Quarta-feira, 29 de Junho, 2016

 

O desemprego vai ceder

Com a guerra política que vivemos no país, o resultado mais amargo ficou para a classe trabalhadora. Como sempre, a classe política sempre trabalha para dar aumentos e reajustes anuais mais ganaciosos e irresponsáveis do que para o trabalhador comum, que é regido pela CLT. A mesma CLT que agora sofrerá ataques e provocações para mudar sob o fogo cerrado dos patrões e do governo substituto.

Vão inventar muitas estórias de livro infantil como "ela atrasa o país", "ela prejudica o investidor", "ela não permite o país avançar" e assim por diante. O fato é que, mesmo que muitos sejam contrários, graças a ela a taxa de desemprego ainda está em 11,20%. Conhecendo bem o empresariado nacional, sem a CLT, na primeira balançada da crise muito mais gente iria para a rua. Com a CLT o empresário é obrigado a parar para pensar nos custos da demissão.

Por exemplo, se ele demitir, talvez não dê para aumentar a frota de veículos da família, comprar o tão sonhado helicóptero, comprar aquela mansão na ilha, viajar pelo mundo e assim por diante. Ou será que ainda se tem dúvidas desse tipo de empresariado. E no baixo escalão acontece o mesmo, ou até pior. O dono do pequeno negócio não deixará de comprar um ingresso vip num show sertanejo, ou investir na compra de bois, ou de participar da fórmula 1 no fim do ano, mas despedir um funcionário apenas porque as vendas caíram por três meses, isso seria um fato.

Claro que o outro lado também é verdade. Nossa mão de obra trabalhadora é péssima e folgada. E muitas vezes realmente um sindicato mais atrapalha do que ajuda no aumento de emprego. Proteger o bom funcionário é interessante, colocar todo mundo no mesmo baú é prejudicial. E no Brasil, por conta desse péssimo sistema de ensino existente, funcionário ruim de trabalho é o que não falta. Tem muita gente ruim de entender a lógica simples de compra, venda, operações, etc.

Além de tudo isso, para piorar, com o aumento da inflação, o governo resolveu usar das regras já batidas de aumentar os juros da taxa básica SELIC para conter a alta. Até o momento não deu certo. E quando aumenta os juros, uma coisa que sempre ocorre é o aumento de desemprego.

Como pode ser visto no gráfico à seguir, com dados desde 2002, o desemprego tem um atraso em seu rally de crescimento, mas que ele vem, isso vem.

No gráfico anterior, o nível de desemprego pelo IBGE é medido no eixo vertical à esquerda, enquanto que a SELIC é medida no eixo vertical à direita. Pode-se reparar que enquanto os juros ficaram oscilando mas estacionados por volta e 7% ou 8% ao ano, o desemprego estava em queda até abril de 2014.

Então a SELIC começou a aumentar reunião após reunião do COPOM (Comitê de Política Econômica) e mesmo assim o desemprego caía. Por que? Porque o governo liberou crédito para todo mundo, isentou as fábricas de carros dos impostos, abaixou o preço da energia industrial e assim, com muitas outras medidas perigosas, estancou uma possível alta nas demissões.

Mas quando isso parou, tudo parou. E então, com um atraso de quase um ano, o desemprego no Brasil explodiu e saiu do controle. Foi mais ou menos isso que previmos em nosso artigo de 2013 (ver "Treze gráficos que vão te desanimar"). Quer fazer uma brincadeira de aposta? Aposte que os juros vão começar a baixar nas próximas reuniões do COPOM. Mas e a inflação? Esqueça.

O PMDB vai querer ganhar as próximas eleições na maioria das cidades para manter sua base sólida de prefeitos ligados ao governo. O grande trunfo do PMDB é se manter no poder sempre com as bases regionais atuantes. E com a eleição desse ano mais complicada pelo descontentamento geral, a SELIC vai cair mesmo com inflação alta.

Assim, com essa queda, o governo vai voltar as suas bases dos anos 1980, quando José Sarney fez o mesmo tipo de projeto e todos nós sabemos o que virou. Tentava garantir emprego com regras sobre o overnight, sobre a correção diária da poupança e assim por diante, para manter o emprego e o lucro para o investidor estrangeiro.

