Domingo, 4 de Dezembro, 2011

 

Desconhecimento ou imprevisibilidade?

"Inexiste no mundo coisa mais bem distribuída que o bom senso...mas é insuficiente ter o espírito bom, o mais importante é aplicá-lo bem. As maiores almas são capazes dos maiores vícios, como também das maiores virtudes, e os que só andam muito devagar podem avançar bem mais, se continuarem pelo caminho reto, do que aqueles que correm e se afastam dele". Esse é um minúsculo trecho escrito por René Descartes que faz parte de seu texto " O discurso do método " de 1637 na França. Descartes foi contra a forma de ensino e se revoltou com os métodos obscuros que eram cobrados e ensinados aos estudantes e pesquisadores. Deixando a fé de lado, ele propõe a metodologia científica como forma do avanço da humanidade, contra aos métodos da época empregados pela igreja baseados em caça às bruxas e demônios.

Esse é só um dos motivos pelos quais as ciências estão anos à frente das finanças e economia. Enquanto as finanças se encantam com tecnologia e integração on-line entre redes de alta conectividade, poucos se arriscam a parar e pensar uma maneira lógica de criar um método científico e levar segurança financeira à população. O começo é sempre uma crise de bancos, mas no futuro leva à crise de educação, crise de saúde e crise de segurança pública. O estopim de todas as guerras do mundo teve sempre início em algum fato ligado à economia. Revoltas populares que modificaram o mundo tiveram início com algum fato ou estopim de crise financeira (vide "Europa revivendo a Bastilha" e "O perigo do monopólio irracional"). O método inocente de John Law de privatizar a dívida de um país, foi o principal responsável pela tomada da bastilha e das mudanças sociais no século XVIII.

Apenas usar, apenas olhar gráficos, apenas conectar celular e ler no máximo 140 caracteres, ao contrário do que se pensa, não faz o mundo evoluir, pelo contrário. Ao usar pouco neurônio, as atividades cerebrais responsáveis pelas conexões das sinapses começam a cessar e as ligações começam a entrar em estado de dormência. No lugar dessas ligações, outras áreas do cérebro tornam-se mais atuantes, tais como a área do estresse, do vício e da raiva. Por isso o mundo parece insano para muitas pessoas, pois estando conectado o indivíduo se acha protegido e informado. Mas não está.

O grande filósofo Karl Popper austríaco escreveu o seguinte em seu texto " A lógica das ciências sociais" :

"... A nossa ignorância não tem limites e é desencorajante...Com cada passo em frente que damos, com cada problema que resolvemos, descobrimos não só novos problemas não resolvidos, como constatamos também que quando julgávamos pisar terreno firme e seguro, tudo é de fato incerto e vacilante..."

Tudo é incerto e vacilante. É o que vivemos agora com a crise européia, onde cada dia a notícia que era considerada boa torna-se ruim. O problema não é das contas financeiras das pessoas comuns, que continuam trabalhando e pagando seus impostos. O problema é da forma como a análise do problema é abordado pelos líderes políticos e financeiros, e posteriormente pelos seus comandados e analistas. Enquanto tudo for superficial, o entendimento é superficial, as soluções são superficiais e o aprofundamento da crise é ainda maior.

Estabilidade e instabilidade estão intimamente ligadas a forma de observação do mundo. Se você enxerga o mundo de forma linear, em breve sua vida vai parecer um caos, pois as enormes interações entre as variáveis de sua vida são altamente não lineares. Essa abordagem é perfeitamente estudada e matematicamente representada pela teoria de sistemas dinâmicos dispostas aqui no site ("Estabilidade e Instabilidade"). É difícil? Sim, mas nem por isso devemos achar que a melhor maneira de lidar com nossas vidas é de forma linear. É assim que os analistas financeiros, os assessores, os líderes e executivos fazem, e por isso cada crise é pior que a anterior.

Ah sim, mas estão ganhando dinheiro. Mas quando perdem dinheiro, perdem muito mais do que ganharam e levam junto inúmeros incocentes.

 

O que acontece (figura ao lado) é que tentando facilitar a solução de um problema, as pessoas de finanças aproximam o problema por modelos que elas podem calcular usando calculadora de bolso. Mesmo sendo problemas complexos, essas pessoas acham que eles se resolvem com apenas algumas dúzias de passos de cálculos. E com o advento das planilhas Excel, para que pensar? É só arrastar células que tudo está pronto, colorido e resolvido.

Já mostramos aqui qual o risco que as pessoas estão correndo com apenas um dos milhares de erros do Excel (vide "O diabo se esconde atrás dos dados... dos fundos de investimentos"). Mas a aproximação funciona tão bem, eles estão ganhando muito! E quando o mercado começa a cair, sem os analistas saberem por que, entram em pânico como criança com medo do monstro do sono.

No início dessa aproximação, mesmo estando distante, como a solução segue uma tendência favorável (representada na figura pela letra "delta e x"), todo mundo fica satisfeito. Os erros, às vezes, diminuem e indicam que a solução é correta e todo mundo continua seguindo cegamente. Mas a medida que a solução vai ficando mais longe a "turma da solução" começa a se dividir.

 

Comparação modelo linear e não linear. Formas de observação da vida.

