Sábado, 17 de Setembro, 2011

 

Diga com quem andas

 

 

Um soldado raso alemão, que estava detido na prisão, imaginou que tinha encontrado a causa de todos os males para o mundo, em especial para sua Alemanha. A causa de tudo era um povo, o povo judeu. Com a idéia nefasta e neurótica fundou um partido de loucos que convenceu a população a votar no melhor partido para a época. O povo alemão, humilhado e empobrecido pela primeira guerra mundial, estava necessitado de uma luz, de uma direção, e as pessoas acabaram se convencendo que o partido nacional socialista era o melhor para sua recuperação. O nome conhecido desse partido é símbolo de matança e de loucuras, o partido nazista. E não é que o soldado raso alemão conseguiu se tornar Chanceler e até publicou um livro, a bíblia das mentes neuróticas?

O nome desse soldado despreparado para a vida todos conhecemos e o ser humano não se orgulha de lembrá-lo, mas a história de Hitler ficou marcada pelas primeiras imagens nítidas de uma guerra. Muito bem preparado para o marketing através de Goebel, o que impressiona nos dias de hoje, é como se deixou a situação caminhar e chegar ao ponto que chegou. Historiadores lembram que a Europa estava cansada e recém-saída de uma guerra sangrenta e se esquivava de qualquer outro envolvimento militar. Essa é uma conclusão possível, mas se lembrarmos que a Alemanha era controlada pela Liga das Nações (órgão fraco que correspondia à ONU), todos os passos poderiam ser evitados no início.

É injusto hoje acusar os europeus da época, com um olhar calmo sobre o que já passou, e dizer que foram omissos e irresponsáveis. Mas o fato é que todo o mal poderia e deveria ter sido evitado no início, para evitar sacrifícios enormes à inocentes. Lideres são escolhidos exatamente para isso, para tomar atitudes difíceis também em tempos de paz e não somente em tempos de guerra. É ilusão de todos, no mundo globalizado, achar que um problema lá não é um problema aqui.

Na época o ditador italiano Mussolini já tinha se tornado parceiro de Hitler e ambos tinham a mesma ambição de guerra e destruição do povo judeu. E a Liga das Nações apenas se reunia tomando atitudes infantis e delirantes. Por exemplo, uma atitude foi "perdoar" a dívida de guerra da Alemanha. Basta lembrar que o mundo passava pela crise de 1929 e a Liga achou por bem não cobrar mais os tributos de guerra para não espalhar a crise mundial e a recessão. E ainda permitiram a militarização da Alemanha, com a desculpa que geravam empregos tanto na Alemanha quanto nos países europeus. Isso facilitaria sair da grande depressão de 1929.

E Mussolini e Hitler se tornaram parceiros comerciais e militares ao seu bel prazer e com aval de todas as nações da Liga. E a Liga ainda permitiu que Hitler invadisse a Austria e a anexasse sob o pretesto que era a vontade popular. Quando se deu por conta, a Liga das Nações não existia mais e de tão fraca e obsoleta foi extinta e desapareceu.

Não tomar decisões duras, difícieis, mas importantes, torna uma situação difícil um caos. Nessa semana o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick fez declarações fortes e importantes sobre a Europa. Ele disse (confira aqui) que o mundo está entrando em zona de perigo e a Europa, Japão e EUA precisam tomar decisões duras para evitar uma crise global ainda pior do que em 2008.

Zoellick disse que os países precisam de uma união fiscal e medidas que busquem novos polos de crescimento para gerar empregos. Essa sim, é uma idéia que deveria ser rapidamente tocada e colocada a frente de qualquer outra. A segunda guerra mundial começou com desemprego em massa da Europa.

Zoellick

Presidente do Banco Mundial

 

Timothy Geithner

Secretário do Tesouro Americano

 

 

Na terça-feira (13/09) parecia que a Europa realmente ia começar a agir, atacando todos os tipos de males. Em entrevista à Bloomberg, o chefe do serviço financeiro da União Européia Michel Barnier disse que os serviços de negociação usando canais de alta-frequência poderão ser proibidos ou sofrerem regulação mais severa e especial (leia aqui).

A UE identificou práticas e truques de manipulação de preços, fazendo o volume de compras ou de venda subirem assutadoramente sem causa aparente. Já comentamos aqui, em diversos textos sobre os males que esse tipo de negociação está causando no sistema financeiro mundial ( "As negociações de alta frequência"; "Flash Crash: o crash cibernético"; "Banda larga, banda podre").