Mas a taxa de desemprego vai cair? Nem que for na marra (pelo menos até a eleição).

Mas nem precisará ser assim. Com a recuperação do PIB (ver "Ritmo de queda do PIB diminui esse ano"), devagar mas de forma constante, as exportações vão tornar a balança comercial positiva, incentivando novos negócios. Ainda mais agora que o Reino Unido sairá da União Européia. A União Européia já avisou que as taxas para eles serão altas. Então agora os ingleses vão ter que procurar commodities mais baratas, e entre elas podem estar as brasileiras ("Bye Bye Europa").

Para corroborar com essa opinião, testamos uma metodologia matemática já descrita em outros artigos aqui no site (ver "PIB brasileiro pode cair"). É a conhecida e surrada metodologia de séries temporais. São modelos matemáticos que levam em conta dados passados para fazer uma previsão de curto período.

Não vem ao caso aqui a equação toda, mas a título de exemplo, o leitor poderá observar ao lado a equação ajustada para os dados de desemprego do IBGE.

Os dados vem desde 2002 até o último dado desse mês, referente a maio, com o desemprego da ordem de 11,2%.

O que se observa na equação é que a projeção do desemprego para o futuro, depende do desemprego do mês passado representado pelo termo Des(t-1), do mês retrasado Des(t-2) e assim por diante.

Utilizamos 10 meses passados para ajustar esse modelo aos dados reais do IBGE.

Testamos o modelo para dados passados e o ajuste pode ser comprovado ao lado. Os círculos vermelhos são os dados obtidos pelo modelo, levando em conta 10 meses de atraso.

A linha azul é o resultado com dados reais do IBGE. O ajuste ficou bem interessante e parece confiável. Mesmo com oscilações mais rápidas o modelo consegue acompanhar em sua previsão.

E por conta disso, resolvemos então fazer uma pequena projeção para um mês à frente. Como os dados de junho se referem a maio desse ano, como será o desemprego em julho?

Ou seja, no mês que vem, mais ou menos nessa época de fim de mês deverá ser anunciado a taxa de desemprego desse mês de junho. Então, quanto será a taxa de desemprego desse mês?

Modelo de Série Temporal para o Desemprego

 

Modelo (circulo vermelho) x Dados reais (linha azul)

Previsão de desemprego - Junho 2016

A previsão do modelo de série temporal com os dados do IBGE é de queda para o desemprego. A previsão é de uma taxa de desemprego que estará entre [10,73% e 10,98%].

Será?

É, realmente parece estranho prever uma taxa de desemprego baixando diante de nossa situação complicada. Mas o legal dessa metodologia é que ela observa oscilações sazonais e é muito utilizada para previsão de demandas.

Por exemplo, demanda de energia elétrica, demanda de consumo de combustível, demanda de commodities, enfim, tenta prever eventos que se repetem de maneira mais ou menos previsível todo ano.

Ela erra?

Sim, claro, e as oscilações são responsáveis por erros nesse tipo de metodologia, Por isso esse modelo é limitado e deve ser sempre atualizado com dados mais recentes.

Se for verdade, ou seja, se o modelo utilizado realmente acertar, será uma boa notícia para o trabalhador. Se a taxa de desemprego cair para 10,98%, significará 400 mil empregos a mais para o brasileiro. O que será um alívio para muitas famílias que correm há meses por uma carteira assinada.

E a SELIC vai realmente cair?

É bem provável. Com uma "palavrinha" que o excelentíssimo senhor presidente substituto deu ao presidente do BC, já deixou soar que ele não quer SELIC alta até o ano que vem. Claro, se "for necessário manter que assim seja, o BC é indenpendente e não quero interferir", em suas próprias palavras.

Já interferiu.

Agora é esperar por mais trabalho e carteiras assinadas para o trabalhador que mais sofre com esse caos político. Então, vamos deixar anotado e ver a precisão desse modelo para os próximos dados reais.

 

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