 

 

 

Modelo Linear e dados reais

 

As pessoas que criaram o modelo e se "apaixonaram" por ele tentam colocar penduricalhos, como chamamos. É um tal de colocar as tais variáveis "dummy" para cercar o modelo que não tem fim. Essas variáveis parecem mais esparadrapos para conter vazamento de canos furados.

Claro que não resolve, pois o problema não é do esparadrapo ou da marca dele, é do modelo. E quando as perdas vão aumentado, o pessoal ligado aos analistas começa a brigar, a ofender, a jogar telefone, palavrões, até que tudo é abandonado. Inclusive o analista criador do modelo.

Pensando que é o analista (coitado) o culpado, contratam outro que tem fama de "ganhador", de "mão quente". E assim vai o mercado, sempre errando, sem parar de verdade para pensar.

Observe a figura ao lado entre o modelo (linha vermelha) e os dados reais (linha azul), simulados por computador (em Matlab) apenas para análise desse cenário. Não parece ótimo?

Poderíamos ter um bom emprego com esse modelo, até acontecer as perturbações de rotina reais, como mostrado na figura abaixo. Veja que no início, mesmo com as perturbações diárias o modelo serve para os propósitos e tudo fica bem, pois não está tão longe da realidade assim. Mas...

Então coisas piores vão acontecendo. Depois de um longo tempo o modelo está tão ruim e tão distante que não se sustenta mais. É hora de criar outro modelo, voltar ao Excel e ... errar de novo. É assim a vida atual dos analistas financeiros, dos executivos, dos líderes, pois não param e estudam verdadeiramente a não linearidade e o que acontece ao mundo.

Mas o que é ruim, pode ficar pior. É quando não apenas ruído do dia-a-dia acontece, mas decisões de líderes são tão ruins que se tornam um problema sistêmico. Ao mexer em alguma componente ligada à uma variável importante, não adianta modelo algum, nem mesmo no Excel, pois tudo ficará longe da realidade. O resultado pode ser visto abaixo.

É que nesse caso você mudou o ponto de equilíbrio, e essa mudança pode tornar todo o mundo instável. Muito complicado? Imagine você no ensino médio, quando lhe foi apresentada a seguinte equação:

E então te ensinaram a resolver e você aprendeu logo. Caro leitor, então imagine o professor reescrevendo a equação alterando apenas o 2 pelo 3, assim

Ainda dá para resolver, pois percebemos que só foi trocado o número mas a metodologia é a mesma. Mas então, algo estranho acontece e o professor apresenta a equação a seguir:

E então você erra. Tudo mudou pois a metodologia de resolução é outra que você não conhecia. As primeiras mudanças eram apenas "ruído" ao seu sistema de resolução. A segunda mudança mudou o sistema todo e é isso que se chama risco sistêmico. Tudo que voce se apoiava e estava seguro não serve mais para resolver o problema, pois o mundo mudou mas sua maneira de enxergar continua a mesma. Existe nessa equação uma raiz quártica que nada é parecida com apenas passar um termo dividindo outro.

Quando o mundo financeiro ficou feliz nessa semana graças ao ingresso de EUA (com o FED), Canadá e Inglaterra para ajudar o ainda não criado fundo Europeu das dívidas públicas é porque não enxergou o tamanho do problema estrutural que vão criar. No primeiro momento todas as bolsas vão subir e tudo vai parecer resolvido, assim como na equação anterior. Mas com o passar do tempo, percebe-se que a solução não é essa, pois o problema não é o mesmo.

Até mesmo Angela Merkel está com fisionomia de cansada de dizer a mesma coisa e está se dando por vencida. Todo o montante financeiro que vão aplicar no fundo Europeu deveria ir para empregos. É geração de empregos que vai fazer o dinheiro circular livremente e não dinheiro em bancos e fundos de investimentos. Quando saiu a taxa de desemprego dos EUA nessa semana, os dados dos consumidores foram "imprevisíveis" segundo alguns editores de mídia. Previam um crescimento pequeno, mas veio surpreendentemente alto. Não tem nada de imprevisível, mas sim de não conhecimento. Se o emprego melhorou, as pessoas gastam mais e ficam mais confiantes!

Quando o Federal Reserve recomprava títulos americanos já estava injetando incertezas no mercado que ainda não sentimos(veja "Nova crise já tem dono: Federal Reserve"), pois elas são de médio prazo. Mas colocar mais montante financeiro, poderá acelerar e estremecer o mundo financeiro, deixando de ser apenas "ruído" e tornando-se sistêmico. O chair do Banco da Inglaterra soltou nessa semana um relatório com cobertura da bloomberg inglesa e disse: "A ciranda financeira dos bancos europeus está mais para problema sistêmico do que para apenas uma crise". E ele está com a razão, já deixou de ser uma crise, mas tornou-se muitas crises.

Erro por desconhecimento é até perdoável, mas erro por imprevisibilidade não. Os líderes estão dizendo que a situação é imprevisível, mas controlável caso os orçamentos sejam enxutos. A previsão é certa de que eles desconhecem o tamanho do problema em que todos nós estamos entrando. Karl Popper tem razão: Nossa ignorância não tem limites.