Sábado, 02 de Setembro, 2017

 

Pátria Dependente da Desigualdade

Os dias eram sempre frios, vento gelado e desfile das escolas nas ruas da minha cidade. As fanfarras brigavam entre si para a disputa da melhor banda, o melhor desfile de 7 de Setembro. O lema "Esse é um país que vai pra frente" era dissiminado o tempo todo nas rádios, televisões e propagandas. Quando criança, eu acreditava nisso ao ver os desfiles junto de meus pais.

Assim como eu, uma geração inteira se tornou dependente, sem se dar conta, de um grupo de militares que fazia lavagem cerebral para esconder suas incompetências. Lemas sobre progresso, sobre a oitava economia mundial, sobre o campeão mundial de futebol, tudo para esconder a verdadeira realidade. Sempre fomos desiguais nessa terra, sempre fomos dependentes daqueles que compõem as camadas mais alta do poder financeiro.

Passaram-se mais de 50 anos e as propagandas enganosas continuam, agora com a ditadura política, vomitando desigualdes o tempo todo e dando um tapa na cara de todos aqueles que tem ética. Os poderosos perderam o medo do ridículo, perderam o medo de expor suas riquezas, suas malandragens, suas falcatruas.

E isso fez escola. O atual presidente e todos que o apóiam, sejam dentro do governo, ou indiretamente no silêncio de suas casas, são resultados da esperteza de passar por cima dos outros a qualquer direito, mas se fingir de ético. E a população desse lugar do planeta está dependente disso, como uma droga viciante que infiltrou no sangue e assim permanece.

E sobre todos aqueles que trabalham e dão duro, sobre todos aqueles que pagam seus impostos, que precisam das férias, que precisam dos aumentos nos salários, que precisam dos empregos para suas famílias, quem manda, é quem tem dinheiro, muito dinheiro.

São essas pessoas que compram políticos, que compram reservas florestais, que pagam propaganda pró-governo ou contra governo, que criam partidos políticos, que financiam juízes, que colocam juízes em tribunais de justiça, em empresas de advocacias e compram redes de televisão para dizer que tudo o que é errado, está certo.

Reforma política pra que? Quem vai mandar? Reforma da previdência pra que? Quem vai se aposentar?

Multi-milionários ou bilionários, como queiram ser chamados, são a grota mais perversa da sociedade, vivendo em seu mundo próprio, vezes ou outra ajudando uma instituição aqui, outra acolá, apenas para ficar "bem vista" pela sociedade. No fim das contas, o que conta, é sua competição particular para ver dentro do clube quem é o mais rico.

E dentro desse clube, o banco Credit Suisse publica todo ano um balanço sobre a distribuição de riqueza. Não vamos fazer aqui uma apologia à teoria da conspiração, mas em tom de brincadeira, seria como algo importante para acompanhar se a riqueza continua na trajetória que precisa ter, ou está sendo perturbada por outras classes sociais.

O relatório "Global Wealth Report" tem edições desde 2000, sendo a última de 2016 bastante comentada em janeiro desse ano de 2017 sobre a grande desigualdade de riqueza no Brasil. Nesse tom de brigas políticas, é bom recordarmos dados desse relatório para mostrar que o mais importante está de fora: o povo.

A seguir pode-se observar a trajetória da divisão da riqueza no país (cor azul) em % de adultos no Brasil. Em confronto colocamos a dívida por adulto em cor laranja, medida no eixo da direita.

É fácil perceber duas coisas. Primeiro que realmente tivemos um ótimo período onde a desigualdade estava começando a diminuir, onde mais pessoas migravam de uma camanda mais pobre para outra mais rica (a partir de 2004). Mas como desalento, a curva laranja nos lembra que o povo brasileiro não foi educado para economizar. Sem escola, sem educação adequada e, o mais importante, sem educação igual para todas as classes, as pessoas gastavam à medida que ganhavam mais.

O crédito consignado, por exemplo, foi um erro, ao permitir a falsa realidade de que ao comprar mais a pessoa estava melhor de vida. Isso tinha um preço a pagar, como realmente veio. E não depende apenas da camada mais pobre, pois a dívida calculada pelo relatório é dentre todos os adultos, não apenas adultos da camada de baixa renda.

Assim, tivemos uma oportunidade de ouro, mas ao atingir seu ápice de distribuição de riqueza, o Brasil no ano de 2016 já estava no nível de 2007. Mas o dado mais perverso vem a seguir, quando resolvemos comparar a riqueza por adulto e como ela se distribuiu de 2011 para cá.

Podemos perceber que a riqueza, ou o quanto uma pessoa tem de patrimônio, caiu como era esperado. Mas a distribuição da riqueza caiu abruptamente, muito mais rápido. A desigualdade social explodiu nesses últimos 6 anos, ainda sem contar com esse período fatídico e corrupto de Michel Temer.

A inclinação da curva azul denota a queda bastante acentuada na distribuição da riqueza, deixando os ricos mais ricos, e devolvendo os recém migrados de cada camada econômica para sua camada de origem. Podemos ainda observar que entre 2015 e 2016 os ricos (cor laranja) aumentaram e mesmo assim, a divisão entre todos ficou ainda mais desigual (cor azul).

Estamos tão acostumados a essa palavra desigualdade social, que muitas vezes não nos damos conta que tratamos isso apenas como um assunto estatístico.