Alguns economistas acham esse tipo de preocupação desnecessária, pois se há alguém vendendo é porque existe alguém comprando. Errado. Se existe alguém vendendo é porque estão induzindo com falsas projeções, com falsas notícias, alguém a comprar. É só lembrar de nosso texto em 23/02/2010, onde se descobriu que o Goldman Sachs ofereceu um serviço de mágica para diminuir a dívida da Grécia ( "Retoques perigosos no mercado").

A investigação do Le Monde acusou na época o Goldman de inventar um novo tipo de "swap cambial" contra especulações. Isso é ético? Isso é correto, como o Sr. Blankfein (CEO do Goldman) diz? O Goldman Sachs ainda está até hoje num processo por fraude civil de mascarar não só essa análise, mas outras. E tem gente que acha isso normal (relembre "Fecha-se o cerco ao Goldman Sachs").

Em 2008, quando a crise estourou e o desespero bateu no governo americano, o secretário do tesouro dos EUA, Henry Paulson era muito ligado ao Goldman Sachs. Ele trabalhou no Goldman de 1974 até o início da gestão Bush (filho) quando saiu e fez meio bilhão de dólares em fortuna pessoal. Influenciado por Thimoty Geithner, Paulson chamou os bancos e emprestou mesmo sem necessidade, 127 bilhões de dólares para mante-los capitalizados. Essa frase é mágica.

A obrigação dos bancos era facilitar crédito e despejar dólares no mercado. Investigação posterior mostra que o repasse dessa verba foi ínfimo e que os bancos (J.P. Morgan, Goldman Sachs, Merril Lynch, Morgan Stanley, Bank of America entre outros) ganharam muito dinehiro colocando todo o montante na roda das bolsas de valores. Por isso em 2009 as bolsas mundiais subiram forte, mas não geraram emprego, pelo contrário, aumentou o desemprego americano. Esses mesmos bancos mais demitiram do que contrataram e ainda ameaçam nesse ano aumentar as demissões.

Essas mesmas pessoas, esses mesmos bancos, estiveram nessa semana (12-17 de Setembro) presentes nas reuniões dos líderes europeus. E a semana que parecia ser de atitudes sérias, descambou para novamente alimentar a roda das bolsas de valores, mas não do emprego. Timothy Geither novamente estava presente com sua idéia de liberar dinheiro a bancos. E assim foi feito na quarta-feira. Os bancos receberão, mesmo sem necessidade, mais de 100 bilhões de dólares em parcelas durante três meses para mater capitalização. A influência de Geithner foi novamente maléfica e beneficiou bancos, mas não os funcionários dos bancos, não a população de desempregados, não a economia real.

E quem foram os bancos? Além dos bancos europeus, principalmente o Societé Generale, os mesmos bancos americanos com suas filiais européias receberão mais um enorme montante. Inclusive Goldman Sachs que está sendo processado pela SEC (correspondente à CVM do Brasil) por fraudar relatórios sobre a Grécia! Ouvir as opiniões de Geithner foi o que de pior poderia acontecer para a Europa, e o de melhor poderia acontecer para as bolsas de valores. Por isso as bolsas da Alemanha, França e Inglaterra, além da Espanha e Itália subiram em alto e bom tom.

Os adeptos da idéia de irrigar bancos devem se perguntar: mas vamos deixar bancos falir? A resposta é: vamos deixar esses bancos continuarem a agir irresponsavelmente? Se você, caro leitor, se sente distante desses fatos, distante de toda essa discussão, prepare-se para começar a participar dela. No dia 22 de Setembro (2011), nosso ministro da fazenda, mais os ministros da Russia, India e China vão se reunir com Timothy Geithner nos EUA. Depois desse dia, você certamente vai sentir no seu bolso, a ajuda que vamos ter que fazer aos bancos europeus. O Brasil está sendo convocado e quase obrigado a comprar títulos da Grécia e de bancos quebrados da Europa.

Todo o aperto que fizemos, fazendo superavit primário e reserva cambial de 350 bilhões de dólares, serão emprestados para os países europeus, e indiretamente para Goldman Sachs, J. Morgan, Morgan Stanley, Bank of America, Societé Generale, UBS, entre outros que só ganham. Assim como a segunda guerra mundial parecia muito distante do cidadão comum do Brasil, mas depois enviamos homens para morrer, agora a crise vai nos pegar em cheio nosso bolso. Parte considerável do salário do brasileiro, através das contas de água, luz, telefone, transporte, tudo isso, terá uma parte transferida para capitalizar os bancos que mascararam a Grécia, que enganaram investidores e criaram a crise.

Ao assistir noticiários ou ler notícias, veja quem são os amigos, veja com quem eles andam e veja o que já fizeram não no passado, mas a menos de dois anos. Você, caro leitor, está comprando títulos da Grécia sem saber.