Quinta-feira, 8 de Outubro, 2015

 

Um dia chamado "amanhã"

Amanhã vai chover? Talvez com probabilidade de 65% sim. Esse é o tipo de pergunta e resposta padrão para os telejornais quando o assunto é a "moça" da meteorologia. E para o espanto dos âncoras, não é que elas (elas nada, são os pesquisadores) acertam! Graças a um cojunto de equações- e coloca equações nisso- mais uma rede de coleta de dados espalhadas pelo país, a meteorologia consegue fazer uma boa previsão nos dias atuais. Mas se não fosse um supercomputador no INPE(Inst. Nac. Pesq. Espaciais) voltado especificamente para rodar modelos de previsão, nada disso teria sentido. Era o que acontecia antes desse supercomputador, ou seja, previsõs sem sentido e dignas de chacotas.

As equações foram desenvolvidas pelo menos dois séculos atrás, entre elas as equações baseadas na propagação de ondas. Entre os criadores dessas equações está o matemático D' Alembert e sua equação da onda, com a seguinte forma

Apesar de parecer muito complicada, por incrível que pareça é uma equação "simples", mas que somente sua solução leva pelo menos duas páginas com letra corrida. Se apertarmos a caligrafia para uma letrinha bem pequena, pode ser que a solução fique com apenas uma página. Mas para a previsão do tempo, só de equações, são arquivos com muitos megabytes. Só de dados para ajustar parâmetros são arquivos com muitos terabytes!

Para circundar a Terra, satélites são milimetricamente vigiados. Sabemos a cada segundo onde ele estará nos próximos 6 meses com precisão de centímetros. A NASA envia sondas para outros planetas e prevê dez anos antes, como, quando e de que forma eles passarão por esses planetas. A famosa equação de Newton, com cerca de 300 anos, ainda é poderosa nos dias de hoje

Quando engenheiros se debruçam sobre um projeto de carro de Fórmula-1, sabem a cada volta, quando o piloto deverá parar, quanto de combustível ele terá, qual velocidade ele poderá atingir para economizar pneus e tudo, graças as equações de Navier-Stokes, de duzentos anos atrás com a forma,

E no caso dos analistas do mercado financeiro, a equação logaritmica se ostenta como a ferramenta mais "poderosa" e capaz de previsões incríveis (que sempre erram) sobre o preço do dolar no final de 2018 !

Essa equação (só um exemplo, mas são utilizadas derivadas dela), que qualquer colegial estuda e usa para resolver algumas questões de vestibular, aparece o tempo todo nas calculadoras dos analistas de mercado, dos jornalistas econômicos que ainda tem a petulância de dizer que "os detalhes são muito técnicos, mas prevemos que o dolar estar valendo...".

A petulância das análises não está nas previsões errôneas que os analistas de mercado, analistas de bancos, analistas de corretoras fazem. A petulância está na relutância em não enxergar o quão simplório é o que fazem, e o quanto ainda fazem de forma errada.

Não podemos julgar uma pessoa por seu limitado conhecimento, mas podemos julgar por sua teimosia em não querer aprender coisas novas e reconhecer que aquilo que faz está errado. E o pior ainda maior, eles "são formadores de opinião", como gostam de dizer. Ou ainda, são os "players" do mercado.

Entramos nessa "balela" dois anos atrás (veja o texto "Não compre dolar"), para mostrar que é impossível se prever preço de dolar. Usamos um modelo de série temporal, e ao contrário dos analistas, dissemos que nossa previsão estava errada (e quanto foi errada!).

Usamos até uma ferramenta mais "avançada" do que os logaritmos dos analistas, ou seja, usamos uma série temporal. Nossa previsão de curto período parecia bem otimista e acurada (gráfico ao lado) com série temporal rodada em Matlab.

Mas então, para provar que não tem maneira de prever preço do dolar para um horizonte maior do que alguns dias, como fazem os analistas dos bancos, da televisão e de corretoras, rodamos o modelo para um ano.

CRASH! O modelo, que é muito melhor do que os logaritmos dos analistas, errou, e errou muito! E avisamos que ele iria errar de forma absurda.

 

histórico da cotação do dolar até 2013

Previsão na época de 2013

Nossa previsão "patética" para um ano à frente para o dolar

Previsões do UOL para 2015

O resultado "risível" e "patético" de nossa previsão está ao lado, prevendo um dolar na casa de R$2,25 ao final de 2014. O valor real da cotação do dolar no fim de 2014 foi de R$ 2,65. Um erro de previsão de 15% um ano antes.

Então, como, em sã consciência, alguém, algum investidor, algum leitor, pode ler e se espantar com previsões super-otimistas ou super-catastróficas para o dolar daqui um ano?

Como alguém pode traçar o cenário econômico de uma nação, com previsões patéticas como essas que a mídia insiste em publicar todos os dias?

Claro que os defensores vão dizer que isso "reflete a expectativa do mercado". Mas o que é expectativa? Quem não tem expectativa de ganhar na megasena no próximo concurso? Todo mundo, desde que jogue, tem expectativas altamente positivas sobre ser milionário.

Mas ninguém em sã consciência, vai colocar todo seu salário nos cartões da megasena. Ou ainda, ninguém vai pegar todo o dinheiro de sua empresa e jogar na megasena.

Mas, graças aos "fomadores de opinião", todo mundo coloca muito dinheiro de seu dia-a-dia em apostas para o dolar ao final do ano que vem! Ah sim, vão dizer que eles gerenciam bilhões e nunca erram.

O que aconteceu com o Banco Votorantim? Quem foi que em plena crise de 2008, apostou no dolar e levou o banco à um tremendo rombo?

E mesmo assim, a mídia insiste em convencer o pobre leitor, leigo em previsões, que a situação vai se tornar dramática daqui... 2 anos!!

Acima, no quadro anterior, é possível ver as previsões do UOL coletadas entre os analistas de mercado uma semana antes do fim de 2014. Projeção de inflação em 6,54%, erraram. Previsão de PIB para 0,55% e ficou em...

Sim, mesmo há apenas 8 dias para o final do ano, os analistas de mercado conseguiram errar a previsão para o PIB, e como erraram!

A culpa por esses erros, não são dos pobres analistas de mercado, eles foram criados para ficar parados no tempo, brincando com equações ultrapassadas, de fazer previsões. E como a mídia sempre procura esses notáveis cidadãos, quem não vai querer ver o ego aumentado ao aparecer no jornal das oito, dando dicas do que vai acontecer com o dolar?

A culpa é do nosso ensino ainda atrasado nessa área, de nossos professores ainda com "reserva de mercado" que são relutantes em ensinar ferramentas modernas, análises mais interessantes. Se isso começa a aparecer demais, eles, os professores que são o ponto de referência dos jornalistas, vão perder seu status de catedrático.

Por exemplo, um grande evento ocorrerá no ano que vem em São Paulo, sobre Econofísica. "Grandes" economistas do país estão boicotando de alguma forma o evento. Por que? Segundo eles próprios..."não queremos ser rotulados como essa gente".

Para esses catedráticos é assim: errou? Não tem problema, amanhã tem outro assunto, outro dado, outro acontecimento e ninguém vai se lembrar de mim. Por isso, o dia chamado "amanhã" não incomoda essas divulgações furadas da mídia do mercado. Amanhã não existe, o que importa é agora.

 

 

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