Nos esquecemos sempre que por trás dos números, muitas famílias estão em condições miseráveis.

É comum ler na internet ou ouvir algum idiota se pronunciar, de que ajuda de governo para determinado tipo de bolsa é coisa de vagabundo.

As pessoas confundem que devido aos malandros existentes em todas as camadas sociais, as pessoas que mais sofrem com malandros dentro de sua própria camada social são os mais pobres.

Mas quanto mais pobre?

Olhe a tabela ao lado, caro leitor. Em 2016, segundo o relatório do Credit Suisse, entre os adultos, 72,9% tinham um patrimônio total que não passava de 10 mil dolares. Isso ainda é muito, pois o mais correto era verificar quantos não chegam a mil reais?

Por outro lado, para o interesse do banco, claro, foram verificar o lado de cima e refinaram mais seus dados.

Chegamos ao absurdo em descobrir que 0,1% dos adultos em nossa população tem riqueza acima de 1 milhão de dolares.

O banco refinou ainda mais esses dados e descobriu que dentre esses que possuem mais de 1 milhão em riqueza pessoal, 0,5% estavam entre os 1% top dos mais ricos do mundo.

 

 

 

Ou seja, pelos dados do próprio banco, em 2016 em "nossa pátria querida", como dizem os adeptos dos militares, 702 pessoas estavam entre os 1% mais ricos do mundo.

O número é 702.

Sim, 702 pessoas mandam e desmandam em 200 milhões de "compatriotas". Tem algo de errado em nosso sistema. Para ter certeza de que tem algo errado, o relatório ainda proporciona uma comparação entre todos os países do mundo.

Observando ao lado, vemos por exemplo que a Austrália tem apenas 11% abaixo da riqueza de 10 mil dólares. A Nova Zelândia tem 17% e o Japão 9,3% que não chegam a 10 mil dolares.

A Islândia que é uma ilha vulcânica no meio do gelo, sozinha e isolada num oceano revolto por ondas e tempestades, tem 22% da população de adultos que não chegam a 10 mil dólares de riqueza. E dá condições para que alguns se tornem milionários, onde existem 7% com riqueza acima de 1 milhão de dólares.

A distribuição da renda se faz necessária para que não se causem distorções sobre o verdadeiro sentido do que é ter uma pátria, do que é ser cidadão, do que é ser ético ou ter respeito pelos outros. Passamos todos os dias ao lado de pessoas pedindo esmolas com as mãos estendidas e fazemos de conta que não estão ali, que são invisíveis.

O que 702 pessoas tem de especial em relação a 200 milhões? Além do dinheiro e bens materiais, eles desenvolveram alguma vacina para salvar milhões de vida? Eles salvaram o país de uma desgraça ou proporcionam bem estar a milhões? Muitos empresários fazem isso e não estão no meio dessas 702 pessoas.

Muitas indústrias alimentícias ou famacêuticas possuem empresários ricos, mas mesmo esses não estão entre os 1% mais ricos do mundo. Ao verificar os nomes que rodam na internet, percebe-se que a maioria dessas pessoas no Brasil é ligada ao mercado financeiro, cigarros, bebidas alcóolicas, ou refeições de luxo como carnes com cortes de primeira ou lacticínios para pessoas ricas.

Essas 702 pessoas tem um volume de fortuna que corresponde a 50% do PIB das pessoas mais pobres desse lugar em que vivemos. Só a fortuna dessas pessoas redistribuída de forma mais homogênea através de impostos mais duros, tornaria completamente desnecessárias essas tais maléficas reformas que os políticos querem jogar em nossas costas.

Em uma conta rápida, cerca de 250 bilionários do Brasil possuem 500 bilhões de reais. E o governo que demitir 5 mil funcionários federais concursados para "economizar" 1 bilhão de reais. Sim, apenas 1 bilhão.

Então o que temos a "comemorar no dia da pátria"?

Nada. Absolutamente nada, pois é tudo fantasia criada pelo regime militar de que esse dia 7 de setembro nos libertamos de algo ou de alguém. O Brasil não se libertou, como ainda pagou pela suposta liberdade de Portugal e agora pagamos por uma liberdade não existente para os fundos de investimentos.

Enquanto a gasolina sobe todos os dias, numa regra absurda de uma empresa estatal que foi criada para ser estratégica contra interesses estrangeiros contra pessoas de baixa renda, essas 702 pessoas tornam-se mais ricas e outras pelo mundo afora também. Então que independência é essa que temos que comemorar?

A última instância, a fronteira que poderia resguardar os mais pobres dos abusos está destruída. A justiça é quem deveria proteger esses excluídos dos abusos do Estado. Mas seus representantes cada dia mostram o quão podre esse poder sempre foi, mas só agora sai do armário, com juízes que pensam mais em entrevistas e serem vistos, do que serem silenciosos e verdadeiramente justos.

Se o lema inventado para essa terra era "independência ou morte", como não temos indenpendência, o que sobrou?

Resta saber quem ainda vai continuar pagando com a morte, ainda que seja por algum tempo médio, se os desiguais na parte com menos riqueza, ou os desiguais da parte mais rica. Riqueza deveria ser um benefício pela luta diária das pessoas e recompensa pelo seu trabalho.

Mas essa palavra se tornou sinônimo de divisão social desigual, entre aqueles que se acham importantes e aqueles que tem certeza de que não são, vivendo num sistema corrupto e desigual.

 

 

 

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