Sábado, 29 de Maio, 2010

 

Entre o martelo e formão... o desemprego no Brasil

Qual a taxa de desemprego no Brasil? Do ponto de vista estatístico ela está caindo e nos centros urbanos ela está em torno de 4% conforme dados do IPEADATA. O gráfico a seguir mostra a descida da taxa ano a ano desde Março de 2002.

Mas do ponto de vista qualitativo existe uma certa discordância ou pelo menos uma certa dúvida sobre o que ocorre com o setor produtivo do país. Uma discussão interessante ocorreu em diversos veículos de mídia sobre o assunto nessa semana. O destaque se deu pois se a taxa de desemprego está caindo, por que cada vez mais pessoas acima de 40 anos, em áreas como engenharia, se dizem em sérias dificuldades para encontrar emprego? Isso porque as empresas declaram em todas as pesquisas que está difícil de preencher vagas qualificadas.

O assunto não deve ser debatido com dados de hoje, mas com fatos ocorridos há muito tempo, vamos dizer assim... "lá pelos idos do regime militar". O que o regime militar tem com isso? De novo remexer em assunto arquivado? Essa história está batida. Sim, a história é batida mas não morta.

O regime totalitário enfrentou sérias dificuldades em se manter, aliás mais sérias do que os militares imaginavam. Apesar de longos vinte e tantos anos de opressão, a academia brasileira com professores e estudantes foi duramente reprimida e perseguida. O regime logo percebeu que os acadêmicos é como se fossem uma sociedade paralela, que junto com os artistas deveriam ser perseguidos e encurralados até o enfraquecimento. Uma atitude tomada foi a colocação de governadores biônicos, implantados sob uma falsa democracia chamada "colégio eleitoral" que representariam o povo. Esses governadores biônicos eram ligados diretamente com as políticas do regime militar. E uma delas era segurar a fonte da revolta, no caso a fonte estava dentro da sala de aula. Seja com falsos estudantes ou com falsos inspetores de corredores, de todas as formas o regime tentou barrar a discussão de idéias.

 

 

No Estado de São Paulo, quando o então governador Paulo Salim Maluf assumiu o governo, reformou toda a forma de ensino para desmantelar a fonte da discórdia. Insatisfeitos com salários e opressão, os professores de São Paulo deflagaram a primeira greve do ensino público da história do Brasil. Para a época (1978) o impacto foi violento, pois ninguém sequer imaginava que professores pudessem fazer greve. Greve na época era para os metalúrgicos, que se reúniam em estádios de futebol no ABC, com policiais por todos os lados, liderados pelo atual presidente Lula. Mas professores não, isso é o fim do mundo dizia-se abertamente nos jornais. Qual seria a arma da greve? Os alunos, o pensamento ou a lousa? A greve começou meio perdida, mas foi ganhando corpo e forma. A saída do governo foi um divisor de águas no ensino paulista. Por ordem do governador, a grande maioria dos professores seriam remanejados para segundo ele "melhorar o ensino paulista". Professores do interior iriam dar aula na capital (leia-se periferia) e da capital (leia-se centro) dariam aulas no interior.

Não demorou muito para a grande saída e demissões "voluntárias" em busca de concursos públicos ou trabalhos em empresas, ao invés de continuar dando aulas. O estado começou a se desmantelar sob o ponto de vista de ensino e isso se refletiu 20 anos na qualidade dos empregados. Com o desânimo dos que ficaram e má qualidade de ensino dos despreparados que foram entrando, o ensino foi morrendo.

primeira greve dos professores - Estado de São Paulo - (1978)

fonte: Apeoesp - http://apeoespsub.org.br/

 

E então, após o término do regime militar, a população ainda confusa se realmente a opressão tinha terminado, se as regras de fato tinham mudado, se a liberdade tinha voltado, os governos timidamente foram tentando realizar os sonhos dos anos de rebeldia. Alguns até aumentaram os salários dos docentes em 100% como o governo de Franco Montoro, outros deram liberdade financeira às universidades como Oreste Quércia, mas ninguém conseguiu fechar a lacuna da qualidade de ensino perdida. Então chegou 1994 e começou a segunda fase do desgaste e aprofundamento da baixa qualidade de ensino, mas agora a nível nacional. Isso não dependeu de governo, não se deve acusar nem o governos do presidente Fernando Henrique Cardoso e nem do presidente Lula, mas se deve acusar ambos. A foto abaixo mostra os dois participando de forma conjunta de uma panfletagem e convocação de greve por causa das "diretas já". Ambos os presidentes atuaram nos momentos importantes do país, inclusive no desmantelamento do estado em termos de ensino acadêmico.

No governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, ao perceber que as empresas estavam precisando de mão de obra qualificada para o país crescer e o plano real se fortificar, o ministério da educação primeiro mudou o conselho nacional de educação, retirando pessoas ligadas ao ensino público tais como pensadores e filósofos e incluindo reitores de universidades particulares. Por que isso? Por que o governo desejava e tinha anseio de que o mais rápido possível o país formasse graduados para preecnher os empregos e a produção aumentar. Errou, pois o mundo acadêmico é exatamente para se construir e moldar pessoas que estudem formas de pensar em resolver problemas e não técnicos. A universidade nasceu no ideal francês de liberdade, igualdade e fraternidade, um local onde o produto final é o pensamento e não mão de obra de empresas.

O melhor lugar para tornar cidadãos com mão de obra qualificada rapidamente são os cursos técnicos. Esses sim, foram e ainda são esquecidos. No passado (leia-se anos 1950 a 1960) engenheiros, médicos e advogados ganhavam tão bem quanto eletrecistas, enfermeiros ou contadores. Cada área de ação tinha sua atividade balanceada e bem remunerada. Ao intervir de forma desesperada na área errada, o governo de FHC matou as duas áreas. Para tentar garantir que as "novas" universidades seriam centros de excelencia, decretou regras para divisão em faculdade, centros universitários e universidades. Impôs números de doutores, mestres e graduados. E não feliz com essas regras e para parecer a mudança séria, criou o provão. Que não media nem a qualidade de alunos, nem a de professores nem das faculdades.

Então prolifereou o número de faculdades com cursos nada relacionados ao sentido do pensar, do elaborar, mas faculdades para "fazer" rápido um profissional de "fachada". Junto com essas novas faculdades surgiram novos cursos de mestrados e doutorados e regras foram impostas para se diminuir o número de bolsas. Um doutoramento não pode passar de 3 anos, caso contrário o candidato perde a bolsa. E mestrado no máximo um ano.

No governo do presidente Lula, o que se mudou foram as regras para avaliação das faculdades que passaram do campo quantitativo para o estatístico. Agora a avaliação é por amostragem de alunos universitários. O pensamento sobre a academia continua prejudicado com cursos em que médicos não são médicos, mas mero assistentes de médicos formados em faculdades antigas e qualificadas. Engenheiros aprendem com técnicos, pois esses com sua experiência sabem muito mais do que os graduados. Os advogados não conseguem passar no antigo exame da OAB, que era para ser um fato corriqueiro.

O que isso tem com o desemprego da pessoa com idade acima de 35 anos? Os executivos querem mão de obra qualificada e dão de todas as formas bons salários e regras para contratação. A área das empresas conhecida como recursos humanos tenta contratar bons profissionais, mas quando chegam são dispensados. Então o que acontece?

Primeiro: realmente não existem pessoal com boa qualificação pois se formaram em área errada, cursos errados com professores fracos. Os pobres e desinstruídos alunos continuam pensando que currículo no papel salvará sua vida para qualquer emprego.

Segundo: os chefes e gerentes dessas empresas, na enorme maioria tem entre 30 a 40 anos. Isso significa que se formaram por volta de 5 a 15 anos atrás e não vão se esforçar para contratar pessoas mais "velhas". As pessoas nesses cargos de chefia e gerente são as pessoas que exatamente estiveram nessa nova fase de modificação da vida acadêmica nacional. Para essas pessoas, que até devem ser boas mesmo, e podem até fazer MBAs, Mestrados, Certificados, etc, pessoas mais qualificadas e mais preparadas que elas serão um problema no futuro. Será que eles contratariam profissionais de 50 anos de idade, com formação muito boa e excelente se comparada a deles? Um profissional com idade entre 30 e 40 anos dará espaço a um ex-executivo, ou ex-diretor, ou um doutor em engenharia para depois perceber que ele poderá perder seu emprego?

Esse é o gargalo do emprego no Brasil. As pessoas das áreas de chefia e gerência estão em desacordo com seus patrões e com os setores de contratação. Por fazer parte da "nova universidade" voltada para o imediatismo, começam a colocar estereótipos de "velho", "atrasado", "longe da tecnologia", a quem com toda certeza tem mais qualidade e formação muito melhor, como a que existia na década de 1980 (por exemplo).

Se não for valorizada a área técnica para naturalmente se valorizar a área acadêmica, essa invasão errada e migração desproporcional de profissionais mal preparados formarão outro gargalo daqui a 10 anos. O ciclo vai continuar pois nada mudou nessas últimas três décadas.