas, campanhas em determinadas épocas e não fazer nada.

O gráfico ao lado mostra que a estratégia "sub-ótima", que é uma técnica de otimização matemática, era a melhor dentre todas. Ela está relacionada com campanhas educativas em determinadas épocas do ano.

No gráfico é possível ver o número de mosquitos caindo violentamente em poucos dias, ao contrário do fumacê, chamado de método de Breteau.

Gastar dinheiro público com veneno, apesar de apresentar um alívio local e imediato, a longo prazo não resolve. E ainda custa caro para o Estado.

É um tremendo engano abandonar as áreas e contratação de agentes públicos para investir em venenos. Será que existe algum "esquema" entre as indústrias de veneno e órgãos dos governos para darem tanta importância ao veneno e menos à educação?

Claro, educação não aparece e na hora do desespero o Estado gasta mais com algo que vai garantir mais votos no futuro. E quando falamos de Estado, falamos de instâncias do Estado como órgão máximo de gerenciamento de crises, ou seja, município, estados e união. E apartidários!

E se você controla o mosquito, você indiretamente está controlando o número de indivíduos doentes. Isso é muito simples, muito infantil, mas nossos governantes não enxergam isso.

Por que o Estado de São Paulo agora é o estado com mais casos de dengue no Brasil? Falta de investimento, falta de contratação de agentes municipais e estadual, falta de campanhas educativas por parte do governo federal que deveria trabalhar em conjunto com o governo do estado, e sobretudo, falta vergonha na cara.

É um absurdo, e chega a ser risível, se não tivessem pessoas morrendo, que um governador que é "médico" deixe o estado mais rico da união sofrer de uma epidemia de população de países pobres.

 

 

Fórmulas do modelo da dengue

Número de mosquitos por semanas de observação

 

 

Indivíduos contaminados pela dengue

 

 

 

Custo total acumulado por semana

Na figura ao lado mostramos por simulação como a educação controla de maneira efetiva o número de pessoas infectadas. A cuva mostra com dados padronizados uma diferença "monstruosa" entre as estratégias.

Os custos disso?

Claro que medimos. As simulações mediram os gastos acumulados das campanhas educativas, das aplicações de veneno, e de não fazer nada.

Nas curvas ao lado, onde se lê "no control", mostram que os gastos de não fazer nada custam seis vezes mais ao longo de 120 semanas, do que se existissem campanhas e visitas periódicas de agentes para "doutrinar" a população.

O que é mais barato? Manter sua casa limpa com água, sabão e não deixar acumular água, ou investimento em vacina? Ou ainda, será que é mais barato uma pessoa ficar duas semanas na UTI por conta da dengue, ou educar essa pessoa?

A educação deve ser uma medida persistente, insistente, periódica e incisiva. Faz parte de todo educador ser o "dono da situação". Educação não é democracia, infelizmente para os pedagogos, educação é ditatorial. Isso porque o educador é o único que (em tese) sabe o resultado final daquilo que está sendo ensinado.

Não fez o que era previsto, o final é previsível: desastre.

Mas o Estado brasileiro dá esse poder ao educador? Não, a começar pelo salário. Professor hoje é tido como "coitado", enquanto antes era tido como um "deputado". Sinal dos tempos de descaso com a educação.

O próprio governador de São Paulo disse que está "cansado dessa novela" de professor reclamar de salário. De uma forma mais "educada" ele repete Paulo Salim Maluf, que afirmou quando governador que, "professor é igual barata, quanto mais se pisa, mais aparece".

Ou então o ex-ministro da educação Paulo Renato já morto, que em televisão disse que: "estou preocupado com as pessoas, não com os professores", em alusão a uma greve nas universidades federais.

E ainda mais absurdo foi a proposta do senhor Geraldo Alckmin, ao tentar forçar para que uma vacina contra a dengue, ainda em fase inicial, fosse injetada na população.

Que escola de medicina o governador fez? Será que ele pulou a matéria de infectologia, ou de saúde pública, ou de riscos biológicos com fármacos?

Não existe como se abreviar o tempo de testes de uma vacina. Nunca! Jamais!

Depois de testar em animais, deve-se ter um período de verificação dos efeitos colaterais. Por exemplo, o que acontece com pessoas cardiopatas? Podem tomar a vacina? Se morrerem o governo do Estado vai assumir a culpa?

Claro que não, nunca fazem isso. As pessoas mortas no Rio de Janeiro em 2002 até hoje não receberam absolutamente nada e nem a causa na justiça deu em algum resultado final positivo.

O que aconteceria com as pessoas que já foram contaminadas com a dengue? Dá para prever o efeito da vacina?

Ou ainda, o que acontecerá com as pessoas alérgicas? Tudo deve ser testado, e isso demora anos, não dias. Por mais eficiente que seja o Instituto Butantã.

É facilmente comprovável que cidades onde os agentes visitavam periodicamente as casas, conversando com os moradores, jogando um pouco de areia em esgotos caseiros, lembrando aos moradores os riscos de deixar água acumulada e incentivando a todos colocarem sal grosso nas calhas, não há epidemia. Existem surtos isolados, mas não epidêmicos.

Claro que os prefeitos são responsáveis diretos, pois eles deveriam relatar o descaso do Estado e cobrar governadores e presidente da República atos para subsidiar a visista de agentes sanitários nas casas.

Agora, nessa semana, o Exército foi tirado do quartel em Campinas-SP para recolher lixo! Tamanho o descaso do Estado brasileiro, que mosquito virou inimigo de guerra número um.

E o pior de toda essa história, é que tudo isso, tudo escrito aqui, já aconteceu há 13 anos atrás!

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